Em entrevista à EXAME, vice-presidente da farmacêutica explica como a tecnologia abre caminho para novas moléculas orais e para terapias que vão além da balança
O estômago não lê bula. Quando recebe uma molécula feita de aminoácidos, a tendência é fazer o que faz com as proteínas do almoço: começar a desmontá-la. Para transformar o Wegovy em comprimido, a Novo Nordisk precisou resolver esse problema pouco diplomático do sistema digestivo — como fazer o medicamento sobreviver tempo suficiente para chegar ao sangue e cumprir sua função.
É nessa travessia que está o principal avanço científico da apresentação oral, cuja aprovação no Brasil foi anunciada pela farmacêutica nesta quarta-feira, 4. O princípio ativo continua sendo a semaglutida, já utilizada nas canetas. A novidade está na formulação que permite administrá-la pela boca, em uma dose diária destinada ao tratamento da obesidade e do sobrepeso associado a problemas de saúde.
Em entrevista à EXAME, Priscilla Mattar, vice-presidente Médica da Novo Nordisk no Brasil, explica que o comprimido contém um componente que facilita a absorção da molécula. Sem essa ajuda, a semaglutida encontraria obstáculos para atravessar o ambiente digestivo em quantidade suficiente para produzir o efeito esperado.
“Não é simples fazer um medicamento à base de peptídeos e aminoácidos para utilização oral”, afirma.
A conquista também oferece uma pista sobre os próximos passos da companhia. Além de ampliar as formas de administrar a semaglutida, a Novo Nordisk desenvolve outras moléculas e investiga como tratar a obesidade preservando músculos, protegendo órgãos e enfrentando as reações do organismo à perda de peso.
O acompanhante que faz a diferença
A semaglutida pertence à família dos peptídeos, moléculas formadas por sequências de aminoácidos. Sua administração por injeção evita a passagem inicial pelo sistema digestivo. Pela boca, porém, é preciso enfrentar tanto a degradação quanto a dificuldade de absorção.
A solução utilizada no Wegovy oral tem uma sigla curta para um trabalho complexo: SNAC. Esse componente atua nas proximidades do comprimido no estômago, tornando o ambiente local menos ácido, ajudando a proteger a semaglutida da degradação e facilitando temporariamente sua passagem pela parede gástrica até a circulação. O mecanismo foi descrito em pesquisa publicada na revista Science Translational Medicine.
É como criar uma pequena zona de embarque para a molécula. O estômago continua trabalhando, mas, naquele ponto, o medicamento ganha condições mais favoráveis para seguir viagem.
O nome técnico pode ficar nos bastidores; sua função é decisiva. Segundo as informações da fabricante sobre a formulação, sem o SNAC quase nada do princípio ativo seria absorvido, inviabilizando o efeito terapêutico do comprimido.
Essa história, porém, começou antes do Wegovy oral. A semaglutida já era administrada em comprimidos para diabetes, no Rybelsus. Portanto, a novidade não é a primeira passagem da molécula pelo estômago, mas sua chegada a uma apresentação desenvolvida e estudada para o controle do peso.
Priscilla Mattar aponta o aprimoramento da formulação e a dose maior como elementos desse desenvolvimento. No Wegovy oral, a dose de manutenção é de 25 miligramas por dia.
Os números das apresentações oral e injetável não devem ser comparados como se cada miligrama percorresse o mesmo caminho: a via de administração muda a absorção e a quantidade de medicamento que chega à circulação.
Quanto o comprimido emagrece?
O principal estudo da apresentação oral, o OASIS 4, envolveu 307 adultos sem diabetes, com obesidade ou sobrepeso acompanhado de ao menos uma complicação relacionada ao peso. Os participantes receberam semaglutida oral ou placebo, além de intervenções no estilo de vida.
Na análise que considera o efeito do tratamento independentemente de interrupções ou da adesão integral, a redução média de peso em 64 semanas foi de 13,6% com semaglutida, ante 2,2% com placebo. O trabalho foi publicado no The New England Journal of Medicine e financiado pela Novo Nordisk.
Já o resultado de aproximadamente 17%, destacado no anúncio da empresa, corresponde a outra análise: uma estimativa para o cenário em que os participantes permanecessem no tratamento, sem recorrer a outras terapias para perda de peso. Nesse recorte, a redução média foi de 16,6%, contra 2,7% no grupo placebo. São formas diferentes de medir o resultado da mesma pesquisa.
