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A economia vai dar as cartas na eleição de 2022

Uma pesquisa divulgada ontem pelo Ipespe, ligado ao cientista político Antonio Lavareda, coloca algumas luzes sobre o cenário que devemos encontrar nas eleições de 2022. O primeiro ponto é que, enquanto tivemos no pleito anterior uma forte influência do ambiente político na escolha dos candidatos, o principal fator na decisão do voto para o ano que vem deve ser a economia. A percepção dos eleitores, por enquanto, é ruim para o governo. Cerca de 67 % consideram que a economia brasileira está no caminho errado (apenas 24 % pensam o contrário e 9 % não sabem responder).

Porém, quando perguntados qual é a chance de manter seu emprego nos próximos meses, os entrevistados se mostram bastante otimistas, com 57 % acreditando que há uma grande (ou muito grande) possibilidade de isso ocorrer. Por outro lado, 33 % estão pessimistas.

São oito os temas mais importantes para o eleitorado – desses, quatro fazem parte da agenda econômica (inflação, desemprego, fome/miséria e salário). Os demais são saúde, corrupção, violência e meio ambiente. Em primeiro lugar, está a alta do custo de vida – uma prova cabal de que os brasileiros estão mesmo reclamando da perda de seu poder aquisitivo.

Ao juntar os dois itens, entendemos a razão pela qual dois terços acham que a economia vai no caminho errado e, ao mesmo tempo, mais da metade está confiante em manter seu contracheque. Se o pessimismo fosse tão forte, haveria mais gente preocupada em perder a carteira assinada, certo? Mas a má vontade com a performance da equipe do ministro Paulo Guedes tem mais a ver com a inflação do que com o receio de uma recessão.

A pesquisa também mapeia o espectro ideológico dos eleitores brasileiros. São 19 % que se julgam de esquerda e 5 % de centro-esquerda. São 6 % de centro, enquanto há 6 % de centro-direita e 29 % de direita (32 % não souberam ou não quiseram responder). Ao somarmos o centro, a centro-direita e a direita, temos 44 % do eleitorado, sem contar aqueles que não responderam ao questionário, mas não são esquerdistas. Isso pode indicar que há menos eleitores de esquerda do que se pensa.

Mas, então, por que Luiz Inácio Lula da Silva tem números tão bons? Esse estudo (e vários outros) colocam Lula na liderança de intenção de votos, tanto de forma espontânea como estimulada. Quando instados a escolher espontaneamente um candidato, 31 % cravam o nome do petista e 24 % o do presidente Jair Bolsonaro. Quando estimulados diante de uma lista, Lula oscila entre 41 % e 42 %, enquanto Bolsonaro vai de 25 % a 28 %. O presidente perde 3 pontos percentuais de suas intenções de voto quando o ex-ministro Sergio Moro entra no páreo – e o ex-presidente decai um ponto.

A pesquisa espontânea mostra o quanto a chamada Terceira Via, na prática, está desidratada. Sem estímulos, Ciro Gomes tem 3 %; Sérgio Moro, 2 %; João Doria e Luiz Henrique Mandetta, 1 % cada; Eduardo Leite e José Luiz Datena não são sequer citados.

Nas simulações de segundo turno, Lula ganha de todos os adversários – e Bolsonaro perde para todos os oponentes. O cenário que mais chama atenção é a disputa hipotética entre o presidente e o Eduardo Leite. O governador do Rio Grande do Sul ganharia com a menor vantagem de todas (37 % a 34 %, dentro da margem de erro) e teríamos o maior índice de indecisos (29 %).

Outro aspecto do estudo deve provocar reflexão nos estrategistas políticos: somente 25 % dos entrevistados se dizem dispostos em votar em um candidato para evitar a ascensão de outro. Ou seja, a tese segundo a qual haveria um voto útil maciço contra Lula pode ser questionada por este resultado.

Alguns indícios revelados pela pesquisa podem explicar a ascensão do petista, que foi do inferno ao céu em três anos.

O capítulo “Probabilidade de Voto” oferece a primeira pista. Lula sofre rejeição extrema de 46 % dos eleitores, que não votariam nele de jeito nenhum. Já Bolsonaro é rejeitado da mesma forma por 61 % do eleitorado. Ou seja, a rejeição enorme do presidente acabou alavancando a candidatura do petista, que talvez possa ser visto como um mal menor.

Outra explicação pode estar na economia. Tanto Bolsonaro como Sérgio Moro perderam a liderança em um eventual segundo turno contra Lula em março deste ano, quando a economia começou a piorar e a inflação ficou mais aparente. Como os oito anos do petista foram marcados por um cenário econômico favorável, os eleitores podem ter relevado as acusações de corrupção do Petrolão em função de uma lembrança de tempos mais fartos.

De qualquer forma, muita água ainda deve rolar embaixo da ponte. Cerca de 56 % dos entrevistados ainda não escolheram seu candidato – sem contar aqueles que já se decidiram e podem voltar atrás. Mas há um fator de preocupação para Bolsonaro. Apenas 14 % votariam em um candidato que desse continuidade à administração atual. E 56 % se dizem dispostos a votar em quem mude totalmente a forma pela qual o Brasil está sendo administrado (apenas 5 % não souberam responder).

E onde estes eleitores se informam sobre política? Redes sociais não são a maior fonte de informação: Facebook, Twitter e Instagram assinalam, juntos, 14 %; já o WhatsApp é fonte para 3 %. A imprensa continua como o maior canal para abastecer os eleitores de informação (50 %, por exemplo, se informam através da TV; 20 % por intermédio de portais e blogs de internet).

Por fim, há um detalhe interessante sobre o apoio dado ao presidente Bolsonaro. Em junho de 2020, as regiões do país com maior apoio ao mandatário eram a Centro-Oeste (33%) e a Sul (34%). Esses foram os índices de respostas que consideravam o governo bom e ótimo. No mês passado, no entanto, tais indicadores caíram na região Centro Oeste para 30 % e para a Sul na marca de 27%. O apoio no Sudeste caiu de 28 % para 24 %. E no Nordeste foi observada a menor queda, de 22 % para 20 % (não é à toa que o governo está tão empenhado em trabalhar pela anabolização dos programas sociais.

Trata-se de um quadro difícil para o presidente Bolsonaro, que parece depender de uma recuperação econômica relâmpago para virar o jogo – sem contar uma ação mais assertiva no combate á inflação. O problema é que estes dois desafios precisam de remédios ortodoxos opostos. Para estimular a economia, é preciso afrouxar a política monetária. Para combater a alta de preços, contudo, é necessário elevar os juros, o que esfria a atividade econômica.

Qual será a decisão de Bolsonaro e de Paulo Guedes? Além de turbinar o programa social do governo, alguma coisa precisa ser feita em relação à economia. Para mais de dois terços do eleitorado, é sempre bom lembrar, do jeito que está é que não pode ficar.

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