Novo megacomplexo na capital gaúcha quer resgatar a cidade no mapa das grandes turnês e eventos internacionais
Durante muito tempo, Porto Alegre foi parada obrigatória em turnês internacionais. Metallica, Paul McCartney, Madonna, Rolling Stones, todos já estiveram por ali.
A cidade, que sempre teve público e apelo cultural, acabou perdendo protagonismo nos últimos anos. Estádios caros, falta de infraestrutura e distâncias longas acabaram afastando os grandes eventos.
Agora, um grupo de empresários quer mudar esse cenário — com uma arena que promete ser a maior do país no segmento de eventos ao ar livre e multiuso.
O projeto se chama FLY 51 e é uma parceria entre nomes de peso no entretenimento gaúcho: TE2 Hospitality, Greenvalley, GDO Produções e Grupo Prime.
A arena vai ocupar uma área de 27.000 metros quadrados dentro do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, em um modelo de subconcessão com a alemã Fraport, responsável pela gestão do terminal.
O investimento estimado é de R$ 35 milhões e a previsão de abertura é março de 2026.
A proposta é preencher uma lacuna estratégica no Sul do país: oferecer um espaço permanente, escalável e com estrutura pronta para receber shows, congressos, festas, feiras, casamentos e o que mais o mercado pedir.
Com capacidade de até 20.000 pessoas, o FLY 51 quer entrar direto no radar de grandes artistas e produtores nacionais e internacionais.
“A gente já fez evento para 245.000 pessoas somadas em Porto Alegre. Agora é hora de escalar isso com infraestrutura real, tecnologia e conforto. Um lugar onde você não precise apostar na sorte para saber se vai se molhar ou não”.
E depois de sobreviver à maior enchente da história do estado — que deixou o terreno da arena completamente submerso —, o projeto está mais determinado do que nunca a sair do papel.
A ordem agora é construir, abrir e retomar o protagonismo da capital gaúcha no circuito cultural brasileiro.
Quem é o homem por trás do negócio

Tiago Escher entrou no entretenimento antes dos 25 anos, quase por acaso — e nunca mais saiu.
Começou em 2002, no interior do Rio Grande do Sul, e construiu uma trajetória de duas décadas à frente de casas noturnas, festas de luxo e eventos de grande porte.
Aos poucos, ele transformou o que era uma carreira improvisada em um plano de expansão sólido.
Em 2006, comandava casas no litoral gaúcho como a Cozumel e o Jimbaran. No ano seguinte, fundou o República de Madras, em Porto Alegre — um espaço que trouxe nomes como David Guetta e Armin Van Buuren, ainda em início de carreira internacional, para se apresentarem no sul do país. Era um tempo em que o dólar a pouco mais de 1 real tornava viável trazer os “big names”, como ele mesmo chama.
O primeiro grande ponto de virada veio em 2010, com dois projetos opostos — e igualmente arriscados.
De um lado, lançou a Farm, primeira casa de sertanejo universitário em Porto Alegre. De outro, trouxe para o Brasil a marca internacional Pink Elephant, com filiais em Nova York, São Paulo e Porto Alegre.
“Porto Alegre era cheia de pub e rock bar. A ideia de uma casa sertaneja parecia loucura. Ninguém quis ir comigo. Só o Paulo Sat topou. Foi ele que acreditou”, lembra.
A Pink, por sua vez, inaugurou uma nova lógica de consumo na noite gaúcha.
“A gente construiu o prédio do zero, com os tijolos do antigo Jockey Club. Foi feito com um escritório de arquitetura dos Estados Unidos. Na época, ninguém vendia champagne em balada. Era tudo Smirnoff. A gente criou esse novo padrão de consumo de alto padrão em Porto Alegre.”
Nos anos seguintes, Tiago seguiu apostando em marcas internacionais e depois migrou para produtos próprios.
Em 2013, fundou o 300, uma marca de entretenimento de luxo que se espalhou por Porto Alegre, Jurerê Internacional, São Paulo e Gramado. Em paralelo, também tocou festas no Uruguai e nos Estados Unidos.
“Em 2018, fizemos quatro réveillons simultâneos: em Miami, Punta del Este, Atlântida e Jurerê. Foi uma loucura.”
Mesmo com toda essa diversificação, foi só depois da pandemia que Escher começou a pensar em uma arena fixa de grande porte. A ideia ganhou corpo com a atuação do Grupo Prime, do qual também é sócio, responsável por eventos como Tardezinha, Luan City, Numanice e grandes shows de pagode e funk. “Comecei a ter contato com um público de 20, 30, 40 mil pessoas. E aí a dor ficou clara: Porto Alegre não tem espaço fixo pra isso. Tudo é improvisado, montado em cima da hora, com estrutura de estádio. Era hora de mudar isso.”
