Com a família Lorge-Spaak há 90 anos, a surrealista “La Magie Noire” será oferecida na Sotheby’s Paris. Pregão deve ocorrer em 24 de outubro
Entre as décadas de 1920 e 1930, poucos colecionadores de arte moderna adquiriam obras de surrealistas. Performáticos, provocadores e com discursos revolucionários em uma Europa instável, falida e que cortejava o fascismo, eles eram vistos como encrenqueiros. Era o caso do belga René Magritte (1898-1967). Em termos artísticos, ele dizia que desafiava o mundo real com suas representações naturalistas de objetos e assuntos ordinários aplicadas em cenários oníricos.

Consagrados e alçados a condição de gênios artísticos a partir do final dos anos 1940, os surrealistas tiveram em Magritte um de seus expoentes. Por isso, a colocação em leilão da primeira pintura de sua série “La Magie Noire” causa alvoroço. Integrante da coleção da família Lorge-Spaak há 90 anos, em exibição no Museu Magritte, em Bruxelas, a peça raramente foi vista fora da Bélgica.
Responsável pelo pregão, a casa Sotheby’s estima que a obra será vendida por um valor entre € 5 milhões (R$ 31,35 milhões) e € 7 milhões (R$ 43,98 milhões), sendo provável que atinja um valor ainda maior. La Magie Noire será exibida na Sotheby’s Paris entre 17 e 23 de outubro, após passagens por Londres, New York e Hong Kong. O leilão está previsto para 24 de outubro.
Como surgiu
Duramente criticado e sem vender suas obras após quatro anos em Paris, em 1930 René Magritte teve que voltar à Bélgica, onde abriu um agência de publicidade com seu irmão. Nos próximos dois anos ele foi ignorado, até que o famoso dramaturgo belga Claude Spaak (1904-1990) vislumbrou valor. O autor de “A rosa dos ventos” lhe encomendou retratos da esposa e filhos mediante um contrato mensal.
Foi neste contexto mais favorável que “La Magie Noire” surgiu. Em 1934, a cunhada de Spaak, Alice Lorge (1910-2004), conhecida como Bunny, comprou o quadro para marcar o nascimento de seu primeiro filho com Emile Happe, um industrial belga. O trabalho foi o primeiro de uma série de 10 retratos.
A modelo para a série foi a esposa de Magritte, Georgette Berger (1901-1986), retratada como uma estátua de mármore. Ao estilo surrealista, a parte superior de seu corpo nu gradualmente se funde a mar e ao céu do fundo, enquanto a parte inferior se mantém natural, com em um sonho.
Magia

Em carta ao fundador do Movimento Surrealista, o poeta André Breton, Magritte descreveu sua assim obra: “É um ato de magia negra transformar a carne de uma mulher em céu”. O vice-presidente da Sotheby’s France, Thomas Bompard, usa de uma comparação fácil às novas gerações: “É a Taylor Swift do surrealismo”. A seguir, usa de outro artifício: “Se você pedisse a um grupo de crianças em idade escolar para fazer uma apresentação sobre o movimento surrealista, esta pintura por si só seria suficiente para defini-lo. Eu a chamo de superestrela do surrealismo.”
Crianças judias
No pano de fundo, há a história dos Spaak. O dramaturgo Claude, sua esposa Suzanne (1905-1944) e os dois filhos moravam em Paris quando a guerra eclodiu, em 1939. Após a ocupação nazista, em 1940, ela se juntou à resistência, atuando fortemente no clandestino Mouvement National Contre le Racisme (MNCR, o Movimento Nacional Contra o Racismo). Os Spaak usaram parte de sua fortuna para salvar 163 crianças judias da deportação, escondendo algumas delas em sua casa antes que pudessem ser levadas para um local seguro com ajuda de padres católicos. Algumas ficaram escondidas em sua casa. Ela também foi membro da Orquestra Vermelha, unidade de inteligência ligada aos soviéticos que atuava em Berlim, Paris, Bruxelas e Amsterdã.
Suzanne acabou localizada depois de ocultar seus filhos em Bruxelas. Detida pela Gestapo, a polícia política nazista, em 9 de novembro de 1943, sendo enviada para a prisão de Fresnes, onde foi torturada. Em 12 de agosto de 1944, treze dias antes da libertação de Paris, foi executada para eliminar provas de crimes de guerra. Considerada heroína na França e na Bélgica, em abril de 1985 foi reconhecida como Justa entre as Nações pela Yad Vashem, instituição memorial oficial de Israel para as vítimas do Holocausto.
