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Antes de Bolsonaro, outros políticos também provocavam adversários

Ontem, Jair Bolsonaro recebeu a deputada Beatrix Von Storch (na foto, com o presidente e o marido, Sven), do partido Alternativa para Alemanha, um dos próceres da extrema direita alemã e frequentemente acusado de ter ligações com o movimento neonazista. O encontro é claramente uma provocação aos oposicionistas do governo – mas, neste caso, há um efeito colateral. Até hoje, o presidente vinha se colocando como um defensor de Israel e da comunidade judaica. A reunião com a alemã, no entanto, provocou críticas entre líderes hebraicos.

Bolsonaro parece ser guiado pelo desejo de provocar seus opositores, não importa o preço a pagar pelas pirraças. Mas ele não é o primeiro e nem será o último político a enveredar pelo caminho das provocações. No passado, o Brasil também abrigou em sua cena política indivíduos com tal disposição. Figuras como essas são pródigas na história brasileira, tanto à esquerda como à direita do espectro ideológico nacional. Abaixo, dez exemplos de personagens de nossa história que também gostavam de cutucar a onça, às vezes com a vara curta:

Jânio Quadros – Não se sabe ao certo qual era o estado etílico do ex-presidente Jânio Quadros quando recebeu o ícone esquerdista Che Guevara e o condecorou. Mas a cerimônia foi vista como uma alfinetada de Jânio aos quadros mais conservadores da União Democrática Nacional, seu partido – em especial o então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. Jânio condecorou Che em 21 de agosto de 1961. Quatro dias depois, renunciava à presidência.

João Goulart – Jango, naqueles meses que precederam o golpe militar de 1964, ouvia frequentemente que os generais estavam insatisfeitos com seu governo e conspirando para apeá-lo do poder. Flertava perigosamente com a esquerda, como se pôde ver no discurso proferido em 13 de março de 1964, no qual gastou boa parte do tempo falando de reforma agrária. “Reforma agrária com pagamento prévio do latifúndio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária. É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro”, disparou para a plateia que o ouvia na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Alguns dias mais tarde, em 30 de março, reuniu-se com sargentos das Forças Armadas na sede carioca do Automóvel Clube. Aqui, uma provocação ainda maior aos militares, pois sinalizava a tentativa implícita de se tentar romper a hierarquia das tropas e obter uma conexão direta com quem tinha a chefia cotidiana dos soldados. No dia seguinte, Jango seria deposto.

Itamar Franco – O ex-presidente aparentava calma. Entretanto, tinha inúmeras manifestações de irritação quando era contrariado. Uma delas foi quando recebeu o ex-ministro, ex-governador e ex-senador Antônio Carlos Magalhães para uma conversa. Nela, ACM insinuou que poderia fazer alguma denúncia contra o governo caso não fosse atendido em uma determinada demanda política. Itamar não se fez de rogado. Chamou todos os setoristas do Palácio do Planalto ao salão presidencial e disse ao interlocutor que ele poderia fazer a denúncia que bem entendesse aos jornalistas. Uma provocação quase que nuclear em se tratando de Toninho Malvadeza.

Carlos Lacerda – Lacerda foi um dos maiores oradores que a política brasileira já produziu. Tinha a capacidade de hipnotizar uma plateia e convencer multidões, de uma vez só, a mudar o voto. Mas também era um provocador nato. Promoveu uma violenta campanha contra o ex-presidente Getúlio Vargas durante o mandato que teve início em 1951. Em represália aos ataques e provocações, Lacerda sofreu um atentado na Rua Toneleiros, no Rio, no qual uma pessoa foi morta e descobriu-se que membros da guarda particular de Vargas estiveram envolvidos. A data da tentativa de assassinato foi 5 de agosto de 1954. Três semanas depois, pressionado pelas Forças Armadas, que queriam seu afastamento para resolver a crise institucional que se estabelecera, Getúlio cometeu suicídio.

Leonel Brizola – O ex-governador foi conhecido pela verve e pelas pausas dramáticas durante as entrevistas. Mas era igualmente um provocador contumaz. Certa vez, na antessala do presidente Juscelino Kubistchek, várias pessoas esperavam sua vez para ser atendidas – entre as quais o próprio Brizola e o jornalista Roberto Marinho, autor de editoriais defendendo a entrada de capital estrangeiro no país para impulsionar a economia nacional (uma posição oposta à do governador). Quando foi chamado, Marinho passou por Brizola e ouviu: “Lá vai o entreguista”. Seguiu-se um fuzuê tão grande que até JK saiu de seu gabinete para ver o que estava acontecendo.

Erasmo Dias – Coronel do Exército e secretário de Segurança Pública de São Paulo, Dias invadiu a PUC se São Paulo para reprimir uma reunião de estudantes em 1977. Diante das reclamações, gritou: “É proibido falar. Só quem fala aqui sou eu”. O saldo dessa invasão: mais de trinta estudantes no hospital.

Marcio Moreira Alves – O deputado tinha fama de provocador mesmo antes de assumir um mandato legislativo. Em 1965, ao participar de um ato contra o presidente Humberto Castello Branco, percebeu que um grupo de manifestantes havia sido preso e ele continuava em liberdade. Diz a lenda que ele correu atrás da viatura policial e exigiu ser detido junto com os companheiros. Em setembro de 1968, já no Congresso, fez um discurso contra a ditadura, protestando contra a invasão da Universidade de Brasília. No meio, conclamou as jovens brasileiras a não namorarem oficiais do Exército. Na sequência, o Congresso recusou o pedido para que Marcito, como ele era conhecido, fosse processado. A represália foi a edição do Ato Institucional número 5, o AI-5, que deu plenos poderes ao presidente da República para fechar o Congresso e suspender os direitos políticos dos cidadãos.

Newton Cruz – Notório bravateiro, o general destoava um pouco do cenário político do início dos anos 1980, de abertura do regime militar. Em entrevista coletiva, mandou um repórter calar a boca. Em seguida, o jornalista desligou o gravador e foi empurrado pelo militar. Voltou a gravar e disse que havia sido levado um encontrão de Cruz, que o agarrou pelo pescoço, exigindo desculpas.

Sylvio Frota – O ano era de 1977 e o general – linha dura – era ministro do Exército. Ele queria ser escolhido como sucessor de Ernesto Geisel e interromper o processo de abertura política que seria implementado para valer no governo seguinte. Frota, que acreditava haver uma “infiltração comunista” no regime, encaminhou aos jornais uma lista de 98 subversivos que estariam contratados em universidades, ministérios e governos estaduais (uma delas era a então professora Dilma Rousseff). Geisel demitiu o ministro, que tentou derrubar o presidente na sequência, procurando o apoio de todos os oficiais mais importantes da época. Mas não conseguiu falar com ninguém – o presidente, antecipando-se ao ex-auxiliar, havia convocado todos os generais, almirantes e brigadeiros para uma reunião no Planalto. Neste encontro, um dos militares perguntou a razão pela qual Sylvio Frota tinha sido demitido. A reposta de Geisel: “O cargo é meu”.

Silvestre Péricles – O senador, como dizem hoje, nunca foi da paz. No início da década de 1960, em um discurso, ameaçou matar o colega Arnon de Mello (pai do ex-presidente e também senador, Fernando Collor), que passou a andar armado. Péricles, em uma discussão de Plenário, chamou o desafeto de “crápula” e partiu para cima dele com o revólver. O senador José Kairala se engalfinhou com Péricles para desarmá-lo e acabou recendo um tiro de Mello por engano. Morreu no hospital por causa de uma bravata encomendada a outro e de uma bala que não era dirigida a ele.

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