Vinícola de Alejandro Bulgheroni integra turismo, alta gastronomia e investimento imobiliário, colocando o pequeno país em um restrito circuito global
Durante muito tempo o Uruguai foi visto como um coadjuvante no mapa do vinho sul-americano. Nada que se comparasse ao Chile e à Argentina, fosse pelo tamanho da produção ou pelas pontuações de seus rótulos. Hoje, parte relevante dessa mudança de percepção passa por um projeto empresarial que vai bem além da viticultura. Instalada em Maldonado, a cerca de uma hora de Punta del Este, a Bodega Garzón se tornou um case de como integrar vinho, gastronomia, turismo e mercado imobiliário em uma plataforma de geração de valor.
A safra de 2025, considerada internamente a melhor já produzida, é apenas a face mais visível de uma estratégia iniciada em 2006, quando o bilionário argentino Alejandro Bulgheroni decidiu apostar em uma área onde, até então, não havia vinhedos. Convidou o consultor italiano Alberto Antonini para avaliar o potencial do terroir. A recomendação inicial era plantar poucos hectares e testar. A resposta foi direta: o projeto começaria grande.
Hoje são mais de mil parcelas plantadas, 17 variedades cultivadas e uma lógica agronômica que respeita a morfologia natural do terreno. Em vez de nivelar colinas, optou-se por preservar inclinações e microclimas — decisão que elevou custos, mas também criou identidade. À frente da enologia, Germán Bruzzone consolidou um estilo que combina precisão técnica e leitura fina do solo granítico meteorizado, o balasto que batiza o vinho ícone da casa.
O Balasto tornou-se o primeiro rótulo uruguaio comercializado na Place de Bordeaux, na França — um selo simbólico de entrada no restrito circuito global de vinhos premium. Em 2025, enquanto o mercado americano recuava cerca de 10%, as vendas do rótulo cresceram 27% nos Estados Unidos, hoje o principal mercado da marca, seguido pelo Brasil.
Mas é no enoturismo que a engrenagem revela seu desenho mais sofisticado. A vinícola recebe mais de 30 mil visitantes por ano — majoritariamente brasileiros — e essa vertical já responde por mais de 20% do faturamento. O restaurante com a grife de Francis Mallmann, executado pelo chef Nicolás Acosta, se transformou em um destino. A experiência inclui visitas guiadas, piqueniques, aulas de culinária e eventos exclusivos, como a festa da vindima para 400 convidados.

A estratégia é clara: vender território, não apenas garrafas. Em 2026, quando o restaurante completa dez anos, estão previstos eventos especiais com chefs convidados. No pipeline, um hotel de luxo, uma pousada com 12 quartos dentro da adega, um projeto imobiliário com mais de 190 lotes e até um beach club em José Ignacio.
Bulgheroni, que hoje controla 12 vinícolas em países como Argentina, Estados Unidos, Itália, Austrália e África do Sul, construiu em Garzón um laboratório de integração entre agricultura de precisão, hospitalidade e branding global. Em um país onde o custo de produção pode ser até o dobro de outras regiões vitivinícolas do Cone Sul, a equação fecha porque o negócio deixou de depender exclusivamente da venda de garrafas.
O Uruguai continua pequeno em volume. Mas, graças a projetos como o da Bodega Garzón, tornou-se grande em narrativa, posicionamento e margem. No fim das contas, talvez o maior destaque do vinho ali seja seu modelo de negócio.
Seis destaques de uma degustação de 21 rótulos
Portfólio da vinícola foi servido e comentado pelo enólogo Germán Bruzzone e pelo CEO da Garzón, Christian Wylie
Albariño 2024 Petit Clos Block #27 (R$ 598)
Com uvas colhidas antes do amanhecer para preservar seu frescor, 30% desse vinho envelhece por até nove meses sobre as lias em tonéis do tipo Lancero, de 600 litros. Tem aroma intenso, floral e frutado, boa acidez e mineralidade, com corpo amplo e enérgico.
Field Blend Orange 2025 (R$ 362)
Resultado da cofermentação das variedades Albariño, Petit Manseng, Riesling, Verdejo e Vermentino, esse é um vinho laranja na essência, mas não na cor, já que as cascas foram removidas antes para evitar amargor. Na boca é vivo e complexo, convidando a uma nova taça.
Merlot 2024 Single Vineyard (R$ 362)
Com uvas de vinhedos em solo argiloso (algo raro na região) com orientação leste que expõe os cachos ao sol da manhã, é um vinho elegante, fresco e com taninos aveludados. Nariz agradável de ameixa com notas da maturação de 12 a 18 meses em tonéis de carvalho sem torra.
Tannat 2023 Petit Clos Block #212 (R$ 598)
Vinho de coloração rubi muito viva, reflete em seu todo a pureza do terroir de Garzón. Os aromas trazem amoras e ameixas pretas sobre uma base sutil de carvalho. Embora presente, o tanino é polido. Destaque para o final longo e mineral, que se distingue de tannats clássicos.
Petit Verdot Single Vineyard 2024 (R$ 362)
Escolhido para celebrar os dez anos da parceria entre a Bodega Garzón e a importadora brasileira World Wine, esse vinho se beneficia de uma parcela com exposição norte, na qual a luz solar da tarde favorece a maturação fenológica. Perfeitamente harmônico e com bom volume de boca.
Todas as safras são as mais recentes de cada vinho. A importação é exclusiva da World Wine
