Executiva detalha como mudanças demográficas e lacunas de cuidado passaram a orientar pesquisas e desenvolvimento de produtos para mulheres 45+
A menopausa começou a ocupar um espaço mais explícito na estratégia da Avon, companhia de beleza.
Depois de desenvolver uma pele bioimpressa capaz de reproduzir efeitos desse período sobre o tecido cutâneo e realizar pesquisas sobre envelhecimento feminino, a companhia lança em outubro a Avon Renew MenoPro, linha voltada às transformações da pele durante o climatério e a menopausa.
O movimento acontece em meio a uma mudança demográfica que amplia o peso desse público. Segundo pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 30 milhões de pessoas no Brasil estão na faixa etária associada à menopausa.
A projeção apresentada pela Avon é de que, em 2050, uma em cada três mulheres brasileiras terá mais de 50 anos.
Para a empresa, esse envelhecimento da população feminina abre uma nova frente de desenvolvimento de produtos, mas também evidencia um problema anterior ao consumo: a falta de informação, pesquisa e atendimento especializado para mulheres que atravessam essa fase da vida.
Um estudo antropológico realizado pela Avon Renew no primeiro semestre de 2025, com 35 mulheres de 36 a 71 anos no Brasil e no México, mostrou que a menopausa é atravessada por desinformação e dificuldades de acesso à saúde, especialmente nas periferias.
Entre as entrevistadas, sintomas como calor extremo, ressecamento e sensibilidade da pele, melasma, dores articulares, irritabilidade, insônia e exaustão aparecem combinados a um cenário de pouca orientação médica. A pesquisa também aponta que a menopausa raramente surge de forma espontânea nas conversas dessas mulheres.
O silêncio, segundo o levantamento, está ligado a normas sociais e culturais que transformaram s mudanças do corpo feminino em uma experiência muitas vezes vivida de maneira privada.
“Estou enfrentando um climatério precoce, que envolve ganho de peso, muito melasma e até queda de cabelo. Além de mexer no físico, tudo também impacta o psicológico”, relatou Vanderleya, uma das brasileiras entrevistasdas no estudo.
Periferia entra no desenvolvimento dos produtos
O levantamento, chamado “À Margem, Histórias de Envelhecimento Feminino”, buscou observar como a experiência de envelhecer muda de acordo com a realidade social.
Nas comunidades periféricas analisadas, a pesquisa encontrou mulheres que adaptam suas rotinas de cuidado aos recursos disponíveis. Chás, toalhas geladas, receitas caseiras, pomadas e cremes acessíveis aparecem como alternativas para aliviar sintomas de menopausa e cuidar da pele.
A Avon chama esse comportamento de “beleza possível”: uma rotina construída dentro dos limites financeiros de cada mulher, sem que a falta de acesso a tratamentos mais caros signifique abandono dos cuidados pessoais.e a
Esse repertório também passou a alimentar o desenvolvimento de produtos da companhia. Em entrevista exclusiva à EXAME, Priscila Moncayo, gerente de Desenvolvimento de Produtos de Rosto, Fotoproteção e Maquiagem na Natura e Avon, afirma que o uso da amora por mulheres periféricas foi um dos elementos observados durante a pesquisa.
“A amora, por exemplo, apareceu como um ingrediente tradicionalmente utilizado para ajudar a reduzir os fogachos. Esse tipo de conhecimento foi uma inspiração importante para nós: buscamos unir a sabedoria e as experiências reais das mulheres à ciência e à inovação”, diz.
O extrato de amora passou a fazer parte da formulação da linha MenoPro como ativo antioxidante para ajudar a proteger o colágeno contra degradação.
A linha também utiliza Protinol, tecnologia patenteada pela Avon voltada ao estímulo dos colágenos I e III.
Menopausa vira uma frente específica dentro da Avon
A entrada mais direta nesse mercado ocorre ao mesmo tempo em que a Avon tenta se reposicionar como uma FemTech, termo usado para negócios que desenvolvem tecnologias, produtos ou serviços voltados às necessidades femininas.
Desde o início de 2026, a companhia passou a usar essa definição para descrever uma estratégia que combina desenvolvimento científico, leitura de comportamento e criação de produtos para diferentes momentos da vida das mulheres.
No caso da menopausa, a aposta envolveu um ciclo mais longo de pesquisa. Segundo Moncayo, a frente reúne sete anos de estudos.
Ser uma FemTech não significa apenas ser mais rápida, mas também saber onde é preciso desacelerar para gerar conhecimento, ciência e inovação de impacto.
A executiva diz que a menopausa foi escolhida por representar uma fase ainda pouco atendida tanto pela informação quanto pela oferta de produtos específicos. A Avon também afirma que, durante a perimenopausa e a menopausa, há uma perda de cerca de 30% do colágeno nos primeiros cinco anos, enquanto 65% das consumidoras relatam ressecamento extremo e aumento da sensibilidade.
