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Exame: como Taiwan se tornou uma potência econômica 

As escolhas feitas pelo governo há 60 anos transformaram a ilha em um gigante tecnológico, fundamental para China e EUA

A crise em andamento no estreito de Taiwan está preocupando os analistas internacionais, pois poderia desencadear uma guerra entre as maiores potências do planeta: China e Estados Unidos.

Taiwan é estratégica devido à sua posição geográfica e sua força econômica. Ninguém pode prescindir da ilha por causa de suas produções tecnológicas. E por isso que sua defesa justificaria um conflito entre Washington e Pequim.

Esse microestado, cuja extensão territorial é menor do que o estado do Rio de Janeiro e tem uma população comparável a da Grande São Paulo, possui um peso específico econômico bem superior a seu tamanho físico.

As empresas taiwanesas dominam dois terços do mercado globais de semicondutores. No caso dos processadores mais avançados, apenas uma empresa, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), controla 84% da produção mundial.

Taiwan também domina o comércio internacional, com um décimo da capacidade global de transporte nas mãos de empresas locais, como Evergreen, Yang Ming Marine e Wan Hai. Além de controlar dois maiores portos do mundo: Kao-hsiung e Taipei.

A China, que está ameaçando invadir a ilha, é atualmente o maior parceiro comercial de Taiwan, com mais de 26% do comércio total.

Em segundo lugar, estão os Estados Unidos, com 13%, seguidos pelo Japão (11%), União Europeia e Hong Kong (ambos com 8%).

Ilha tecnológica

Taiwan é um país extremamente avançado em termos de tecnologia. O país tem o maior número de ações de tecnologia listadas em sua Bolsa de Valores.

Os produtos de alta tecnologia representam mais de dois terços das exportações taiwanesas, entre eletroeletrônicos, equipamentos mecânicos, produtos ópticos e médicos e até componentes em fibra de carbono para bicicletas.

Exportando bens com elevado valor agregado, Taiwan conseguiu obter uma balança comercial largamente positiva, com exportações totais de mercadorias em US$ 347 bilhões e importações de US$ 287 bilhões. Suas reservas internacionais são as sextas maiores do mundo, com mais de meio trilhão de dólares.

O país é o terceiro que mais gasta no planeta em pequisa e desenvolvimento: cerca 3,5% de seu produto interno bruto (PIB). Atrás apenas de Israel e Coreia do Sul.

E está se tornando a vanguarda em setores fundamentais para o futuro do mundo, como biomedicina, internet das coisas, energia verde e economia circular.

Não por acaso, tem uma das maiores taxas de produtividade do trabalho da terra, de mais de 2 mil horas por ano em 2020.

Natural consequência desse progresso tecnológico e dessa elevada produtividade é uma renda média per capita de US$ 35 mil, o equivalente a mais de três vezes a média mundial.

Além da força econômica, Taiwan está estrategicamente posicionado na Ásia. Segundo dados do Australian Strategic Policy Institute, no estreito de Taiwan transita cerca de um terço do transporte marítimo global e um quarto de todo o comércio mundial em volume.

É por isso que China e EUA têm um interesse vital em manter essa área marítima transitável.

Desenvolvimento e tensão geopolítica

Taiwan não é o único país pequeno que conseguiu se destacar e desempenhar um papel fundamental na economia global. A Irlanda, Israel e Suíça são outros exemplos semelhantes.

Mas alcançar esse resultado não foi fácil, principalmente pela constante tensão geopolítica que a ilha enfrentou ao longo dos últimos 60 anos.

Mesmo com a constante ameaça de invasão da China comunista, Taiwan transformar um território pobre e sem recursos naturais, menosprezado por séculos pelos chineses “continentais’ (tanto que os imperadores chineses chegaram a apelidar a ilha de “bola de lama inútil”) para uma potência econômica e um dos países mais prósperos do mundo.

Aquilo que nos livros de história econômica se chama de “milagre econômico taiwanês”.

Mas além das ameaças externas, Taiwan também conseguiu evitar de cair na chamada “armadilha da renda média”.

A ilha foi um dos pouquíssimos lugares do mundo que conseguiu realizar com sucesso a transição de uma economia baseada em mão de obra barata e recursos naturais para uma economia do conhecimento e produções em elevado valor agregado.

Essa transição exitosa se baseou em quatro pilares.

O primeiro foi o foco na educação da população e as políticas sociais. Em um relatório de 1968, o Banco Mundial descreveu o sistema educacional como “bem desenvolvido”, com uma taxa de alfabetização de 93%, e definiu os programas de planejamento familiar de Taiwan como “entre os maiores do mundo”.

O segundo pilar foi uma política cuidadosa que alternou entre abertura às multinacionais voltadas para a exportação e protecionismo em setores estratégicos.

Tudo isso sem abrir mão do planejamento, o terceiro pilar. Há 50 anos o governo de Taiwan decidiu transformar a ilha uma potência na produção de computadores, e hoje se tornou um dos maiores produtores do planeta.

Em outras palavras, uma vez definido um objetivo, o todo sistema atua para alcançá-lo, orientando as escolhas do mercado, sem todavia violar os direitos de propriedade particular.

O quarto pilar foi o fundamental apoio às pequenas e médias empresas, que com o suporte do governo se tornaram protagonistas da integração global como subfornecedores de grandes grupos de informática.

A questão que o mundo está se pondo é: o que vai acontecer com Taiwan em caso de guerra ou de anexação por parte da China? A ilha vai continuar sendo uma potência econômica e um polo de pesquisa e desenvolvimento mundial ou será o fim do “milagre taiwanês”?

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Por Carlo Cauti

Publicado originalmente em: cutt.ly/nZABhcA

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