Em publicação no LinkedIn, Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, alerta que a recente valorização do real frente ao dólar, com a moeda americana abaixo de R$ 5, é resultado de fatores externos e não de avanços estruturais da economia brasileira.
Segundo ela, o movimento reflete a diversificação global de portfólios, a incerteza geopolítica e os preços elevados do petróleo, que favorecem países exportadores de commodities. “Quando o alívio vem de fora, cresce o risco de interpretar um ganho conjuntural como se fosse estrutural”, afirma.
Srour destaca que o câmbio apreciado reduz a percepção de risco e diminui a pressão por disciplina fiscal, criando espaço para pautas que ampliam despesas obrigatórias.
O exemplo mais recente é a PEC do SUAS, aprovada em primeiro turno na Câmara, que vincula constitucionalmente parte da receita ao Sistema Único de Assistência Social. Para ela, cada nova vinculação aumenta a rigidez orçamentária e limita a capacidade de adaptação da política fiscal diante de choques.
A economista também chama atenção para a eficiência do gasto público. Nos últimos dez anos, transferências de renda cresceram 140% em termos reais, enquanto a pobreza caiu apenas 10%. Esse descompasso, segundo Srour, mostra que ampliar recursos sem revisar a execução e a focalização não garante resultados proporcionais.
O risco, conclui, é que a sensação de conforto trazida pelo câmbio abaixo de R$ 5 reduza a urgência de ajustes e abra espaço para decisões permanentes que dificultem ainda mais a trajetória da dívida pública.
“Em política fiscal, os momentos de aparente tranquilidade são, muitas vezes, os mais perigosos”, alerta.
