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A Secom vai abrir a mão. Isso muda alguma coisa entre governo e imprensa?

A Secom vai abrir a mão. Isso muda alguma coisa entre governo e imprensa?

A Folha de S. Paulo de hoje mostra que a Secretaria de Comunicação do Governo Federal pediu uma verba adicional de R$ 325 milhões para melhorar a imagem da gestão do presidente Jair Bolsonaro. Essa soma será destinada, entre outras coisas, a custear anúncios em veículos brasileiros e do exterior e representa pouco mais que duas vezes o orçamento consolidado da secretaria para 2020, estimado em R$ 138 milhões.

O repórter Renato Onofre teve acesso a três ofícios encaminhados pela secretaria ao alto comando do governo, no qual se justifica o crescimento do ervanário da seguinte forma: “Tais providências são determinantes para que a Secom, no contexto de enfrentamento do Brasil à pandemia do Covid-19, tenha condições de cumprir com sua missão de promover a comunicação do governo federal com a sociedade e ampliar o acesso às informações de interesse público”.

A princípio, não parece algo estranho. Afinal, estamos no meio de uma pandemia e a imagem do governo não é das melhores – tanto no país como fora dele. Assim, numa situação como essa, seria normal pedir suplementação de verba.

Mas, quando lembramos que esse é um governo que vem travando uma queda de braço com a imprensa, um gesto como esse pode ser encarado com uma certa dose de desconfiança. Afinal, Bolsonaro sempre bateu na tecla de que sua administração recebia críticas porque a Secom havia fechado torneiras e não mais anunciava nos grandes veículos. O festival de más notícias, assim, seria uma forma de pressionar o mandatário a abrir os cofres públicos.

No mês retrasado, por exemplo, Bolsonaro fez duas declarações neste sentido. Disse, no dia 31, que a “mídia podre produz, diariamente, dezenas de fake news contra o presidente”. E questionou a credibilidade dos órgãos de comunicação. “Será que se eu chamar essa imprensa e negociar com ela alguns bilhões de reais em propaganda, tudo isso se acaba?”, indagou.

O jornalismo praticado lá fora também foi alvo de críticas. Quando questionado por uma simpatizante, em 25 de maio, sobre a má imagem do Brasil nos jornais do exterior, Bolsonaro respondeu: “A imprensa mundial é de esquerda. O [presidente Donald] Trump sofre muito nos Estados Unidos também”, afirmou.

Em maio, tivemos dois episódios que demonstram a aversão do presidente em relação aos veículos de comunicação. Em julho, no entanto, o governo analisa uma proposta para aumentar sua capacidade de anunciar na imprensa. Entre as duas situações, o que houve de novo?

Resposta: a posse no novo ministro das Comunicações, Fábio Faria (foto), que acabou também recebendo o comando da Secom. Faria, conhecido por sua habilidade em circular facilmente entre os formadores de opinião, deve ter influenciado o governo a investir em publicidade e em relações públicas.

Mas os grandes veículos nacionais, justamente os que mais criticam o governo Bolsonaro, deverão ficar de fora desta farta distribuição de recursos, apesar da grande circulação e audiência. Cerca de R$ 200 milhões serão colocados nas chamadas mídias regionais. Ou seja, o governo acha que apanha dos jornalistas porque não gasta com propaganda. E, quando resolve abrir a mão, continua tratando os veículos de grande expressão a pão e água.

Entre os apoiadores de Bolsonaro, há praticamente um consenso de que a má vontade de jornais, revistas, emissoras de TV e de rádio têm a ver com essa seca de verbas. Mas o que dizer das inúmeras reportagens que falavam mal de, por exemplo, Dilma Rousseff, que podiam ser vistas nesta mesma imprensa que malha Bolsonaro?

Nem bem assumiu o segundo mandato, Dilma recebeu saraivadas de todos os lados. Foi literalmente bombardeada por quase todos os órgãos de imprensa em 2015, ano em que teve início o processo de impeachment (em 2 de dezembro). Neste mesmo exercício, o orçamento da Secom — sem reajustar os valores pela inflação — foi de R$ 1,8 bilhão. Desse total, R$ 234 milhões foram destinados à internet, contemplando também blogs e sites que apoiavam o governo petista. Mas o grosso da verba foi para grandes veículos que usavam seu espaço editorial para bater feio na sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva.

Portanto, neste caso, o dinheiro (que estava entrando) não fez diferença para evitar os apupos. Faria diferença agora? Na maioria dos casos, não.

Acreditar que a verba publicitária seria um antídoto contra críticas é comum entre os que não conhecem a ética jornalística e ignoram a dinâmica entre redação e publicidade nas grandes casas de comunicação. Em minha carreira, por exemplo, sempre convivi bem com os amigos da publicidade e nunca presenciei ninguém da área comercial pressionando para que jornalistas falassem bem do Planalto em função de um gordo orçamento publicitário.

Na verdade, a separação entre editorial e publicidade (que chamamos com alguma ironia de “Igreja” e “Estado”) dentro dos veículos é algo levado a sério. E, quando existe algum tipo de desrespeito às regras, sempre podem ocorrer cenas dignas de pastelão.

Nos anos 1980, por exemplo, um contato publicitário descobriu que haveria uma reportagem sobre pianos na revista na qual trabalhava. Foi atrás de um fabricante de instrumentos e o convenceu a colocar um anúncio naquela edição – e até conseguiu paginá-lo próximo da matéria. Quando a revista foi impressa e chegou às mãos desse profissional, ele gelou ao ver o título do artigo. Era o seguinte: “Piano – o que fazer com esse elefante branco?”. Desnecessário dizer que aquele profissional de publicidade nunca mais tentou cruzar a fronteira entre Igreja e Estado novamente.

O dinheiro da Secom, assim, vai fazer alguma diferença? Somente para veículos que não encaram o jornalismo com seriedade e retidão. Dentro de alguns dias, se essa proposta virar realidade, poderemos separar o joio do trigo. E o leitor vai saber quem têm opinião de fato — e quais são aqueles não têm.

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