Foi a partir desse recorte que a companhia passou a diferenciar as mudanças hormonais de sinais mais genéricos associados ao envelhecimento.
“Com Avon Renew MenoPro, ampliamos esse olhar para uma fase ainda pouco explorada pela indústria: as transformações da pele durante o climatério e a menopausa”, diz Moncayo.
Estudo com mais de 1.500 mulheres orientou a linha
Além do levantamento antropológico nas periferias, a Avon realizou um estudo em parceria com a Science Valley, descrito pela empresa como o maior já feito no Brasil sobre o ciclo hormonal feminino.
A pesquisa envolveu mais de 1.500 voluntárias nas 27 capitais brasileiras e analisou aspectos relacionados à qualidade de vida e características da pele, como hidratação, barreira cutânea, firmeza e tom.
Segundo Moncayo, o objetivo foi entender com maior precisão como as mudanças hormonais aparecem no corpo e diferenciar essas alterações dos sinais já conhecidos do envelhecimento.
A companhia diz ter desenvolvido também um estudo específico sobre pele menopausada utilizando uma pele bioimpressa capaz de reproduzir transformações associadas à menopausa.
A partir desses dados, a Avon decidiu criar produtos voltados não apenas a rugas e flacidez, mas também a queixas como sensibilidade, ressecamento, alteração da barreira da pele e sensação de calor.
De creme refrescante a cuidado íntimo
A Renew MenoPro estreia com quatro produtos.
O hidratante ultra refrescante, vendido por R$ 99,90, foi desenvolvido para reduzir a sensação de calor na pele. Segundo a companhia, o produto pode diminuir em até 4°C a temperatura da superfície cutânea imediatamente após a aplicação, com efeito refrescante por até duas horas.
O sérum repositor de barreira e colágeno, de R$ 159,90, foi formulado para atuar sobre a barreira lipídica e estimular os colágenos I e III.
Já o tratamento noturno ultrarregenerador, vendido por R$ 114,90, utiliza um complexo chamado Melatonina+, que, de acordo com a fabricante, foi desenvolvido para atuar em conjunto com os ciclos naturais do sono e favorecer a recuperação da pele durante a noite.
A linha inclui ainda um cuidado íntimo por R$ 49,90. O produto, de uso exclusivamente externo, foi formulado para hidratação da pele da região íntima e para aliviar o desconforto relacionado ao ressecamento durante a menopausa.
A fórmula reúne pantenol, glicerina, ácido lático e niacinamida. A proposta é atuar em hidratação, elasticidade da pele, equilíbrio de pH e neutralização de odor.
A entrada da Avon nesse segmento também mostra como a indústria de beleza tenta ampliar o conceito de cuidado para além dos tradicionais produtos antissinais.
A menopausa passa, assim, a ser tratada não apenas como um marcador de idade, mas como uma etapa com demandas próprias — e, para as empresas, como um mercado específico.
O desafio vai além de colocar produtos na prateleira
O estudo realizado pela Avon nas periferias, porém, mostra que a criação de uma categoria de produtos resolve apenas uma parte do problema.
Entre as mulheres entrevistadas, a menopausa aparece associada à falta de informação, atendimento especializado limitado e dificuldade para reconhecer sintomas como parte de uma mesma transição hormonal.
A pesquisa foi realizada em comunidades que fazem parte de um universo de mais de 16,3 milhões de habitantes nas periferias, segundo os dados apresentados pela empresa, dos quais 51,7% são mulheres.
O levantamento aponta ainda que uma em cada cinco mulheres vive em áreas periféricas e que, entre as entrevistadas, há predominância de mulheres negras e indígenas. Cerca de metade trabalha em atividades informais, muitas vezes usando a própria casa como espaço de trabalho.
Nesse contexto, a experiência da menopausa se mistura a questões de renda, acesso à saúde, jornadas de trabalho e sobrecarga física e mental.
Para Moncayo, a pesquisa mostrou que o desconhecimento pode prolongar uma experiência de isolamento.
“O silêncio em torno da menopausa pode fazer com que muitas mulheres vivenciem as mudanças de forma mais solitária, sem reconhecer que determinados sintomas fazem parte desse período ou sem saber a quem recorrer”, afirma.
A estratégia da Avon tenta ocupar justamente essa interseção entre envelhecimento, consumo e saúde feminina. Ao mesmo tempo em que cria uma nova categoria comercial, a empresa passa a depender de um debate mais amplo sobre uma fase da vida que, segundo seus próprios estudos, ainda é pouco discutida até mesmo entre as mulheres que a atravessam.
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Por Letícia Ozório
Publicação original
