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O orgulho da ignorância, um fenômeno moderno

Um dos fenômenos mais fortes das redes sociais é o aparecimento, à luz do dia, de pessoas que tinham um certo pudor de, antes, apresentar publicamente seus preconceitos e opiniões agressivas sobre aqueles que pensam diferente. Mais recentemente, no entanto, a esse fenômeno acrescentou-se outro: o orgulho da própria ignorância. São pessoas que parecem dizer à sociedade: “Se eu não sei é porque não interessa”.

Percebe-se que a chegada dos mecanismos de buscas democratizou boa parte das informações que jaziam inertes em livros de papel, acessíveis somente àqueles que se arriscavam por leituras demoradas – e por que não? – muitas vezes enfadonhas.

Rapidamente, contudo, praticamente todas as informações, relevantes ou não, ficaram a um clique de distância. Entretanto, em vez de essa facilidade gerar uma disseminação maior de conhecimento e/ou informações, ocorreu o contrário: a ignorância ganhou uma preponderância maior.

Não que exista mais ignorância nos dias de hoje do que no passado. Talvez seja o contrário. O fato é que, hoje, os ignorantes se manifestam abertamente e sem pudores. No passado, sem as redes sociais, as pessoas pensavam duas vezes antes de abrir a boca quando tinham noção de seu pequeno conhecimento sobre um determinado assunto.

Hoje, acontece justamente o contrário. As redes sociais possibilitaram a união dessas pessoas sob o guarda-chuva de valores aleatórios – geralmente preconceitos ou uma raiva abissal contra alguma coisa, corrente política ou grupo de pessoas. A confiança adquirida com curtidas de quem pensa igual levou essas pessoas a desfiar opiniões sem pé nem cabeça temperadas de um vácuo cultural nunca visto antes.

A falta de interesse cultural leva muitas vezes as pessoas à intolerância. É como se elas vivessem num mundo no qual só importa a sua opinião ou a de quem pense parecido. As redes sociais oferecem essa proteção natural, com uma espécie de bônus: se o ignorante eventualmente sofrer críticas será ajudado em massa por seu grupo e poderá massacrar o oponente.

A agressividade, contudo, não é um monopólio dos que flertam com a ignorância. O imediatismo do mundo atual, a rapidez com a qual as coisas se desenvolvem e a dinâmica das redes sociais elevaram os níveis de impaciência do ser humano moderno. Ninguém se conforma em esperar pelas coisas. Tudo tem de ser para ontem. E, mesmo diante de alguém que cumpra seu papel e entregue uma tarefa com rapidez, a sensação que fica é a de que haveria espaço para a melhora e, consequentemente, um encurtamento de prazos.

A vida, que parecia ser uma espécie de maratona, uma corrida de longa distância disputada em uma velocidade controlada, mudou: passou a ser uma sucessão de sprints de 100 metros rasos. Com prazos apertados e expectativas altas, algumas coisas precisam ser descartadas de nosso dia a dia. E o que será dispensado? Geralmente, a leitura e o acúmulo de conhecimento. Qualquer necessidade pontual que surgir pode ser saciada por uma busca rápida na internet. Diante disso, qual o propósito de ler um texto? Por que eu vou gastar meu tempo para abrir um livro? E por qual razão eu perderei minutos preciosos debatendo algum tema com alguém que pensa diferente de mim?

Diante desse cenário, a humanidade corre o risco de emburrecer nos próximos anos. Em vez de seguirmos nossa evolução, existe a possibilidade concreta de deixarmos o conhecimento para um grupo reduzido de pessoas, sem a preocupação com as ideias e os debates.

Sem predisposição para o debate, não haverá a análise de algum fato ou narrativa. As opiniões serão emitidas quase que imediatamente, passando apenas pelo filtro dos valores e conceitos de cada um. Como que num sistema binário: sou contra ou a favor? É de esquerda ou de direita? É conservador ou libertário? Misógino ou feminista?

Esta tendência surge justamente num momento em que o mundo se torna mais difícil de ser compreendido. Até a Guerra Fria, a percepção político-econômica, por exemplo, era vista sob dois ângulos: capitalista ou comunista (alguns apontarão os sistemas social-democratas europeus que, de fato, estão no meio do caminho).

Hoje, porém, há uma miríade de soluções econômicas adotadas por diversas nações, a ponto de um país em tese comunista, como a China, dominar o comércio exterior e aprimorar suas indústrias e seu plantel de cientistas e pesquisadores – como se fosse um território capitalista.

Além disso, o comportamento da sociedade também se fragmentou em diversos nichos. Para se ter uma ideia, uma pesquisa do DataFolha realizada em 2018 mostrou que 6 % dos eleitores de Fernando Haddad, teoricamente de esquerda, apoiariam uma ditadura militar (aqui no Brasil dificilmente um governo gerido pelas Forças Armadas seria como o regime venezuelano).

Como entender um mundo cada vez mais complexo com poucas ferramentas culturais e mecanismos analíticos binários? Impossível. Talvez seja por isso que as pesquisas eleitorais deixaram de funcionar há um bom tempo. A sociedade já mudou e os instrumentos de análise continuam praticamente os mesmos. Ocorrem fenômenos, como os protestos no Chile, que ninguém consegue explicar a contento, embora esquerda e direita tenham explanações totalmente diferentes e contraditórias entre si.

É possível arriscar um palpite: a análise correta, no futuro, talvez seja dos ponderados. Aqueles que conseguem enxergar as razões e os motivos de vários grupos sociais para chegar a conclusões que podem realmente funcionar. Sem ponderação, curiosidade intelectual e empatia, estaremos numa escuridão sem fim. Que esse não seja o futuro da sociedade.

Enquanto isso não correr – se é que vai ocorrer – vivemos numa Era que pode ser definida por uma letra de música da banda Kid Abelha, composta premonitoriamente na primeira metade da década de 1980: “Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa – mas nada tanto assim”.

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