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Livrarias precisam se reinventar, diz presidente de associação do setor

Nascido na Argentina, Bernardo Gurbanov é um entusiasta dos livros. Há mais de quatro décadas atuando no setor livreiro e editorial do Brasil, Gurbanov acredita que, mesmo com a crise das maiores redes do país – Saraiva e Cultura devem cerca de R$ 325 milhões às editoras –, as livrarias estão muito longe de desaparecer. Em entrevista a MONEY REPORT, o presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL) diz que o fim delas só interessaria ao escritor português José Saramago (1922-2010): “Seria uma boa ficção para ele.” Como saída à crise editorial, Gurbanov propõe que as livrarias dediquem mais atenção ao leitor e sejam um ponto de encontro para os amantes dos livros. A seguir, os principais trechos da entrevista.

 

O que explica a crise das livrarias? 

São vários fatores que se conectam entre si. Passamos por uma recessão muito profunda e inédita no país nos últimos quatro anos. Sentimos na pele que o ritmo da economia está muito aquém do desejado. Em paralelo a isso, outra questão que gosto de comentar é que a mudança nos hábitos de consumo tem muita relevância nessa crise. Passou-se a época das megalojas. Atualmente, a realidade é outra. As lojas online de vendas dão descontos enormes, sem a necessidade de toda a estrutura que possui uma grande loja de rede, como Cultura e Saraiva. Houve uma mudança na forma de se conectar com o cliente e leitor. Os sites dessas livrarias vendem mais do que as lojas físicas. Isso mostra a migração da maneira de comprar. Sem contar que grande parte do país não lê.

Os brasileiros não gostam de ler?

Acho que um dos principais pontos é a falta de interesse pela leitura, que implica diretamente na queda do número de leitores. A concorrência com as novas mídias é muito grande. A realidade, pelo que percebo atuando nesse meio há décadas, é que o livro compete com as novas tecnologias. Para a minha geração, ler um livro era: vou sentar e ler do começo ao fim, concentrado exclusivamente na leitura. Atualmente, somos multitarefa. Estamos lendo com o celular ao lado, TV, Netflix etc. Somados, todos esses fatores contribuem para um cenário desfavorável para o livro e, consequentemente, para as livrarias.

O que pode ser feito para tornar as livrarias mais atrativas ao leitor?

Gosto de falar sobre a proposta de valor. Ou seja, não é o que vale para o dono da livraria, mas sim a importância para o leitor e cliente. O que a livraria propõe como valor diferencial desse estabelecimento. Curadoria, ambiente, atividades culturais. A Saraiva e a Cultura têm teatro, lançamentos de livros quase todas as semanas. São propostas culturais interessantes que fazem a diferença para o leitor. As livrarias têm que ser um ponto de encontro dos leitores.

Mas as redes Saraiva e Cultura entraram em recuperação judicial e são as mais afetadas pela crise.

Sim. Mas tem outro fator envolvido nisso. Com a expansão das lojas, ficou difícil fazer um trabalho de curadoria, de aproximação com o leitor, especialmente o “leitor artesanal”, aquele que é mais exigente. Houve uma espécie de padronização dessas livrarias que mencionei. A maioria se parece muito com aquelas livrarias de shopping, que vendem mais best-sellers. Isso, por um lado, foi bom, aumentou o público leitor. Mas, e aquele leitor mais dedicado à leitura? Ele tem cada vez menos opções nas redes. É aí que entra a questão da curadoria. Na minha opinião, a base da proposta de valor está na atenção maior ao leitor. Que é o que eu tento fazer na minha livraria, por exemplo.

O senhor também é dono de livraria?

Sim, duas. Uma aqui no Brasil, especializada em livros de língua espanhola, e outra em Bueno Aires, Argentina, em conjunto com minha família.

E como está o mercado editorial na Argentina?

A Argentina, como todos sabemos, é mundialmente reconhecida por ser um país de leitores. Mas a crise está instalada lá também. É um país de crise econômica histórica. O ano deve se encerrar com inflação altíssima. Com isso, as editoras não conseguem passar aos clientes o preço inflacionado. Caso contrário, não há venda. As editoras estão postergando lançamentos, pois estão perdendo muito capital de giro. Há livrarias fechando, em crises profundas, um fenômeno semelhante ao nosso.

Vamos voltar a falar da crise do mercado editorial brasileiro. Corremos risco de ser um país sem livrarias?

Não. O ecossistema do livro vai se reorganizar. Surgirão alternativas à crise. Como o livro físico não vai desaparecer, irá conviver com outras mídias, os espaços para esses livros continuarão existindo e atendendo às demandas, na medida do possível. Penso que um país sem livrarias daria uma boa ficção para o José Saramago.

O Sindicato Nacional dos Editores de Livros se recusou a fazer acordo proposto pela livraria Saraiva. O que houve?

Não participei desse encontro entre os dois, então não posso falar com certeza o que houve. O pouco que sei é público, vocês já divulgaram na imprensa, meus colegas já comentaram. A proposta da Saraiva era inviável. Queria retornar o fornecimento, mas dez anos para pagar às editoras.

A varejista americana Amazon divulgou uma carta informando que pretende pagar adiantado às editoras. Como isso afeta as livrarias?

É uma proposta de boas-intenções, mas a Amazon quer preservar seus interesses. O que é justo para uma empresa que tem que lucrar para sobreviver. Não acho que as livrarias perdem com isso. A Amazon não é tudo isso que imaginamos. Ela detém cerca de 10% das vendas do mercado editorial, ao passo que Saraiva e Cultura são responsáveis por 40% das vendas. Outra questão: nenhuma editora vai deixar de fornecer livros para uma livraria que está sadia financeiramente. No país, ainda há muitas que estão em dia com os livreiros.


Qual é o papel do Estado no seu setor?

O Estado está muito aquém do que poderia fazer. Não sou um político, mas percebo que as propostas dos governos nas áreas de educação e cultura não são suficientes para formar um país leitor. É triste. Conheço vários países da Europa e vejo por lá o livro como um objeto do cotidiano na vida das pessoas, e aqui não vejo isso.

 

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