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As fake news existem porque as pessoas querem acreditar nelas

As fake news existem porque as pessoas querem acreditar nelas

O seriado “Arquivo X”, famoso nos anos 1990, mostrava o dia a dia de dois agentes do FBI que investigavam casos bizarros e ligados ao sobrenatural. Na sala da dupla, havia um pôster. Nele, uma foto de qualidade duvidosa mostra um disco voador acima de uma legenda que diz “I want to believe”. Tradução: “Eu quero acreditar”.

Essa frase aparentemente singela – “eu quero acreditar” – é a base de todo o fenômeno de fake news que o mundo enfrenta já há algum tempo.

Um caso notório de reprodução de notícias falsas ocorreu recentemente com um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro postou em suas redes sociais a foto de alguém que afirmava ter sido curado da contaminação provocada pelo coronavírus através da hidroxicloroquina. Só que… a imagem usada era de um arquiteto internado para tratamento de enfisema pulmonar em 2019.

Quem gasta o seu tempo elaborando notícias falsas provoca discórdias e, em alguns casos, até o pânico. É a versão cibernética dos boatos de antigamente. Os caluniadores anônimos e fofoqueiros de plantão foram substituídos por pessoas que gastam o seu tempo em frente ao computador, escrevendo textos lacradores e buscando imagens para tornar suas mentiras mais palatáveis e marqueteiras.  

Esses criadores de insídia são execráveis. Mas eles apenas colocam o mecanismo em movimento. Quem passa as fake news para frente é gente comum, muitas vezes bem intencionada, que não checa aquilo que recebeu pelas redes sociais. Essas pessoas, como no pôster do Arquivo X, têm algo em comum: elas querem acreditar que aquele post é verdadeiro.

Essa disposição de passar adiante aquilo como recebeu, sem checagem, lembra uma frase de Tancredo Neves, que se preocupava sobremaneira com a forma pela qual as notícias era propagadas. Já naquele tempo, os políticos eram vítimas de boatos que poderiam destruir suas reputações. Questionado por um assessor, que achava essa preocupação exagerada, Tancredo respondeu: “Em política, a versão é mais importante que o fato em si”.

Trata-se de um problema sem solução. Sempre haverá quem produzirá infâmias apócrifas e quem as propagará. E as fake news estão sempre em evolução, ganhando upgrades sutis que tentam aumentar sua credibilidade.

Ultimamente, a tendência é escrever um texto com inúmeras considerações falsas e colocar ao final da mensagem um link que leva a uma página com dados verdadeiros. Como poucos se dão ao trabalho de verificar aquilo que é dito na mensagem, assume-se que tudo é legítimo. E os fakes, assim, vão passando de mão em mão.

Há também os militantes das mensagens falsas – aqueles que não dão o braço a torcer nem quando percebem que há algo de errado com o texto que repassaram. Um exemplo disso está nas dezenas de escritos atribuídos a pessoas com perfis diversos como Arnaldo Jabor, Luís Fernando Veríssimo e Alexandre Garcia. Boa parte do que circula online desses três autores não foi escrito por nenhum deles. No entanto, quando confrontados com a falsidade da autoria, aqueles que repassaram o fake retrucam: mas eu concordo com o que está escrito assim mesmo. De fato, é o direito de qualquer um se identificar com uma opinião. Mas devemos nos perguntar: qual é a intenção de alguém que se esconde sob o anonimato e uso o nome de alguém famoso para dar credibilidade a suas ideias?

Tudo isso é brincadeira de criança perto do que está para ocorrer com o surgimento dos deep fakes, programas de computação gráfica que podem usar qualquer rosto para dizer (na voz original) as barbaridades que o autor da notícia falsa quiser. Qualquer um, em breve, poderá fazer o que quiser com o rosto e a voz de celebridades e políticos. Isso pode mexer tanto com nossa percepção que a desconfiança que hoje se restringe aos textos que recebemos vai chegar aos vídeos divulgados através das redes sociais.

O que faremos, então? Como verificar se um vídeo ou um texto é verdadeiro?

Em tese, os jornalistas profissionais poderiam dar a chancela de veracidade a um determinado assunto. Entretanto, a imprensa também tem sua credibilidade questionada nos dias de hoje. Diante disso, qual seria a solução? As pessoas devem eleger fontes confiáveis e esperar que o Darwinismo exerça seu papel. Aqueles que não forem confiáveis serão eliminados do mapa, abrindo espaço para quem tem um histórico de acurácia e credibilidade.

Num futuro próximo, no entanto, teremos a inteligência artificial nos ajudando nessa tarefa. Em breve, os algoritmos poderão nos ajudar ao mostrar qual é a probabilidade de uma determinada mensagem, recebida pelas redes sociais, ser fake ou não. Mas mesmo a inteligência artificial pode ser driblada. Ou seja, vamos contar com nosso bom senso e, a princípio, usar nosso bom senso para analisar o que recebemos antes de passar para frente.

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