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A pedalada de Guedes

Muitos empresários e personagens importantes do mercado financeiro dizem que é melhor ter o ministro Paulo Guedes dentro do governo do que fora dele. A argumentação é simples: Guedes seria um guardião das contas públicas, uma espécie de antídoto contra o populismo que poderia alavancar lamentavelmente o déficit público.

Depois dessa semana, no entanto, esta premissa sofreu um forte abalo. Afinal, o ministro evocou uma explicação nada ortodoxa para justificar R$ 30 bilhões de gastos acima do teto, que serão empregados no Bolsa Família turbinado. Guedes afirmou que, para driblar a regra que limita os gastos públicos, precisará uma “licença para gastar”.

Essa “licença”, que seria uma antecipação da revisão do teto, já prevista para 2026, deverá ser outorgada pelo Congresso – ou melhor, pelo Centrão, a base de apoio governista. Diante disso, uma pergunta se faz necessária: existe alguma diferença entre essa pirueta contábil de Guedes e as pedaladas fiscais de Guido Mantega?

São dois artifícios contábeis engendrados para sustentar medidas alinhadas com o populismo. No caso específico do atual governo, com um interesse muito evidente – o de angariar votos na camada mais pobre de eleitores. Guedes, entretanto, negou que o programa social seja eleitoreiro e afirmou que a ideia era “ser um governo reformista e popular e não um governo populista”.

O reajuste previsto para os benefícios em 2021 é superior a 100 %. Em 2008, quando Lula decretou um aumento de 8 % para o Bolsa Família em um ano de eleições, também foi acusado de estar de olho no resultado das urnas. Ele, na ocasião, disse: “Essa não é uma ação eleitoreira. Na medida em que puder reajustar mais, vamos reajustar mais fortemente”.

Não é à toa que ainda ontem o ex-presidente defendeu que o Bolsa Família fosse majorado a R$ 600 mensais. “Estou vendo o [presidente Jair] Bolsonaro dizer agora que vai dar R$ 400 de auxílio. Tem gente dizendo que é auxílio eleitoral, que não podemos aceitar. Não penso assim. O PT defende um auxílio de R$ 600 desde o ano passado. O povo precisa. Ele tem que dar. Se vai tirar proveito disso, é problema dele”, afirmou Lula.

Estamos, assim, diante de um fato inédito: Lula e Bolsonaro concordam em uma determinada questão. Não é à toa que esse tópico esteja fortemente ancorado em práticas populistas.

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