Um país que desconfia da inovação condena a si mesmo à estagnação
O Brasil precisa, mais do que nunca, de criadores
O Brasil tem hoje cerca de 4,5 pesquisadores por mil trabalhadores, contra 8,5 na média da OCDE e mais de 16 na Coreia do Sul. O país investe algo em torno de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, enquanto Israel investe 5,6% e a Coreia do Sul, 4,9%, com uma diferença fundamental: nesses países, a maior parte do investimento vem do setor privado, de empresas que competem, inovam e assumem riscos com o próprio capital, não de governos distribuindo recursos por critérios políticos. Esses números não descrevem apenas um gap de financiamento, descrevem uma diferença de ambição.
O que é tecno-otimismo
Em outubro de 2023, o investidor e cofundador da Andreessen Horowitz, Marc Andreessen, publicou o Manifesto Tecno-Otimista, um texto que argumenta que a tecnologia não é o problema do mundo moderno, é a solução. Cada grande desafio que a humanidade enfrenta, da pobreza à doença, da escassez energética às mudanças climáticas, tem solução tecnológica possível, e o medo do progresso tecnológico é, na prática, uma preferência velada pelo sofrimento humano evitável.
Andreessen não inventou a ideia, ela tem raízes em pensadores como Julian Simon, que argumentou nas décadas de 1980 e 1990 que o recurso mais escasso e mais valioso do planeta não é petróleo nem água, mas inteligência humana aplicada a problemas concretos. Ele encontra respaldo nos dados históricos: a expectativa de vida global dobrou nos últimos cem anos, a pobreza extrema caiu de mais de 80% da população mundial para menos de 10%, a produtividade agrícola cresceu a ponto de alimentar oito bilhões de pessoas em solos que antes sustentavam dois.
Isso não aconteceu por decreto, aconteceu por tecnologia desenvolvida por pessoas e empresas que tinham liberdade para criar, errar e tentar de novo.
Tecnologia não se planeja, se liberta
O tecno-otimismo tem uma dimensão que vai além da admiração pela ciência: é uma posição sobre quem deve liderar o desenvolvimento tecnológico. A resposta, para qualquer observador honesto da história, é o setor privado, empresas e indivíduos que assumem riscos com o próprio capital, que erram e aprendem, que competem para criar produtos melhores do que os concorrentes. Governos acreditam poder regular ou financiar ciência básica em áreas onde o retorno privado é difícil de capturar, mas o protagonismo da inovação pertence ao mercado, não ao estado.
O papel do governo, portanto, não é liderar a transformação tecnológica, é parar de atrapalhar. No Brasil, isso significa uma lista longa: impostos sobre equipamentos importados que encarecem a automação industrial, processos de abertura de empresa que levam semanas quando deveriam levar horas, regulações sobrepostas que criam insegurança jurídica para quem quer investir e inovar, e uma carga tributária que consome energia de gestores que deveriam estar pensando em produto, não em compliance.
Há também uma mudança cultural necessária, que começa nas empresas, mas precisa contaminar o ambiente de negócios como um todo. Tecnologia é desenvolvida em ambiente de tentativa e erro, onde falhar faz parte do processo, e a empresa que fechou ensinou ao empreendedor mais do que dez anos de consultoria. O Vale do Silício não produziu inovação apesar das centenas de startups que faliram; produziu em parte por causa delas, porque cada fracasso realocou capital humano e aprendizado para a próxima tentativa. No Brasil, fechar uma empresa ainda é um processo burocrático e caro, abrir uma nova depois de um negócio fracassado ainda carrega estigma social, e o empreendedor que errou ainda é visto com desconfiança, quando deveria ser visto como alguém que aprendeu na prática o que nenhuma sala de aula ensina.
Quando o estado recuou, o Brasil avançou
O Brasil tem casos concretos que demonstram o que acontece quando o estado reduz sua presença e deixa o mercado operar, ainda que nenhum desses casos represente liberdade plena, e todos eles mostrem o quanto ainda falta percorrer.
A Embraer é o exemplo mais conhecido. Em 1994, quando o governo federal privatizou a empresa e ela passou a operar segundo a lógica de mercado, a Embraer tinha receita de cerca de 300 milhões de dólares. Em 2023, faturou mais de 6 bilhões de dólares e é hoje a terceira maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo. A privatização não foi o único fator, mas foi condição necessária: deu à empresa liberdade para inovar, competir e se internacionalizar sem depender de decisões políticas a cada ciclo eleitoral.
