Estações meteorológicas, fertirrigação de precisão e cultivo sem herbicidas orientam a produção da vinícola na Campanha Gaúcha
Temperatura, umidade, radiação solar e até o tempo em que as folhas permanecem molhadas passaram a ter papel central na produção de vinhos e espumantes da Salton. Nos 175 hectares de vinhedos da Azienda Domenico, em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, dados coletados em tempo real ajudam a definir desde o momento de irrigar até a necessidade de aplicar defensivos.
A estação meteorológica instalada na propriedade reúne um histórico climático de mais de cinco anos. O sistema acompanha temperatura, umidade do ar, velocidade do vento, radiação solar e molhamento foliar, informações utilizadas principalmente na prevenção de doenças fúngicas, como o míldio.
“Quando a temperatura está entre 20°C e 25°C, combinada com umidade acima de 70%, a condição se torna altamente favorável ao desenvolvimento de fungos”, explica Junior Marques, coordenador de Viticultura e responsável pela gestão da Azienda Domenico.

Segundo ele, os dados ajudam a indicar quando uma aplicação preventiva é necessária ou quando pode ser adiada. Em períodos de clima mais favorável, o intervalo entre os tratamentos é ampliado, reduzindo o uso de insumos e os custos da operação.
A tecnologia, no entanto, não substitui a avaliação feita no campo. “A estação é uma excelente ferramenta, mas ela não decide tudo. O conhecimento técnico, o caminhar na propriedade e a percepção de quem está no campo se completam”, afirma Marques.
As informações meteorológicas também são utilizadas em pesquisas desenvolvidas em parceria com universidades. O objetivo é relacionar as condições climáticas ao comportamento das diferentes variedades de uva e aos indicadores de qualidade das safras.
“Antes, havia muito conhecimento empírico sobre o potencial de cada cultivar. Agora, é possível comprovar essas percepções com dados concretos”, diz o coordenador.
Outro recurso adotado pela Salton é a fertirrigação de precisão. Sensores instalados em diferentes profundidades do solo monitoram a umidade e ajudam a controlar o tempo, o volume e a frequência da irrigação por gotejamento.

Pelo mesmo sistema, a empresa aplica nutrientes diretamente na água. De acordo com a vinícola, a técnica permitiu antecipar em até um ano o desenvolvimento de áreas recém-implantadas. Nos vinhedos produtivos, o ciclo de maturação foi prolongado em até duas semanas, favorecendo a concentração de açúcares e polifenóis nas uvas.
A água utilizada na propriedade vem de barragens próprias e é armazenada durante o inverno, período em que as videiras permanecem dormentes, para abastecer a produção nas estações mais secas.
Desde 2021, os vinhedos próprios da Salton na Campanha Gaúcha também deixaram de utilizar herbicidas. No lugar dos produtos químicos, a empresa adotou plantas de cobertura, como o azevém, para controlar espécies invasoras e proteger o solo.
Segundo Maurício Salton, diretor-presidente da vinícola, a medida contribui para reduzir a erosão, controlar a temperatura do solo e diminuir a perda de água por evaporação.
“Com o uso do azevém e de outras gramíneas nativas, deixamos de utilizar herbicidas nos nossos vinhedos próprios”, afirma o executivo. Em 2025, a propriedade de Santana do Livramento também passou uma safra inteira sem o uso de inseticidas, segundo a companhia.
Para Maurício Salton, as medidas estão diretamente ligadas à qualidade e à continuidade da produção. “O vinho e o espumante têm uma relação muito próxima com o território, o clima, o solo e as pessoas. Cuidar do solo, da biodiversidade e das emissões significa trabalhar a longevidade do vinhedo e a resiliência da atividade diante das mudanças climáticas.”
A empresa também afirma ter elaborado o primeiro inventário de emissões de gases de efeito estufa dos escopos 1 e 2 do setor vitivinícola brasileiro. Agora, trabalha no escopo 3, que inclui emissões de fornecedores, compra de insumos, transporte e distribuição dos produtos.
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