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Vai faltar até areia – que bom

Há ativos prontos para uso ignorados sob o sol e a chuva. Bastaria colocar as engrenagens para funcionar

Para os catastrofistas, tudo será pior, para os cínicos, tanto faz, para os medianamente visionários, oportunidades inovadoras já existem – basta querer. Enquanto o mundo se prepara para substituir grande parte do emprego de combustíveis fósseis pela opção elétrica, tem gente pensando além, em como mudar o jeito de construir e morar – logo, de viver – sem um componente fundamental, a areia. Isso mesmo. Aqueles grãos de rochas moídos pelas eras geológicas, compostos basicamente de dióxido de silício, mica e feldspato virados em arenito que encontramos aos montões em qualquer obra para serem misturados para virar concreto. O tipo de produto que se compra na esquina e que, por ser, barato e de fácil obtenção, nem imaginamos que possa estar se esgotando. Pois está.

Em abril, o relatório das Nações Unidas (ONU), “Sand and Sustainability: 10 Strategic Recommendations to Avert a Crisis” (Areia e sustentabilidade: 10 recomendações estratégicas para evitar uma crise) recomendou que a indústria da construção reduza o ritmo de consumo desse bem finito. Hoje, são extraídas cerca de 50 bilhões de toneladas anuais de jazidas terrestres e marítimas, sendo o produto mineral mais explorado. É tanto que daria para erguer a cada ano um muro de 27 metros de largura e 27 metros de altura ao redor do planeta Terra na linha do Equador. Criada por erosão, a areia e o cascalho podem ser renovados, mas no apenas no ritmo geológico de milhões de anos.

Sem a ordinária areia, o risco é de comprometimento de áreas litorâneas cada vez mais expostas contra tempestades, assoreamento de rios, salinização de aquíferos, desertificação por derrubada da cobertura vegetal e, por fim, falta dessa matéria-prima. A consequência catastrófica mais direta seriam o comprometimento do abastecimento de água, irrigação insuficiente nas lavouras e danos à pesca nas áreas onde o manejo da extração não for racional.

Mariana, Brumadinho

“Se conseguirmos entender como gerenciar o material sólido mais extraído do mundo, podemos evitar uma crise e avançar para uma economia circular”, disse Pascal Peduzzi, diretor da The Global Resource Information Database – Geneva (GRID-Geneva), a divisão de ciências do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

O relatório recomenda proibir os aterros de resíduos minerais e incentivar a reutilização em contratos públicos. Mas é pouco. No Brasil, por exemplo, não há essa tradição. Mas felizmente no Brasil temos todas as soluções disponíveis. O relatório indica que as alternativas são a areia artificial – pedra moída até virar brita fina -, a adoção de técnicas de construção reciclada e algo que temos de sobra, os rejeitos de minério. Só nos desastres de Itabirito, em 2014, Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, onde ocorreram 297 mortes, foram despejados quase 80 milhões de metros cúbicos de lama e areia. Para oferecer alguma comparação, a barragem Itaipu consumiu 12,7 milhões de m³ de concreto. E ainda há o que está nas centenas de barragens intactas pelo país afora. Na prática, dinheiro tomando sol e chuva.

Boa parte dos rejeitos poderiam virar areia de minério na forma de concreto e tijolos. O que as Nações Unidas recomendam já está concluído no Brasil na forma de estudos de viabilidade produzidos nas universidades federais de Minas Gerais e de Juiz de Fora. Há ampla oferta dessa matéria-prima hoje inútil no Brasil por sermos o segundo maior produtor de minério de ferro do mundo, com 315,6 milhões de toneladas em 2021. Mas daria para ganhar com isso como? Pode ser que não valha a pena o frete para mandar tijolos cozidos em Minas Gerais para o Acre ou Rio Grande do Sul. Mas sempre há surpreedente mercado internacional.

A China compra areia do exterior quase como se fosse soja para atender sua indústria da construção civil. Depois vêm EUA, Taiwan, Hong Kong, Cingapura e Alemanha. Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, importam da Austrália para seus imensos projetos, embora possuam desertos e dunas de sobra. As ilhas Hong Kong e Cingapura expandem seus limites com material extraído do Vietnã e Indonésia. Na costa índica da África, algumas praias estão desaparecendo tamanho é o envio para a China. Maior consumidor da União Europeia, na Alemanha só um terço das jazidas podem ser exploradas e há estudos para resolver o problema. Nenhum deles muito diferente do que já existe no Brasil. Falta botar a engrenagem para funcionar.

O que mais está em risco

Hélio

Gás extraído de rochas, o hélio não serve só para encher balões. É mais útil em equipamentos de ressonância magnética, espectroscopia de massa, soldagem, fibras ópticas, produção de chips e pressurização de tanques de foguetes espaciais. Se não forem localizadas novas fontes ou seu emprego não for limitado, as estimativas indicam que haverá escassez daqui 30 anos. Há grandes jazidas na Rússia e no Irã. Ainda não foi desenvolvida uma maneira de capturar hélio a partir da atmosfera.

Fósforo

Não razão pra grande alarde, mas em até 400 anos as reservas globais de fósforo devem se esgotar. E com isso, será perdido um fertilizante sem substituto. O Brasil possui poucas reservas de fósforo e depende de importações para corrigir seus solos pobres e ácidos, principalmente os do Cerrado. Uma das soluções seria o reaproveitamento, a partir da captação nos sistemas de tratamento de esgoto, já que o elemento é absorvido pelos alimentos e expelido pelos seres humanos. Outra solução seria tentar retirar dos cursos d’água o que é levado das lavouras pelas chuvas.

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