PATROCINADORES

Dia dos Pais: ainda há espaço para as velhas figuras paternas nas empresas?

A data de hoje tem a ver com 65 % do PIB brasileiro – essa é a fatia correspondente às empresas familiares no total de riquezas produzidas no país, segundo o IBGE. Evidentemente, há inúmeras firmas que foram fundadas por mulheres ou mães. Mas há um sem-número de companhias em que a figura dos pais se confunde com as dos patrões. E misturar paternidade com negócios é algo que pode criar tensões dentro dos empreendimentos. Muitas vezes, conflitos familiares acompanham o crescimento dessas iniciativas empresariais e chegam a criar confusões dentro de grandes estruturas.

Por isso, muitas vezes não há outra solução a não ser buscar ajuda externa. Esse foi o caso de uma grande companhia que, nos anos 1990, chamou um conhecido consultor para ajudar em uma crise que ocorria no seio da família de acionistas.

O tal consultor conversou com os filhos do fundador e sua paciência foi posta à prova: o colóquio demorou quase 12 horas, durante as quais todos os tipos de queixas foram ouvidas. A última foi a seguinte: “Parece que o papai gosta mais da empresa do que dos filhos”. A resposta do consultor, que a essa altura estava de pavio curto: “Para fazer vocês, seu pai precisou da sua mãe; para construir a empresa, apenas de si mesmo”. A frase bombástica, em vez de criar um sentimento de revolta entre os herdeiros, provocou outras reuniões com o patriarca e a paz acabou sendo selada – mas a empresa acabou sendo vendida.

Até pouco tempo atrás, empreendedores e CEOs eram vistos como figuras paternas e donas de uma autoridade absoluta – incluindo multinacionais e companhias de capital aberto. A entrada dos millenials no mercado de trabalho e a pandemia provocada pelo coronavírus, no entanto, provocou mudanças nesse cenário.

Na semana passada, MONEY REPORT realizou uma “live” com quatro especialistas na gestão de pessoas: Antonio Lacerda (vice-presidente sênior da Basf), André Freire (sócio diretor da EXEC), Lídia Abdalla (presidente do Grupo Sabin) e Marcia Dolores (diretora do Instituto de Thalentos).

Durante uma hora e meia de debates, três palavras foram ouvidas com frequência: humildade, empatia e compreensão. Esses seriam os valores que os comandantes de empresas precisam absorver para melhor capitanear suas equipes. O tempo do chefe impositivo, durão e intransigente estaria acabado. E iniciativas solitárias de inovação ou criação de novos produtos e serviços dariam lugar a um ambiente no qual a colaboração e a criação coletiva seriam preponderantes.

Essa nova atitude confronta diretamente a imagem clássica de figura paterna que muitos de nós se acostumaram a enxergar em suas chefias. O chefe do futuro é alguém mais compreensivo e que consegue motivar sem pressionar, procurando entender as dificuldades de seus colaboradores antes de partir para uma bronca ou uma descompostura.

Tudo isso se encaixa perfeitamente em um cenário em que valores politicamente corretos e conceitos de governança parecem vir para ficar – especialmente porque as grandes corporações vem abraçando essas causas e provocando modificações profundas em suas estruturas.

Embora esse movimento pareça, de fato, uma tendência um tanto irreversível, vale uma provocação: como isso ficará quando o mercado voltará ao normal e estiver livre da pandemia? Aqueles que criam as metas de venda vão compreender pacificamente o fracasso dos objetivos traçados e impressos do business plan da empresa? Como grandes acionistas e controladores são geralmente pessoas mais velhas, tenho minhas dúvidas se a empatia irá entrar em campo na hora em que as previsões não forem concretizadas. Mas vamos esperar para ver antes de julgar antecipadamente os fatos.

Fico imaginando se esses novos tempos tolerariam o gênio explosivo de um Steve Jobs – talvez a pessoa que tenha moldado o mundo de hoje, com a introdução do smartphone que democratizou o acesso de toda a sociedade à era digital. Jobs era irascível e tratava mal as pessoas. Pressionava sua equipe, era perfeccionista e quando começava a reclamar não tinha hora para terminar. Por conta do espírito zangadiço foi expulso da Apple, que fundou, para retornar à companhia, anos depois, e levá-la ao Olimpo corporativo (hoje, a companhia vale US$ 1,8 trilhão – mais que o PIB brasileiro).

Jobs estacionava seu carro em vagas reservadas a deficientes físicos, insultava sem remorsos seus subordinados, era maniqueísta, teimoso e centralizava o maior número de informações que podia. Uma pessoa com esse perfil teria chances de promoção nos tempos de pandemia? Dificilmente.

Mas como desperdiçar alguém com tanta capacidade?

Provavelmente, figuras inventivas, carismáticas e coléricas ficarão restritas a empreendimentos próprios e atrairão colaboradores por conta de sua genialidade e do propósito de suas empresas. Mesmo assim, terão de lidar com um turnover gigantesco em seus quadros, talvez num volume capaz de inviabilizar qualquer tipo de operação.

Diante desse novo mundo, estaremos fadados a perder talentos brutos por conta de suas condutas comportamentais? Está aí um desafio para psicólogos e psiquiatras: como domesticar um espírito indomável sem tirar sua centelha criativa? Nem os mais brilhantes estudiosos da mente humana sabem responder a essa prosaica pergunta. Teremos que trocar a genialidade de um pela colaboração criativa de muitos? Possivelmente. Os resultados desta nova equação serão diferentes – mas não necessariamente melhores.

Fica aqui uma última questão: um grupo de pessoas trabalhando em conjunto poderia criar, do nada, algo tão genial e visionário como o Iphone? Aguardo comentários.

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Comentários

Uma resposta

  1. A matéria começou com patriarcas, donos de empresas q envelheceram e estão no comando e terminou com Stev Jobs e seu genio ruim (ele não era velho) e nem tinha seus descendentes trabalhando na mesma empresa. Acho q misturou os assuntos. A pergunta seria p dar continuidade no texto q se iniciou: como fazer essa transição de pais fundadores p filhos ou p profissionais q se destaquem mais do q as vezes os próprios herdeiros? Ou qdo o patriarca fundador ou como ele aceitar ir p o conselho e profissionalizar a própria empresa? Mtas vezes entre os próprios filhos herdeiros tem a pessoa certa p dirigir a empresa no lugar de seu pai fundador. Tudo isso tem q ser levado em conta, porém difícil escolher um filho dentro do seio familiar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 − um =