Alta de quase 14% em fevereiro expõe impacto dos juros elevados e do calote do consumidor sobre o caixa das companhias
A inadimplência deixou de ser um problema restrito às famílias e passou a contaminar o ambiente corporativo. Em fevereiro de 2026, o número de empresas inadimplentes no Brasil cresceu 13,92%, segundo dados do SPC Brasil — um avanço que, no acumulado de 12 meses, chega a 12,65% e acende um alerta sobre a saúde financeira dos negócios.
O movimento reflete um típico efeito cascata: com consumidores mais endividados e juros elevados encarecendo o crédito, o fluxo de caixa das empresas passa a sofrer pressão direta. Na prática, o atraso de um lado da cadeia se transforma em inadimplência do outro.
“Um puxa o outro. Em um cenário econômico como o atual, as empresas precisam se ajustar, e isso pode levar ao aumento da inadimplência”, afirma João Paulo Travasso Cardoso, coordenador de pré e pós-vendas do SPC Brasil. “Como o consumidor também enfrenta dificuldades financeiras, a capacidade de pagamento das empresas acaba sendo impactada.”
O setor de Serviços lidera esse avanço, concentrando cerca de 39% das empresas inadimplentes. O segmento, mais sensível à renda das famílias, foi um dos mais afetados pela inflação recente — o que ajuda a explicar sua maior vulnerabilidade.
Diante desse cenário, cresce a necessidade de uma gestão mais rigorosa dos recebíveis. Com níveis recordes de inadimplência entre consumidores, acompanhar de perto a carteira de clientes deixou de ser uma prática operacional para se tornar uma estratégia de sobrevivência.
Outro sinal da deterioração do ambiente financeiro é a mudança no comportamento das empresas em relação às dívidas. A renegociação, que antes ocorria em estágios mais avançados de atraso, agora tem sido antecipada.
“Hoje o timing da renegociação mudou. As empresas estão buscando acordos mais cedo, porque os juros altos corroem a capacidade de pagamento com o passar do tempo”, diz Cardoso.
O avanço da inadimplência empresarial reforça, assim, um cenário de maior cautela no ambiente de negócios — em que preservar caixa e antecipar riscos se tornaram prioridades tão relevantes quanto crescer.
