Chairman do BTG Pactual afirma que “a economia parece não ter muito segredo” e aponta sustentabilidade da dívida como principal desafio, apesar dos tremores externos
O cenário geopolítico global, a trajetória fiscal brasileira e os fluxos internacionais de capital dominaram o painel “Outlook de Grandes Gestores”, último debate desta terça-feira no CEO Conference 2026, do BTG Pactual. A conversa reuniu André Jakurski (JGP), Luís Stuhlberger (Verde Asset) e Rogério Xavier (SPX Capital), com moderação de André Esteves, diante de um público formado por investidores, empresários e executivos. O evento continua nesta quarta-feira com mais um dia de discussões.
Logo na abertura, Esteves destacou que os mercados vêm sendo influenciados principalmente pelo ambiente externo.
“O que está driving os preços de mercado é o mercado externo, principalmente o americano”, afirmou, citando a realocação recente de portfólios globais como um dos movimentos mais relevantes dos últimos meses.
Essa leitura foi reforçada por André Jakurski, que atribuiu o bom desempenho recente de ativos brasileiros sobretudo ao cenário internacional.
“Nada do que aconteceu recentemente nos mercados tem muito a ver com o Brasil; é mais um movimento global de realocação de portfólios”, afirmou, destacando que mudanças na percepção de risco global têm pesado mais do que fatores domésticos na formação de preços.

Geopolítica e economia global
Na avaliação do chairman do BTG, mudanças estruturais e tensões geopolíticas devem continuar moldando decisões de investimento. Ele apontou riscos na Ásia, sobretudo envolvendo China e Taiwan, além de fragilidades na Europa ligadas ao custo energético, competitividade industrial e aumento dos gastos militares.
Sobre os Estados Unidos, Esteves mencionou preocupações fiscais e institucionais, afirmando que a incerteza tende a permanecer elevada no horizonte mais longo.
“A incerteza é muito grande, não em relação ao curto prazo, mas ao médio e longo prazo”, disse.
A leitura foi parcialmente compartilhada por Luís Stuhlberger, que destacou a crescente preocupação global com a dívida americana e seus efeitos sobre os fluxos de capital. Segundo ele, a diversificação de portfólios internacionais começou ainda após o conflito na Ucrânia e pode ganhar intensidade dependendo do cenário político nos EUA.
Brasil: fiscal ainda é ponto sensível
Ao trazer o debate para o Brasil, Esteves afirmou que o país hoje não enfrenta um quadro de crise aguda, citando desemprego baixo, inflação em desaceleração e reservas robustas. Ainda assim, ressaltou que a sustentabilidade fiscal segue como principal desafio.
“A economia parece não ter muito segredo. O que falta é dar sustentabilidade à dívida”, afirmou.
Rogério Xavier apresentou uma visão relativamente mais construtiva para o cenário global e seus reflexos nos mercados, argumentando que a combinação de crescimento nos EUA, inflação em queda e possível continuidade do corte de juros pelo Fed tende a sustentar desempenho positivo dos ativos.
Segundo ele, “o cenário na margem ainda é favorável ao risco”, embora existam incertezas relevantes.
Eleições e percepção de risco
A proximidade das eleições brasileiras também entrou no debate. Para os gestores, o tema permanece no radar, mas não tem sido o principal determinante dos preços no curto prazo.
Stuhlberger observou que investidores estrangeiros continuam atentos ao quadro fiscal brasileiro e à trajetória da dívida pública, destacando que o espaço para aumento de carga tributária é cada vez mais limitado.
Já Esteves ponderou que o país ainda possui condições favoráveis para crescimento se avançar em reformas e mantiver a estabilidade institucional.
“A batalha mais importante é a guerra do Brasil institucional contra o Brasil não institucional”, afirmou, acrescentando que esse desafio transcende divisões ideológicas e depende do fortalecimento das instituições.
Primeiro dia termina com cautela nos mercados
O painel encerrou o primeiro dia do CEO Conference 2026, marcado por discussões sobre política monetária global, inteligência artificial, cenário fiscal e perspectivas econômicas. O evento continua nesta quarta-feira (11) com novos painéis e debates sobre economia, política e investimentos.
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