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Os que se isolam durante a pandemia ficam mais intolerantes?

Conheço muita gente que se mudou provisoriamente para a praia ou o interior. Mesmo com a flexibilização da pandemia, essas pessoas não voltaram às cidades grandes e continuam tocando seus negócios ou trabalhando remotamente. Filhos seguem a mesma rotina. Se o ensino é a distância, tanto faz seguir as aulas em casa ou a 200 quilômetros de distância – o efeito é o mesmo. Nos Estados Unidos, houve um movimento semelhante. Segundo pesquisa do Pew Research Center, 22% dos americanos se mudaram ou conhecem alguém que se mudou durante a quarentena. Só que, neste grupo, há bastante gente jovem que ou perdeu o emprego ou que não teve mais de acompanhar aulas presenciais nas faculdades.

O mercado imobiliário americano começa a sentir os efeitos deste fenômeno. O número de imóveis vagos em Manhattan, por exemplo, aumentou significativamente. Segundo a última edição do Elliman Report, especializado no mundo imobiliário da Big Apple, há mais de 13 000 apartamentos para alugar em Nova York, o maior número em 14 anos. Em compensação, o preço dos aluguéis nos subúrbios e em cidades que estão a uma hora de trem da Grand Station subiram significativamente.

Aqui no Brasil, é um efeito que atinge parte da classe alta. Mas pode provocar profundas mudanças no comportamento de empresários e executivos. Muitos resolveram deixar de vez os grandes centros urbanos e viver definitivamente em condomínios nos quais tinham residências de lazer ou de finais de semana. Para isso, investiram na infraestrutura de comunicação e deram um upgrade em seus computadores.

Essas pessoas experimentam rapidamente uma elevação instantânea na qualidade de vida. Respiram ar puro e não estão expostos às chateações típicas das metrópoles, como o barulho constante e o trânsito que expõe todos a engarrafamentos insuportáveis. Com o escritório embutido em um computador ou smartphone, esses executivos podem se plugar em várias reuniões sem perder tempo e desfrutar do melhor dos mundos – encontrar fornecedores, clientes e colegas no ambiente online, mas preservando as vantagens de uma vida pacata no interior.

Como várias multinacionais já anunciaram que não voltarão aos escritórios tão rapidamente, há famílias e empresas que juntaram a fome com a vontade de comer.

Particularmente, não sou um entusiasta do Home Office e prezo muito a troca de experiências e os insights que surgem durante o convívio de uma equipe. A dinâmica que se observa durante uma videoconferência não permite exatamente esse tipo de interação – as conversas são mais diretas, sem tergiversações ou com poucos momentos de descontração. Com isso, o trabalho criativo passa a ser solitário e com pequena troca de impressões.

Isso é o oposto de tudo o que estávamos fazendo antes da pandemia. Os novos escritórios foram projetados para abrigar ambientes de convivência e de descompressão. Ao lado disso, muitas empresas ofereciam facilidades, como comida grátis e academia no escritório, que no fundo mantinham os colaboradores mais horas entre as quatro paredes corporativas. Saímos, assim, deste cenário para o extremo oposto: cada um na sua casa, com chances de falar com os colegas apenas através das telinhas de computador.

O que esse convívio menor com outras pessoas pode trazer para as pessoas?

Por um lado, uma necessidade maior de disciplina. Não há mais uma rotina de escritório a comandar a vida da pessoa. Pelo contrário, esse indivíduo é que terá de comandar o próprio cotidiano.

De outro, a redução de convívio social pode gerar um menor número de ideias e destreinar a capacidade de argumentação das pessoas, uma vez que os debates ficam restritos a reuniões virtuais, que geralmente têm hora para terminar. Sem possibilidade de discutir pessoalmente com outros, é possível que os níveis de intolerância, que já estão altos, subam ainda mais. Especialmente porque a principal ribalta de duelos intelectuais continuará a ser o universo digital, onde a temperatura anda elevada há muito tempo.

No mundo das redes sociais, nas quais o WhatsApp e o Telegram se incluem, discussões existem de uma forma tanto inusitada. Em vez de um diálogo, existem dois monólogos em paralelo, no qual os dois agentes da discussão pouco prestam atenção nos argumentos alheios – ou, quando prestam, o fazem apenas para pescar alguma contradição no afã de ganhar a disputa.

Esse tipo de comportamento, inclusive, começa a ganhar o mundo real, especialmente entre aqueles que voltaram à socialização. Em pouco menos de quinze dias, observei discussões nas quais pelo menos três interlocutores repetiram o mesmo argumento seguidamente – como se o outro lado não estivesse compreendendo o que estava sendo dito. Não obtendo resultado, houve, nesses mesmos casos, uma tentativa de se diminuir o oponente. Coincidência ou não, essa trinca era de pessoas que tinham saído pouco de casa e reduzido seu contato presencial com a humanidade a quase zero.

Ao reduzirmos a nossa taxa diária de conversas com pessoas de carne e osso e não figuras que aparecem em nossos computadores, corremos o risco de deixar o nosso índice de intolerância – que já está alto – em níveis estratosféricos. Para uma sociedade que está com os nervos à flor da pele, este é um desafio enorme – até por que o pesadelo da pandemia só vai terminar com a vacinação em massa das pessoas, algo que não ocorrerá antes do início de 2021. Até lá, muitas amizades serão desfeitas em função de uma razão menor: a intransigência.

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