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Para muitos, a quarentena já acabou

Desconfio que o isolamento social está indo para as cucuias. Não tenho nenhum dado oficial, estudo ou o chamado mapa de calor fornecido pelas operadoras de celular. Apenas conto com minha capacidade de observação. Ontem, saí de casa à tarde com duas missões: ir à farmácia e comprar um açaí para minha filha.

No caminho, dirigindo meu carro e munido de máscara, percebo que meu bairro estava lotado. Em frente à loja de açaí, tomo um susto. Há pelo menos quinze pessoas esperando a vez para experimentar a sua massinha gelada e arroxeada. Dou uma olhada ao redor e constato que há mais gente de máscara do que sem proteção (menos mal). Depois de dez minutos esperando, pego o açaí e volto ao carro.

Em direção à farmácia, vejo a pracinha perto de casa cheia de gente. Há praticamente um congestionamento entre os atletas que correm ao redor daquele retângulo recheado de verde, brinquedos e uma banca de jornais. Vou em frente e passo por uma padaria. Cerca de dez pessoas estão na calçada, tomando bebidas alcóolicas e conversando. Um pouco adiante, duas famílias com cinco pessoas cada se encontram e iniciam uma confraternização que tem tudo para durar uma meia hora. A farmácia é o lugar com menor incidência de pessoas que vejo. Nem meia dúzia de compradores.

Volto para casa e me debruço à janela. Vejo uma movimentação de carros significativamente maior. Aguço a audição. Há mais barulho do que no feriado anterior, quando tive a impressão de estar numa cidade interiorana, tamanho o silêncio que imperava em São Paulo.

Vou até às redes sociais e percebo que as pessoas estão estressadas e se queixando do isolamento. Recebo convite para dez “lives”, só que estamos em pleno feriado. E mais outros chamados para reuniões virtuais pelo Zoom, Webex, Skype, Teams – para falar a verdade, nunca pensei que teria em meu computador e em meu celular todos os aplicativos necessários para entrar numa conversa digital.

O telefone toca. Coloco a ligação no viva-voz: amigos queridos convidam para um drink ao final de tarde, seguido de um jantar japonês via delivery. Minha filha não deixa a conversa prosperar e decreta que não sairá de casa nem sob a mira de um revólver. Nem tenho a chance de pensar sobre romper as regras de isolamento social ou não. Depois de quinze minutos, recebo outro convite semelhante, que nego (os mais velhos entenderão que são os filhos é que mandam numa família, não os pais). Desligo o celular e recebo um WhatsApp com proposta semelhante. Já começo a ficar tentado, mas lembro que não tenho com quem deixar minha filha e não quero largá-la sozinha em casa. Recuso polidamente o convite.

Desabo no sofá e penso: a quarentena, na prática, acabou. Estamos no pico do contágio, quando a lotação dos hospitais entrará em seu ponto máximo e o número de mortes baterá o auge. Mesmo assim, as pessoas querem sair de casa.

O medo do coronavírus, no meio da pior fase de contaminação, está passando. E qual a razão disso? As pessoas não aguentam mais o confinamento. Lembro daqueles que fazem defesa veemente do final da quarentena em favor da retomada econômica. Talvez o motivo seja outro – o extremo enfado gerado pelo shutdown.

Se estamos passando pelo pico do contágio e, teoricamente, conseguimos achatar a curva de internações em muitas cidades, é hora de discutirmos como vamos sair deste distanciamento. E é melhor o governo (federal, estadual ou municipal – não importa) tomar à frente desse processo. Pois, na cabeça de muitos, a quarentena já acabou.

Recentemente, uma pesquisa mostrou que 80 % da população era favorável a algum tipo de punição a quem desrespeitasse as regras de isolamento social. Mas, em São Paulo, indicadores das operadoras de celular mostravam que apenas uma parcela entre 47 % e 54 % estavam respeitando a quarentena. Ou seja, há pessoas que querem multa para si mesmas. Ou não percebem o que estão fazendo ou são movidas pela hipocrisia.

Não importa. O fato é que o isolamento começou a fazer água. Precisamos de um plano para isso. Urgente.

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Comentários

3 respostas

  1. Tenho percebido o mesmo em alguns lugares. Não dá pra fazer vista grossa. Talvez a liberação pontual e gradativa – mas com punição para quem desrespeitar – seja o melhor.

  2. Talvez você esteja apenas cercado de pessoas irresponsáveis.
    Os dados estão mostrando isso – alguns lugares mantêm mais o isolamento, em outros não. Isso deve depender da influência exercida pelos governantes e da incertezas/certezas acerca desse momento.

    De qualquer forma, em pesquisa recente no Reino Unido se avaliou que as pessoas tendem a afrouxar seu isolamento depois de algumas semanas, por tendência natural. De fato, é necessário fazer algo para evitar isso.

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