Como será o espaço
Foi desse vácuo que nasceu a ideia do FLY 51.
Porto Alegre tem mais de 4 milhões de pessoas na região metropolitana. E não tem um espaço definitivo para grandes eventos”, diz Escher. “A gente passou os últimos três anos estudando local, modelo de negócio, impacto econômico e viabilidade jurídica para fazer algo de verdade”.
A localização encontrada é, de fato, estratégica: uma área no sítio do aeroporto, do lado da Avenida Sertório — eixo central de transporte público da cidade — e colada à estação do Trensurb. Nos estudos de tráfego contratados pela TE2, a estimativa é de que, em finais de semana, cerca de 3,4 milhões de pessoas estejam a até 20 minutos da arena.
Além disso, por estar em uma área sob concessão da Fraport, a arena não terá problemas com vizinhança ou restrições de zoneamento. “A gente está falando de uma área que ficou meio ‘inviável’ para a Fraport, mas que virou uma joia para nós. Não dá pra fazer prédio ali, então a solução ideal era um espaço de uso público, com geração de fluxo e economia”, diz Escher.
A estrutura foi desenhada para evitar os erros comuns dos espaços temporários. Tudo será fixo e modular — do palco ao sistema de som, dos banheiros à alimentação. A arena terá mais de 400 banheiros, tendas com tecnologia belga, estacionamento para 400 carros, áreas VIP, espaços de descanso, ambulatórios e camarins equipados.
“Hoje o consumidor chega em um show e não sabe onde estaciona, por onde entra, onde está o banheiro. Isso afasta um público enorme, mais exigente, que quer conforto, conveniência e previsibilidade. Vamos resolver tudo isso”, diz Escher.
A estrutura coberta principal terá capacidade para até 10.000 pessoas, com possibilidade de expansão para 20 mil. Como o espaço é todo plano e sem pilares, poderá ser adaptado para diferentes tipos de evento — de shows a feiras, passando por casamentos e até eventos religiosos. “Já fomos procurados para um réveillon religioso de milhares de pessoas. E isso nem estava no radar”, conta.
Outro diferencial está na operação: a arena já nascerá com eventos marcados, graças à sociedade com produtores que detêm os direitos locais de diversos artistas.
“No show business não adianta ter espaço, tem que ter quem faz o show. Senão, o artista nem vem. A gente montou um modelo onde os sócios já têm a base mínima de operação garantida”, afirma Escher.
Enchentes e a decisão de seguir adiante
O projeto quase naufragou — literalmente — em maio de 2024.
A enchente que paralisou o Rio Grande do Sul inundou completamente a área do futuro FLY 51. Com água até dois metros de altura, os planos foram suspensos e investidores, naturalmente, recuaram. “Tinha gente que dizia: acabou Porto Alegre, não tem como continuar”, afirma Escher.
O acesso ao crédito ficou mais difícil, a confiança caiu e a capitalização do projeto teve que ser reavaliada. A solução encontrada foi tocar tudo com capital próprio. “A gente decidiu que não ia esperar a Selic cair ou o dólar estabilizar. Se for por esse caminho, você nunca faz nada no Brasil”, afirma.
A nova versão do projeto cortou as outras frentes previstas inicialmente — como o parque infantil e o parque de churrasco — e concentrou tudo na arena de eventos.
O FLY 51 será operado por um consórcio de sócios que cobre quase todo o espectro do entretenimento nacional. A Greenvalley, eleita cinco vezes como o melhor club de música eletrônica do mundo, entra com a cena eletrônica. A GDO, baseada em Chapecó, domina o mercado sertanejo e popular. Já a Prime atua com exclusividade em nomes como Thiaguinho, Ludmilla e Luan Santana no Sul. A TE2 orquestra tudo isso.
“É quase um seguro contra a ociosidade. Só com os eventos que os próprios sócios produzem, a agenda já começa cheia. Mas o espaço também vai estar disponível para outras produtoras. A ideia é virar uma base para todo o mercado”, afirma Escher.
Outro trunfo é a logística para artistas: como o local está dentro do sítio do aeroporto, é possível descer do avião e chegar no palco em cinco minutos. “Isso muda completamente o jogo para turnês internacionais. Evita deslocamentos longos, trânsito, riscos. É quase plug and play para o artista”, diz.
Até hoje, o maior projeto de arena para shows ficava em Sorocaba, com espaço para 6.000 pessoas.
Se der certo, o FLY 51 pode reposicionar Porto Alegre como parada obrigatória de turnês e festivais — como já foi no passado.
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Por Daniel Giussani
