Fenômeno das apostas online expõe incentivos estatais, efeitos econômicos distorcivos e impactos morais sobre jovens em busca de enriquecimento rápido
Em uma entrevista recente, Tarek Mansour, cofundador da Kalshi — uma empresa com um mercado em que os usuários apostam no resultado de eventos futuros — afirmou: “a visão de longo prazo [da empresa] é financeirizar tudo e transformar qualquer divergência de opinião em um ativo negociável”.
Atualmente, os usuários da Kalshi podem apostar em praticamente qualquer coisa — desde o resultado de um jogo universitário de futebol americano até se vai chover em Dallas na próxima semana ou quem Donald Trump irá perdoar durante sua presidência. Nessa última aposta, a opção mais provável é o próprio Donald Trump, com 42% das apostas prevendo um autoperdão. Seu filho, Don Jr., aparece logo atrás, em terceiro lugar, com 26%.
A Coverd é uma empresa que está “gamificando” a pesada dívida de cartão de crédito dos jovens e da classe média. O aplicativo da Coverd permite que os usuários conectem seus cartões de crédito, comprem créditos e, em seguida, usem esses créditos para participar de atividades de jogo online, como caça-níqueis e roleta. Os “vencedores” desses jogos têm determinadas compras no cartão de crédito pagas pela empresa. Em resumo, a Coverd atrai pessoas que já estão endividadas e têm propensão a jogar jogos de azar a aderirem a jogos de cassino online como uma suposta solução para essas dívidas.
A Cheddr é uma empresa de apostas esportivas online que se apresenta — sem o menor constrangimento — como o “TikTok das apostas esportivas”. Mirando claramente o público jovem adulto, a empresa pretende tornar o ato de apostar em esportes tão simples quanto deslizar o dedo pela tela de um smartphone.
Sem surpresa, o setor de capital de risco está oferecendo forte apoio financeiro e de marketing a essas empresas, com gigantes do Vale do Silício como a repugnante Andreessen Horowitz investindo diretamente tanto na Coverd quanto na Cheddr.
Separadamente das apostas, uma grande parte da indústria de mega-tecnologia parece depender fortemente de formas de fraude, obtendo uma parcela substancial de suas receitas a partir disso.
Um relatório da Reuters revelou recentemente que o Facebook (também conhecido como Meta Platforms) projetava, em documentos internos, que obteria 10% de sua receita — ou US$ 16 bilhões — com “a veiculação de anúncios para golpes e bens proibidos”.
Qualquer pessoa que tenha passado alguns minutos no YouTube, do Google, sabe que a maioria dos produtos anunciados nessa plataforma não apenas são golpes evidentes por si só, como o próprio conteúdo publicitário muitas vezes é produzido por meio de representações ilícitas geradas por IA — ou “deepfakes” — de celebridades. Versões artificiais de Andrew Huberman ou Joe Rogan promovendo algum esquema de saúde absurdo, por exemplo.A Tesla — uma empresa “zumbi” com valor de mercado superior a um trilhão de dólares — faturou bilhões ao vender um recurso que chama de “Full Self Driving”. Isso apesar de nunca ter produzido um veículo realmente capaz de direção totalmente autônoma — um termo com significado técnico consolidado na indústria automotiva e em sua esfera regulatória — ou sequer algo próximo disso.
A questão da raiz do problema
Uma posição inadequada diante das empresas e tecnologias mencionadas acima é defender que elas sejam proibidas ou fortemente reguladas. Embora careçam de capacidade produtiva, oportunistas em busca de renda como Tarek Mansour, Marc Andreessen, Elon Musk e Mark Zuckerberg estão, ainda assim, respondendo a uma demanda de mercado.
Uma abordagem mais adequada é perguntar por que a especulação e as apostas estão se expandindo tão rapidamente na economia americana atual. A resposta, naturalmente, começa com a deterioração da moeda nas mãos do banco central e sob a pressão da classe política.
O sistema democrático depende da oferta de promessas durante o período de campanha e da distribuição de benesses depois que a campanha termina. Quando os custos daquilo que o governo prometeu inevitavelmente ultrapassam sua capacidade de arrecadar impostos em montante equivalente, ele recorre a diversas formas de desvalorização da moeda. Em um contexto de moeda fiduciária, isso ocorre por meio de uma política monetária consistentemente inflacionária, que envolve a criação de dinheiro e a imposição de taxas de juros artificialmente baixas pelo banco central, combinadas com o endividamento excessivo do governo federal.
À medida que o governo passa a controlar uma parcela cada vez maior da oferta monetária dessa forma, dois fenômenos podem ser observados.
Primeiro, a geração de riqueza — denominada nessa moeda — torna-se uma função de servir ao governo, ou de se antecipar às suas políticas, em vez de fornecer bens ou serviços de valor para outras pessoas. Daí o surgimento da classe dos rentistas.
Em segundo lugar, a constante desvalorização da moeda e a inflação de preços que a acompanha provocam uma mudança de mentalidade entre seus usuários. A deterioração moral e cultural associada à alta preferência temporal surge — e acaba se tornando onipresente — entre a população em geral. Essa deterioração se manifesta de várias formas, mas, sobretudo, pela negligência com o planejamento cuidadoso de longo prazo e com a prudência, em favor de um consumo imediato, muitas vezes imprudente.
Os desdobramentos comportamentais dessa erosão persistente do poder de compra são hoje visíveis na obsessão generalizada por apostas em ações “meme” e criptomoedas de baixa qualidade, por exemplo, mas há muitos outros casos fora do universo das finanças pessoais. Altas taxas de ausência paterna, criminalidade e um declínio geral na civilidade são, em grande medida, consequência dessa mudança para uma alta preferência temporal.
Infelizmente, empresas como Coverd e Cheddr — e, aliás, Tesla, Facebook e Google — estão simplesmente respondendo a essa mudança nos valores culturais. Carne podre, afinal, atrai moscas.
________________________________________________
Por Artis Shepherd
Publicação original
