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A guerra pode nos deixar ricos?

Instituto Mises
3 de maio de 2026
Como conflitos armados ampliam o poder do estado, destroem capital e desviam recursos produtivos

“A guerra é a saúde do estado”, disse o anarquista e ativista antiguerra Randolph Bourne em um manuscrito inacabado de 1918. Sua observação reflete um padrão histórico recorrente no qual governos expandem seu poder durante períodos de conflito, enquanto as sociedades arcam com os custos econômicos e humanos da guerra. 

A recente guerra entre Estados Unidos e Israel versus Irã voltou a chamar atenção para a relação entre conflito militar e desempenho econômico. Sobre esse tema, alguns analistas têm argumentado que o aumento dos gastos com defesa pode estimular o crescimento econômico, apesar da destruição causada pela guerra. Essas alegações levantam uma questão importante: a realocação de recursos para a produção militar pode de fato gerar prosperidade, ou essa visão ignora trade-offs econômicos relevantes? Para responder a essa pergunta, é necessário examinar os acontecimentos em torno do conflito no Oriente Médio, compreender o raciocínio por trás da falácia da janela quebrada de Frédéric Bastiat e aplicar esse conceito ao argumento de que a guerra e os gastos com defesa podem melhorar os resultados econômicos.

Primeiro, é importante fornecer algum contexto sobre a guerra entre os estados americano e israelense versus o estado iraniano. Como antecedentes, os recentes protestos contra o regime islâmico fundamentalista autoritário do Irã e as tensões históricas em torno do suposto programa nuclear do país oferecem um pano de fundo relevante. Com isso, a guerra começou em 28 de fevereiro de 2026, quando Israel e os Estados Unidos atingiram instalações nucleares no Irã em uma operação conjunta chamada Epic Fury.

Em resposta, ocorreram ataques de retaliação, à medida que o Irã lançou bombas contra países aliados dos Estados Unidos, como Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, o que foi responsável por cancelar inúmeros voos no Oriente Médio. Durante a operação, os objetivos de Israel e dos Estados Unidos foram ambíguos, com o presidente Donald Trump mudando constantemente de posição, ora defendendo negociações, ora desejando promover uma mudança de regime no Irã.

Atualmente, as negociações levaram a um cessar-fogo temporário de duas semanas em 7 de abril de 2026, com a situação, por ora, melhor do que no auge da guerra, tanto do ponto de vista humanitário quanto econômico. Embora as condições imediatas pareçam mais estáveis após o cessar-fogo, o resultado mais amplo da guerra entre os três estados permanece incerto economica e geopoliticamente.

Uma guerra dessa magnitude trouxe efeitos econômicos evidentes para a economia global. Isso ocorreu porque o Irã fechou o Estreito de Ormuz, uma passagem fundamental por onde transita quase 20% de todo o petróleo mundial. Como consequência, os preços do petróleo aumentaram — ultrapassando a marca de 100 dólares por barril poucos dias após o início do conflito —, rotas comerciais de commodities importantes, como fertilizantes e hélio, foram interrompidas, e houve atrasos nas cadeias de suprimentos, afetando a produção e a distribuição de bens e serviços.

Ninguém nega que esses efeitos de curto prazo da guerra, somados à sua destruição humanitária, são negativos para a economia. No entanto, alguns analistas afirmam que a guerra pode ser benéfica no longo prazo, um argumento apresentado em um artigo do The Wall Street Journal com o título “Is War Good for the Economy?” [A guerra é boa para a economia?, em tradução livre]. Os autores argumentam que os gastos militares realizados pelo governo, tanto em tempos de guerra quanto de paz, podem reorientar a economia, estimular a inovação e criar empregos — gerando um efeito positivo sobre o crescimento econômico. Mas essa visão pode ser justificada? Essa é uma pergunta que o economista francês do século XIX Frédéric Bastiat pode ajudar a responder.

Para avaliar a alegação de que guerras trazem prosperidade por meio do aumento dos gastos militares, é preciso primeiro compreender a falácia da janela quebrada apresentada no livro O que se vê e o que não se vê, originalmente publicado por Frédéric Bastiat em 1850. O economista começa contando a história de um padeiro que tem o vidro de sua padaria quebrado por um garoto delinquente. Ao ver isso, algumas pessoas dizem ao homem que essa destruição tem um lado positivo, pois consertar a janela seria bom para a economia, já que o vidraceiro obteria uma renda extra que poderia gastar em outros bens e serviços.

Essa visão está, no entanto, equivocada segundo Bastiat, pois deixa de considerar o cenário não visto, no qual o dinheiro do conserto poderia ser gasto em outros bens e serviços desejados pelo padeiro. Na realidade, houve uma perda econômica, porque várias transações deixaram de ocorrer — em outras palavras, antes do incidente, o padeiro tinha tanto o dinheiro do conserto quanto a janela intacta, enquanto agora ele terá apenas a janela consertada, sem o dinheiro adicional.

