Em painel da CEO Conference do BTG Pactual, o ministro Alexandre Silveira defende agenda de leilões, equilíbrio na transição energética e aposta em minerais críticos como nova fronteira econômica
A agenda energética brasileira entrou definitivamente no centro da estratégia econômica do país. Durante painel na CEO Conference do BTG Pactual, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu que o setor deve ser um dos principais motores de crescimento nos próximos anos — mas alertou que o equilíbrio entre transição energética, competitividade e segurança de abastecimento será decisivo.
Moderado por Luiz Barroso, CEO da consultoria PSR, o debate percorreu desde os leilões previstos para 2026 até geopolítica da energia, mineração estratégica e o papel do Brasil na nova economia da eletrificação.
Leilões e segurança energética dominam a agenda
Silveira destacou que o primeiro semestre será marcado por grandes licitações no setor, com foco em garantir estabilidade ao sistema elétrico e atrair investimentos. Entre elas, o leilão de reserva de capacidade (LRCAP) e o primeiro leilão de baterias do país.
Segundo o ministro, a expansão das fontes renováveis exige soluções de estabilidade:
“O Brasil avançou muito nas energias intermitentes, como solar e eólica. Agora precisamos de segurança energética e as baterias serão fundamentais para estabilizar o sistema.”
Ele afirmou ainda que o governo busca incorporar tecnologia e conteúdo local, inclusive com parcerias internacionais:
“Não podemos ser apenas receptores de tecnologia. Queremos absorver ciência, desenvolver produção nacional e criar inteligência na cadeia de baterias.”
Custo e atração
Silveira reforçou que a política energética segue baseada em três pilares: tarifas competitivas, segurança no abastecimento e retorno adequado ao investidor.
“Nós não abrimos mão do tripé: modicidade tarifária, segurança energética e remuneração justa. O capital é volátil — se não houver equilíbrio, ele simplesmente vai para outro país.”
Para ele, o Brasil possui vantagens estruturais importantes, como matriz diversificada e estabilidade regulatória, mas ainda enfrenta desafios burocráticos e custos elevados.
Ajuste técnico
A divulgação recente dos preços-teto do leilão de reserva de capacidade gerou forte reação do mercado. O ministro afirmou que a equipe técnica já revisa os parâmetros.
“Ficamos até a madrugada analisando. O preço-teto não é o preço final da contratação. Vamos corrigir o que for necessário para garantir competitividade e qualidade dos projetos.”
Ele ressaltou que preços excessivamente baixos podem comprometer a execução das obras e, no fim, prejudicar o consumidor.
Curtailment e renováveis
Outro tema sensível foi o curtailment — cortes na geração renovável por limitações do sistema. O ministério trabalha em uma regulamentação para diferenciar riscos de mercado e falhas estruturais.
Silveira explicou a posição do governo:
“Se o problema for elétrico ou de transmissão, o investidor deve ser ressarcido. Mas falta de demanda é risco do próprio investimento.”
A expectativa é concluir a regulamentação ainda no primeiro semestre.
Sem “ônus ideológico”
Sobre combustíveis fósseis, o ministro adotou discurso pragmático. Embora defenda a liderança brasileira na transição energética, ele rejeita decisões que aumentem custos internos.
“Somos líderes em energia limpa, mas não podemos onerar a economia por questões ideológicas. O Brasil é também um país petrolífero.”
Silveira destacou a importância do petróleo para financiamento da transição e para a competitividade econômica, além da necessidade de equilíbrio ambiental para preservar mercados como o agronegócio.
O “novo petróleo”
Um dos pontos mais enfatizados foi a estratégia para minerais estratégicos, fundamentais na eletrificação global.
“Esses minerais vão se tornar o novo petróleo do mundo. O Brasil precisa agregar valor aqui dentro e não apenas exportar matéria-prima.”
O governo criou um conselho interministerial para estruturar políticas e destravar investimentos, especialmente em lítio, urânio e terras raras.
Vetor geopolítico
Silveira também destacou a crescente disputa global por fontes energéticas e tecnologia, afirmando que a eletrificação e os minerais críticos reposicionam o Brasil no mapa geopolítico.
Para ele, a pluralidade energética brasileira — biocombustíveis, petróleo, renováveis e minerais — é uma vantagem estratégica que deve ser explorada com equilíbrio.
Balanço e desafios
Ao fazer um balanço da própria atuação, o ministro citou avanços regulatórios, a liberalização do mercado de energia e políticas como a Lei do Combustível do Futuro. Mas reconheceu frustrações, como a dificuldade de avançar na exploração de gás não convencional.
“O Brasil é um dos maiores importadores de gás e ainda não consegue explorar plenamente suas próprias reservas. Isso impacta diretamente o custo da indústria.”
Ele afirmou ainda que permanece no cargo sem apego político, focado na agenda do setor e na continuidade das políticas públicas.
Energia no centro
A percepção geral do painel é que energia deixou de ser apenas infraestrutura para se tornar eixo estratégico da economia, da política industrial e da inserção internacional do país.
Com demanda global crescente, transição energética em curso e disputa por recursos minerais, o Brasil aparece — nas palavras do ministro — diante de uma oportunidade histórica: transformar suas vantagens naturais em desenvolvimento econômico sustentável.
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