A companhia apresenta esses resultados como comparáveis aos da caneta de semaglutida de 2,4 miligramas semanais. Há, entretanto, uma distinção importante: o estudo não colocou comprimido e injeção em uma disputa direta.
“São estudos separados. A gente não tem um comparativo direto”, diz Mattar.
A formulação oral também mantém efeitos adversos conhecidos da semaglutida. No OASIS 4, eventos gastrointestinais foram registrados em 74% dos participantes que receberam o medicamento e em 42,2% dos que receberam placebo. Trocar a agulha pelo comprimido muda a administração, mas não elimina os cuidados com tolerabilidade e acompanhamento médico.
A caneta sai de cena?
Na estratégia descrita por Priscilla Mattar, o comprimido amplia as possibilidades de tratamento. Há pacientes que resistem à ideia de uma injeção, mesmo depois da popularização das canetas emagrecedoras, e outros que podem preferir uma aplicação semanal a uma rotina diária.
“A gente precisa de diferentes opções para justamente se adequar a diferentes perfis das pessoas que precisam desse tratamento”, afirma.
A apresentação oral também tem suas exigências. Nas orientações de uso divulgadas pela Novo nos Estados Unidos, o comprimido deve ser tomado em jejum, com até cerca de 120 mililitros de água, seguido de uma espera de pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou tomar outros medicamentos orais. A absorção depende dessas condições. O café da manhã, portanto, precisa aguardar sua vez.
Segundo o comunicado, a expectativa é que o produto chegue às farmácias nos próximos trimestres.
Na distribuição, Priscilla Mattar destaca uma vantagem: o comprimido dispensa refrigeração, simplificando a logística em relação à cadeia fria necessária às canetas emagrecedoras. Isso facilita o transporte e o armazenamento, embora, sem preço anunciado, ainda não permita dimensionar quanto a nova apresentação poderá ampliar o acesso financeiro ao tratamento.
A próxima geração quer olhar além da balança
O Wegovy oral também integra um esforço para desenvolver outros tratamentos que possam ser administrados pela boca.
“Uma vez que a gente conseguiu desenvolver esse componente, obviamente não vai ser só esse, mas o caminho está aberto”, afirma Priscilla Mattar.
Entre os candidatos da companhia está a zenagamtida, anteriormente chamada de amycretin, investigada em apresentações oral e injetável. A molécula foi desenhada para atuar em receptores de GLP-1 e de amilina, combinando dois mecanismos envolvidos no controle da alimentação. Trata-se de um medicamento em desenvolvimento, cujos benefícios e riscos precisam ser estabelecidos nos estudos clínicos.
Para Mattar, a pesquisa precisa avançar também na qualidade da perda de peso. Isso envolve investigar a preservação de massa muscular e óssea, a saúde do fígado e condições que acompanham a obesidade, além de necessidades específicas de mulheres na menopausa.
“Não basta só olhar para redução de peso como único e exclusivo desfecho que a gente está buscando com uma molécula. Eu tenho que fazer isso com qualidade”, diz.
A proteção cardiovascular já faz parte dessa mudança de foco. Segundo o anúncio da Novo, o comprimido também foi aprovado para reduzir eventos cardiovasculares maiores em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso.
O estudo citado por Mattar na entrevista, o SELECT, demonstrou redução relativa de 20% no risco combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal. Essa pesquisa, porém, utilizou semaglutida injetável, de 2,4 miligramas semanais. O resultado não deve ser apresentado como se tivesse sido medido no estudo do comprimido.
O corpo também tem seu modo de economia
Outra frente descrita pela executiva envolve as adaptações do organismo ao emagrecimento. À medida que o peso cai, o corpo pode reduzir o gasto de energia e aumentar os sinais de fome, dificultando a continuidade e a manutenção do resultado.
Na explicação de Priscilla Mattar, é como se o organismo ainda estivesse preparado para enfrentar períodos de escassez. A despensa mudou muito mais depressa do que a biologia.
A Novo Nordisk investiga formas de atuar nessas respostas metabólicas. A executiva apresenta essa frente como um objetivo de pesquisa, sem apontar uma solução já disponível capaz de eliminar o problema.
Esse olhar também ajuda a explicar por que o tratamento da obesidade vai além de estabelecer uma meta na balança. Envolve sustentar resultados, reduzir complicações e tornar o cuidado compatível com a vida de cada paciente.
Para o comprimido, a primeira barreira era o estômago. Para a próxima geração de tratamentos, o desafio é lidar com um organismo inteiro — inclusive quando ele insiste em ligar o modo de economia na hora errada.
Por Mateus Omena