Bastiat e outros economistas liberais clássicos aplicam o argumento central da falácia — isto é, considerar o caminho alternativo em que o dinheiro teria sido gasto em outra coisa — para criticar diversos programas governamentais. Portanto, a alegação de que guerras geram prosperidade por meio dos gastos militares se torna duvidosa quando as perdas econômicas não vistas são cuidadosamente consideradas.

Agora que a falácia está esclarecida, vamos aplicá-la à análise da guerra atual. Nesse sentido, é bastante conveniente que a seção seguinte de O que se vê e o que não se vê se chame “The Disbanding of Troops” [A desmobilização das tropas, em tradução livre] e aplique a falácia da janela quebrada aos gastos militares. Frédéric Bastiat afirma, em primeiro lugar, que o dinheiro vem dos pagadores de impostos, que poderiam estar utilizando esses recursos em bens e serviços que realmente desejam.

Na guerra atual, a enorme quantidade de dinheiro gasta pelos Estados Unidos e por Israel poderia estar nas mãos dos pagadores de impostos de cada país, sendo direcionada para outros fins. Além disso, a infraestrutura civil destruída no Irã terá de ser reconstruída, o que resulta em uma perda de recursos de natureza semelhante — embora em escala muito maior — àquela sofrida pelo padeiro na história original.

Mesmo os países vencedores ainda perdem dinheiro e recursos, como mencionado anteriormente, já que os pagadores de impostos foram forçados a financiar uma guerra com a qual, em sua maioria, não concordavam com, em vez de usar esse dinheiro naquilo que realmente desejavam. Ao aplicar a falácia à guerra, torna-se claro que os gastos militares apenas redirecionam recursos, em vez de criar prosperidade.

Também é possível refutar os argumentos específicos apresentados no artigo “Is War Good for the Economy?” com base na falácia da janela quebrada. Embora os autores afirmem que os gastos militares durante a Guerra Fria geraram inovações posteriormente utilizadas por empreendedores, eles deixam de perceber que, em vez do estado, os próprios indivíduos poderiam ter investido esse dinheiro e também apoiado empreendedores do setor tecnológico.

Além disso, a alegação de que empregos podem ser criados por meio dos gastos com defesa também oculta seus efeitos prejudiciais sobre a economia, já que trabalhadores deixam de participar de atividades produtivas no setor privado, que refletem as demandas reais da sociedade, para se engajarem em atividades estatais improdutivas, como demonstrado por Frédéric Bastiat.

Ademais, a reorientação da economia por meio do dirigismo militar estatal não deve ser vista como algo positivo, pois ignora a ordem espontânea do mercado, na qual preços, lucros e prejuízos coordenam a alocação de recursos escassos de acordo com as preferências de milhões de indivíduos, e não com as prioridades de autoridades políticas.

Considerando todos esses equívocos, o artigo do Wall Street Journal pode ser entendido como um caso típico da falácia da janela quebrada de Bastiat. A guerra é, de fato, prejudicial para a economia tanto no curto quanto no longo prazo. Assim, os argumentos apresentados no artigo sobre guerra e economia deixam de levar em conta as perdas não visíveis que comprometem a verdadeira prosperidade.

A recente guerra entre Estados Unidos e Israel versus Irã ilustra como o conflito militar produz efeitos econômicos visíveis, como o aumento dos gastos com defesa, a alta nos preços do petróleo e a expansão da atividade em setores específicos, levando alguns comentaristas a argumentar que a guerra pode promover prosperidade no longo prazo. No entanto, a falácia da janela quebrada de Frédéric Bastiat demonstra que focar apenas nos efeitos visíveis dos gastos ignora as oportunidades não vistas que são perdidas quando recursos escassos são desviados para a destruição ou para reparar uma destruição que não teria ocorrido de outra forma. Assim como Bastiat explicou tanto no exemplo da janela quebrada quanto em “The Disbanding of Troops”, o gasto governamental financiado pelos pagadores de impostos não cria nova riqueza, já que os mesmos recursos poderiam ter sido utilizados em outros fins, de acordo com as preferências dos indivíduos que participam da ordem espontânea do mercado. Quando aplicado ao conflito atual, esse raciocínio mostra que os gastos militares, a reconstrução de infraestrutura destruída e o redirecionamento de mão de obra para a produção relacionada à guerra apenas substituem atividades produtivas que teriam contribuído para um padrão de vida mais elevado. Ao examinar a narrativa da guerra, a ideia por trás da falácia da janela quebrada e a aplicação desse raciocínio às alegações de que a guerra pode estimular o crescimento econômico, torna-se evidente que a aparente prosperidade em tempos de guerra reflete o mesmo erro econômico identificado por Bastiat: ignorar as perdas não vistas que impedem a criação de riqueza genuína, tanto no curto quanto no longo prazo.

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Por Marina Rocha

Publicação original

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