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A chapa de Biden: quando o rabo balança o cachorro

Encontrar o candidato ideal a vice-presidente é uma tarefa hercúlea no mundo político. Dezenas de variáveis precisam ser pesadas e, mesmo assim, escrutinar o nome perfeito esgota fôlego e paciência de assessores e dirigentes dos partidos. Às vezes, o candidato está à frente das pesquisas e, nem assim, consegue-se preencher a vaga com facilidade. O caso do vice-presidente Hamilton Mourão é exemplar: ele foi a quarta opção de Jair Bolsonaro. Antes dele, foram convidados o então senador Magno Malta, o general Augusto Heleno e a hoje deputada estadual Janaína Paschoal.

É preciso pesar uma enormidades de características, até encontrar alguém que preencha os requisitos e um convite seja feito. Um exemplo: o candidato a presidente é um nome forte em determinada região do país. Portanto, precisa de um vice que tenha grande apelo em outra. Ou então o cabeça de chapa é visto como muito radical, precisando de um moderado na vice-presidência (as combinações Luiz Inácio Lula da Silva/ José Alencar e Dilma Rousseff/ Michel Temer são modelos clássicos dessa estratégia) e vice-versa.

No caso do Partido Democrata americano, entretanto, existe apenas uma característica principal para completar a chapa presidencial: o nome precisa ser o de uma mulher. Concorrem para ser vice de Joe Biden seis representantes do sexo feminino: as senadoras Kamala Harris, Elizabeth Warren e Tammy Duckworth; as deputadas Karen Bass e Val Demings; e, completando a lista, a diplomata Susan Rice.

Ou seja, Joe Biden quer atender o apelo politicamente correto e escolher o vice a partir de uma característica determinada necessariamente pela genética. Evidentemente, uma mulher pode ser o melhor nome para compor uma chapa. Mas chama a atenção o fato de os homens terem sido excluídos da relação final.

A última vez que os democratas fizeram isso foi em 1984, uma época em que as pessoas ainda fumavam em ambientes fechados e contavam piadas inconvenientes nos locais públicos em alto em bom som. Naquele ano, contudo, o Partido Democrata percebeu que haveria mais eleitoras que eleitores. O candidato da agremiação, Walter Mondale, diante disso, resolveu que iria nomear uma mulher para compor sua chapa e sensibilizar o eleitorado feminino. Ele chegou a sondar a prefeita de São Francisco, Dianne Feinstein, e a governadora do Kentucky, Martha Collins. Mas a escolha recaiu sobre a deputada Geraldine Ferraro.

O resultado dessa eleição – que deve ser creditado ao desempenho econômico da gestão Ronald Reagan e à falta de carisma de Mondale, que havia sido vice da desastrosa administração Jimmy Carter – foi o que os americanos chamam de “landslide” (avalanche, em inglês): no Colégio Eleitoral, Reagan ganhou por 525 votos a 13.

Não exatamente concordo, mas entendo perfeitamente quando se escolhe alguém que faça parte de um grupo de diversidade quando confrontado numa disputa com outro alguém identificado com a maioria. Mas considero estranho sequer cogitar um companheiro de chapa masculino. É como se o perfil homem, branco e protestante fosse algo indesejável do ponto de vista político. Isso será verdade?

Pode parecer, à primeira vista, um preconceito às avessas. Afinal, um homem caucasiano não pode ser nem cogitado e, entre as seis concorrentes femininas, quatro seriam consideradas representantes de minorias americanas.

A atitude do Partido Democrata lembra uma frase de Henry Ford, proferida em 1909. Quando foi perguntado se o consumidor poderia escolher a cor do Modelo T, ele respondeu: “Sim, desde que seja preto”. Ou seja, qualquer pessoa pode compor a chapa democrata, desde que seja mulher. Devo admitir, com o risco de ser taxado de politicamente incorreto, que me sinto incomodado com isso. Não com a escolha de uma mulher, frise-se. Mas com o descarte automático de homens no processo seletivo. Quando levantamos a bandeira da inclusão, defendemos os direitos de quem está – por alguma razão aleatória – excluído da chamada panelinha. Até aí, em tese, tudo bem. Mas podemos cair num radicalismo às avessas se banirmos aqueles que seriam bons candidatos apenas porque nos sentimos na obrigação de prestigiar quem é defendido pela galera politicamente correta.

Se a história, como pregava o filósofo alemão Georg Wilhelm Hegel, é regida pela dialética, saímos da tese (incorreção política) para a antítese (politicamente correto). Mas posso esperar para chegarmos logo ao período em que a síntese, concentrando o que há de bom nos dois lados, passe a dar as cartas.

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