O governo dos Estados Unidos confirmou nesta quarta-feira (15) a aplicação de tarifas de 25% contra produtos brasileiros. A medida, resultado de uma investigação conduzida pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), entra em vigor no dia 22 de julho e coloca o Brasil como o segundo país mais tarifado pelos americanos, atrás apenas da China, destaca a Folha de S. Paulo.
A investigação teve como base a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e mirou pontos como o Pix e o mercado de etanol. O relatório acusa o Banco Central de favorecer o sistema de pagamentos brasileiro de forma discriminatória e aponta restrições impostas pelo Brasil ao etanol americano desde 2017. Questões ligadas à propriedade intelectual, desmatamento ilegal e aplicação da Lei Anticorrupção também foram incluídas.
Com a nova tarifa, produtos brasileiros passam a enfrentar uma taxa de 25%. Em fevereiro, já havia sido aplicada uma tarifa global de 10% sobre todos os países, mas essa medida expira em julho, o que deve evitar a sobreposição. Ainda assim, há risco de novas penalidades: o USTR avalia a possibilidade de impor uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos ligados a trabalho forçado, o que elevaria o total para 37,5%.
Apesar do tarifaço, mais de 2.100 itens foram isentos, incluindo carne, café, laranja, roupas usadas, sucata de ferro e aço e partes para aviões. Conforme a Folha de S. Paulo, a lista foi ampliada após pressão de empresas e setores que alegaram risco de desabastecimento ou impacto econômico nos EUA. Estimativas do governo brasileiro apontam que cerca de 21% das exportações nacionais para os americanos serão afetadas.
Grandes companhias como Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Faber-Castell, eBay e Siemens Energy se manifestaram contra a medida, alegando que ela pode encarecer alimentos, medicamentos e insumos agrícolas, além de prejudicar cadeias de suprimentos.
O governo brasileiro anunciou que irá recorrer à OMC e aplicar a Lei de Reciprocidade aprovada em 2025, que permite retaliações equivalentes em casos de medidas comerciais prejudiciais. Entre as possíveis respostas estão sobretaxas a importações americanas, suspensão de acordos e até bloqueio de patentes e royalties. Também foi prometido apoio aos setores afetados por meio do Plano Brasil Soberano.
Marco Rubio e a resposta do governo Lula
Após a confirmação do novo tarifaço, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, responsabilizou diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em publicação nas redes sociais, Rubio afirmou que Lula “não negociou com os EUA de boa-fé” e que teria colocado “seu próprio ego à frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”. Segundo ele, as políticas econômicas do governo brasileiro são prejudiciais tanto para os americanos quanto para os brasileiros.
O tarifaço foi anunciado na noite desta quarta-feira (15) e passa a valer em 22 de julho, com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. A investigação que levou à medida começou em julho do ano passado, em meio às críticas de Trump ao que chamou de “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Rubio esteve reunido em maio com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que também participou de audiências sobre o tema em Washington, pedindo que o Brasil não fosse tarifado. O governo americano, no entanto, não confirmou encontros de Flávio com representantes de alto escalão do USTR.
Today, President Trump directed USTR to impose a 25% tariff on most Brazilian imports. Let there be no confusion about why: President Lula and his government have not negotiated with the US in good faith.
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) July 16, 2026
His economic policies are bad for Americans and bad for Brazilians. For…
Do lado brasileiro, o governo Lula reagiu com firmeza. Em nota divulgada na madrugada desta quinta-feira (16), afirmou que acionará imediatamente a Lei de Reciprocidade e levará o caso à OMC. O comunicado classificou o 15 de julho como “um marco lastimável” nas relações entre Brasil e EUA e destacou que, nos últimos 15 anos, os americanos acumularam superávit de mais de US$ 424 bilhões no comércio bilateral. O governo também ressaltou que 76% das importações americanas entraram no Brasil sem pagar imposto em 2025, com alíquota média de apenas 3,1%.
A nota reforça que o Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais e que nunca deixou a mesa de negociação. O governo defendeu o Pix como patrimônio nacional e referência internacional, além de destacar avanços no combate ao desmatamento desde 2023. O ministro Guilherme Boulos também criticou a narrativa americana, afirmando que o bolsonarismo colaborou ativamente para o enredo que resultou no tarifaço.
Com a nova fase de sanções, o Brasil sinaliza que não abrirá mão de pontos considerados inegociáveis, como o etanol e o Pix. A estratégia agora é diversificar parcerias comerciais e ampliar mercados, citando acordos do Mercosul com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio e Singapura. O governo brasileiro promete medidas de proteção aos setores afetados e mantém o discurso de que as tarifas são resultado de pressões políticas ligadas à família Bolsonaro.
Nota à imprensa sobre a imposição de tarifas unilaterais contra o Brasil pelos Estados Unidos
— Lula (@LulaOficial) July 16, 2026
O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável.
O governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA…
