A rede tem hoje menos de um terço do total de lojas que possuía em 2017 e luta para sobreviver
Incapaz de vender seus ativos, a ex-líder do mercado de livrarias Saraiva está prestes a arquivar outro adendo ao plano de recuperação judicial para tentar finalmente realizar uma assembleia de credores que já foi remarcada várias vezes, encerrando por mais tempo uma briga prolongada por três anos. Aprovar o plano é fundamental para a sobrevivência do varejista – mesmo que esteja muito longe do que costumava ser. Após entrar em recuperação judicial, sua dívida está próxima de R$ 700 milhões de reais.
Segundo fontes próximas ao caso ouvida pela Folha de S.Paulo, as mudanças feitas no plano de recuperação ao longo dos últimos meses são muito específicas e não alteram a premissa. A rede sugeriu que os credores poderiam optar por um desconto de 80% na dívida, com o restante pago em ações da empresa listadas na bolsa de valores. A segunda opção é recebida até 2048, com pagamentos a partir de 2026, com juros de 0,5% ao ano.
Nos bancos
Da dívida com garantias (não quirografária), grande parte está nas mãos do Banco do Brasil – mais de R$ 120 milhões. Uma fatia bem menor pertence ao Itaú Unibanco.
O BB não tem se colocado contra o plano, mas suas decisões têm sido lentas, o que explica o longo período de ajustes. Ainda que o prazo para a realização da assembleia esteja perto do fim, um novo adiamento não é descartado, apesar de fontes alegarem otimismo de que o BB estará pronto para votar o plano a partir do dia 16 deste mês, conforme o cronograma. O BB também vem tentando vender seu crédito da Saraiva para fundos de investimento. Internamente, a leitura é de que, se isso ocorrer, poderá ser positivo para o plano, pois pode acelerar sua aprovação.
Outra parte da dívida da empresa está nas mãos de fornecedores, como editoras e prestadores de serviços. Há ainda os aluguéis de shoppings, que não foram pagos. O acerto com esse grupo, contudo, já teria sido feito. A visão interna é de que sair da recuperação judicial ajudará a Saraiva a voltar a ter produtos em consignação (a loja expõe o produto, sem a necessidade de compra) e não precisaria mais gastar seu caixa para ter sortimento em suas prateleiras.
Longo processo
A Saraiva está em recuperação judicial desde 2018. Com dívidas na época na ordem de R$ 674 milhões, não conseguiu vender os ativos que seriam utilizados para pagar os credores e para injetar dinheiro na operação. No ano passado, fez a terceira tentativa de vender um conjunto de lojas e o seu e-commerce, mas não atraiu interesse. Recentemente, Marcos Guedes, terceiro líder da empresa em dois anos, deixou a presidência. Segundo fontes do setor editorial, com a saída dele, perdeu-se o canal com a Saraiva.
No último relatório divulgado nos autos do processo, o administrador judicial, a RV3, informa que a Saraiva registrou em 2021 um prejuízo de R$ 15,7 milhões. Em dezembro, mês importante para o varejo por conta do impulso do Natal, a Saraiva viu suas vendas líquidas caírem 44%. Segundo o mais recente resultado da empresa, referente a setembro, a Saraiva tinha 37 lojas, sete a menos do que um ano antes. No início de 2017, um ano antes da recuperação judicial, eram 113 lojas.
O futuro da Saraiva remete também ao atual contexto das livrarias no Brasil. A Livraria Cultura, que também já foi uma das maiores do País, é outra que luta para sair de sua recuperação judicial. A briga das duas é para não ter o mesmo desfecho da Laselva, que teve sua falência decretada em 2013.
