Grande Hotel Canela aposta na realização de eventos e eficiência operacional para crescer
Fundado em 1916, o Grande Hotel Canela, a 110 quilômetros de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, atravessou mais de um século de transformações no turismo brasileiro. Inserida em um dos destinos turísticos mais disputados do país, a estrutura nunca deixou de operar – enquanto viu redes chegarem e saírem da Serra Gaúcha.
Sob gestão da quarta geração da família fundadora, o hotel aposta em profissionalização e usos de seus espaço para competir com redes modernas e alcançar R$ 10 milhões faturamento neste ano.
“Estamos trabalhando para equilibrar tradição e inovação. O investimento em infraestrutura, somado a uma gestão mais profissionalizada, nos permite crescer com consistência sem perder a identidade”, diz Paula Krause Corrêa, diretora-executiva do Grande Hotel Canela (imagem).
Qual é a origem do Grande Hotel Canela
A história do hotel acompanha o desenvolvimento de Canela, cidade que disputa turistas com Gramado. O empreendimento nasceu a partir da expansão da ferrovia liderada por João Corrêa Ferreira da Silva, bisavô de Paula e um dos nomes por trás da formação da cidade.
Com a chegada do trem na cidade, no início do século 20, a região passou a receber visitantes de diferentes estados, e o hotel se consolidou como ponto de encontro social e cultural. Hoje, mantém um diferencial raro: mais de 100 anos sob gestão da mesma família — algo incomum no setor hoteleiro brasileiro, que hoje é dominado por grandes redes.
Por década o Grande Hotel Canela reinou quase sozinho na cidade. Depois dos anos 1970, a chegada de outras marcas diluiu o número de hospedes. Na Serra Gaúcha, onde a oferta de hospedagem cresce ano após ano, competir apenas por preço tem se tornado inviável para operações independentes.
Com isso, a estratégia do Grande Hotel Canela tem sido apostar em diferenciação e margens mais altas, especialmente com eventos e venda direta.
“A gente não pode entrar só na guerra de preço. Nosso caminho é trabalhar ocupação com qualidade e explorar melhor os nossos diferenciais”, diz Paula.
Como o Grande Hotel Canela enfrentou crises
A virada mais recente na empresa começou em 2020, com a entrada da nova geração na gestão. O período coincidiu com a pandemia e, mais tarde, com os impactos da enchente no Rio Grande do Sul em 2024, que fechou o aeroporto de Porto Alegre, afastou turistas e derrubou o faturamento do hotel em 30%.
A resposta veio com corte de custos, revisão da operação e foco em eficiência. Com isso, em 2025, o hotel voltou ao patamar de receita de cerca de R$ 8,5 milhões, mesmo número atingido em 2023, antes da enchente.
“A gente entendeu que precisava ser mais eficiente. Hoje temos uma operação mais enxuta e produtiva, com foco maior em resultado”, afirma Paula.
Os números operacionais acompanham a retomada: o total de diárias vendidas em 2025 cresceu 27% na comparação com o ano anterior, enquanto o início de 2026 já registra alta de 17% frente ao mesmo período do ano passado.
Como crescer em outras frentes
Hoje, uma das principais apostas do Grande Hotel Canela está no segmento de eventos, que já responde por cerca de 20% do faturamento. Com área de mais de 8 hectares e 90 unidades entre apartamentos e chalés, o hotel consegue receber desde casamentos até eventos corporativos para mais de mil pessoas.
“Estamos invertendo a lógica: deixamos de ser um hotel com espaço para eventos para ser um espaço de eventos com hospedagem”, diz a executiva.
Neste ano, o hotel está investindo R$ 1,5 milhão na revitalização da fachada e na modernização da área da piscina, em um movimento para atualizar a experiência sem perder a identidade histórica. Ao mesmo tempo, a família começa a estudar novas possibilidades de uso para o terreno, incluindo a atração de operações externas, como projetos gastronômicos e culturais.
Qual é o desafio dos hotéis históricos
O caso do Grande Hotel Canela não é isolado. No Brasil, poucos hotéis centenários seguem ativos com relevância.
O Copacabana Palace, inaugurado em 1923, permanece em operação após sucessivos ciclos de modernização. Já o Grande Hotel de Campos do Jordão, de 1944, foi fechado nos anos 1990 e reaberto posteriormente como hotel-escola.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), o setor ainda se recupera dos impactos recentes, incluindo as enchentes de 2024 no Sul, que afetaram a ocupação na região, e a crise econômica na década passada, que impactou o desenvolvimento do turismo interno.
“Existe um potencial grande que ainda não está totalmente explorado. A ideia é abrir o espaço para novas operações no futuro”, afirma Paula.