O agronegócio brasileiro conta uma história semelhante, embora com uma nuance importante. A Embrapa contribuiu com pesquisa aplicada para adaptar culturas ao cerrado, mas o que realmente transformou o Brasil no maior exportador mundial de soja, café, açúcar e carne bovina foi a liberdade que o setor privado conquistou para produzir, exportar e competir globalmente, sem os controles de preços e as estatizações que sufocaram a agricultura brasileira nas décadas anteriores. O cerrado floresceu não porque o estado o planejou, mas porque os produtores privados tiveram espaço para inovar, arriscar e escalar. O que ainda trava o setor, do crédito rural subsidiado à instabilidade regulatória ambiental, são justamente as intervenções que permanecem.
Na telefonia, a privatização do sistema Telebrás em 1998 foi um passo necessário, mas o setor ainda está longe de ser um mercado livre. A Anatel regula preços, concessões e espectro com uma complexidade que limita a competição e encarece o serviço para o consumidor, e o resultado é um mercado oligopolizado onde a inovação avança apesar da regulação, não por causa dela.
No saneamento, a melhora nos indicadores ocorre onde empresas privadas, como Aegea e Iguá, assumiram operações antes estatais, mas o setor permanece majoritariamente nas mãos de companhias estaduais ineficientes. O Marco Legal do Saneamento de 2020, ao abrir espaço para mais concessões privadas, aponta na direção certa sem ter chegado nem perto do destino.
Esses casos não são modelos a celebrar, são pontos de partida que mostram o que é possível quando o estado recua, e o quanto mais o Brasil poderia crescer se o estado recuasse mais.
A janela que a inteligência artificial abre
A inteligência artificial generativa representa uma oportunidade diferente das anteriores, porque ela reduz, pela primeira vez de forma significativa, o custo do conhecimento especializado: um pequeno produtor rural no Mato Grosso pode, com um celular e acesso a um modelo de linguagem, obter orientação técnica que antes exigiria um agrônomo; um estudante em Belém pode ter acesso a explicações personalizadas de física quântica; um empreendedor em Fortaleza pode redigir contratos, analisar planilhas e projetar fluxos de caixa sem contratar uma equipe de dez pessoas.
A IA não elimina a necessidade de infraestrutura, educação de qualidade ou um ambiente de negócios funcional, mas ela reduz a penalidade por tê-los em nível insuficiente, e para países como o Brasil, que partem de uma base mais baixa, esse efeito democratizador é proporcionalmente maior do que para países que já possuem essas estruturas consolidadas.
A robótica e a automação trazem argumento semelhante. A produtividade industrial brasileira cresceu menos de 1% ao ano na última década, em parte porque a adoção de automação avança lentamente, travada por impostos sobre equipamentos importados, burocracia e resistência cultural, enquanto países que automatizaram mais não destruíram empregos em termos líquidos, mas criaram empregos de maior valor agregado e elevaram salários reais.
O que nos falta não é tecnologia, é ambição
O tecno-otimismo não é ingenuidade, é a postura intelectual de quem observa o registro histórico e conclui que os problemas humanos têm soluções humanas, e que essas soluções dependem de indivíduos e empresas com liberdade para criá-las, não de governos para regulá-las e planejá-las.
O Brasil já provou, em setores específicos, que essa postura funciona. A Embraer não teria se tornado o que é sem a privatização que a libertou da lógica política. O cerrado não teria florescido sem pesquisadores que recusaram o fatalismo geográfico.
A pergunta não é se o Brasil tem capacidade de se tornar um país mais tecnológico, os exemplos mostram que tem. A pergunta é se vamos parar de tratar tecnologia e inovação como um risco e começar a tratá-las como uma oportunidade, com um governo que desregula, simplifica e sai do caminho das empresas e dos indivíduos que querem criar.
A janela aberta pela inteligência artificial não vai ficar aberta para sempre, ela vai se fechar para quem não entrar. E o Brasil não pode, mais uma vez, chegar atrasado.
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Por João Pedro Hoerde
Publicação original
