Presidente do Banco Central afirma que economia aquecida, inflação de serviços e choques externos dificultam convergência da inflação à meta
O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira (19) que a piora das expectativas de inflação para 2028 tem aumentado a complexidade do cenário para a política monetária brasileira e reforçado a percepção de que as pressões inflacionárias podem ser mais persistentes do que o esperado.
Durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Galípolo disse que a desancoragem das projeções em horizontes mais longos chama atenção porque, em tese, os choques recentes já deveriam ter perdido força até lá.
“2028 deveria ser um horizonte onde esse choque de oferta já deveria ter se propagado”, afirmou.
Segundo o presidente do BC, a deterioração das expectativas indica que parte do mercado ainda vê dificuldades para que a inflação convirja de forma consistente para a meta de 3% estabelecida pela autoridade monetária.
Galípolo avaliou que o atual cenário reúne uma combinação considerada mais difícil para os bancos centrais: choques externos sobre preços e uma atividade doméstica ainda resiliente, mesmo após um longo período de juros elevados. Entre os fatores citados por ele estão os efeitos remanescentes da pandemia, a guerra na Ucrânia, o aumento das tensões comerciais globais e os conflitos recentes envolvendo Estados Unidos e Irã.
Na avaliação do BC, esses episódios contribuíram para elevar o nível geral de preços e dificultaram o processo global de desinflação. “As pessoas convivem com o nível de preço, não com a inflação”, disse.
O presidente da autoridade monetária também destacou que a inflação de serviços segue pressionada no Brasil, refletindo um mercado de trabalho aquecido, com desemprego em mínimas históricas e crescimento da renda.
“A inflação de serviços também está bastante pressionada, denunciando uma economia bastante aquecida”, afirmou.
Galípolo ainda reconheceu que o Brasil convive com uma situação considerada incomum em relação a outras economias: taxas de juros elevadas por períodos prolongados sem uma desaceleração mais significativa do mercado de trabalho. Segundo ele, isso sugere a presença de fatores estruturais que reduzem a potência dos mecanismos tradicionais da política monetária no país.
“Não é simples explicar como o Brasil sustenta uma taxa de juros tão alta durante um período tão prolongado e ainda assim tem a menor taxa de desemprego da série histórica”, disse.
