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A falácia do industrialismo: a riqueza não pode ser criada por decreto

Instituto Mises
20 de abril de 2026
Décadas de intervencionismo criaram setores frágeis, distorceram preços e travaram o avanço ao ignorar poupança e instituições sólidas

A crença de que a industrialização é condição necessária para a prosperidade é uma das mais difundidas – e mais equivocadas – do debate econômico.

Essa crença decorre de uma confusão fundamental de causalidade. Ao observar que muitos países desenvolvidos possuem forte presença industrial, conclui-se que a industrialização é a origem da riqueza, quando, na realidade, ela emerge como consequência do próprio processo de desenvolvimento e acumulação de capital.

Se a industrialização fosse condição necessária para a prosperidade, países como Austrália, Suíça, Irlanda, Singapura, Chile ou Luxemburgo seriam pobres. No entanto, todos figuram entre as economias mais prósperas do mundo, com altos níveis de renda e desenvolvimento humano, apesar de suas economias serem fortemente baseadas em serviços, recursos naturais ou atividades financeiras.

Esses exemplos deixam claro que a prosperidade não está na industrialização em si, mas na qualidade das instituições, na liberdade econômica e na capacidade de alocar recursos disponíveis de forma eficiente.

Políticas públicas industrialistas incorrem em um erro duplo: partem de um diagnóstico equivocado, ao tratar a industrialização como condição necessária para o desenvolvimento, e apresentam soluções que, na prática, reduzem a produtividade e comprometem o próprio potencial de crescimento do país.

O Brasil, por exemplo, insistiu por décadas em políticas industriais, ao desviar recursos de setores nos quais já possuía vantagens comparativas naturais, como a agropecuária, a produção de commodities e o turismo, para tentar construir uma base industrial artificial.

Há mais de um século, o governo brasileiro implementa políticas públicas voltadas à industrialização. Essa orientação atravessou diferentes períodos históricos: desde Vargas, com a substituição de importações e a criação de estatais; em JK, com o Plano de Metas e o “50 anos em 5”; durante o regime militar, com a expansão dos projetos desenvolvimentistas; os anos 80, marcados pelos fracassados planos Cruzado, Bresser, Verão, controle de preços, intervencionismo e protecionismo; os anos 90, com a criação de dezenas de autarquias e agências reguladoras; e, nos governos petistas, com a Nova Matriz Econômica e a política dos “campeões nacionais”, que expandiram massivamente a atuação do BNDES, além da continuidade de políticas protecionistas como a tributação sobre mais de mil equipamentos importados em 2026.

E qual foi o resultado de décadas de políticas industriais? Corrupção, captura do estado por grupos de interesse, subsídios ineficientes, reservas de mercado e uma perda generalizada de produtividade.

Na tentativa de industrializar o país, criou-se uma verdadeira indústria de privilégios, enquanto a própria população e demais setores ficaram impedidos de acessar produtos baratos e de melhor qualidade produzidos no exterior.

Este artigo se propõe a explicar dois pontos: 1. um país não precisa se industrializar para ser próspero; 2. a industrialização não pode ser eficientemente conduzida por políticas de governo.

A industrialização não é um requisito para a prosperidade

A prosperidade econômica não decorre de produzir bens específicos, mas da eficiência na alocação de recursos. A ideia de que a industrialização é necessária para o desenvolvimento reflete uma visão materialista de soma zero da economia que ignora o papel do empreendedorismo e do conhecimento disperso na coordenação econômica.

Segundo a lei de associação de Ricardo, indivíduos, empresas e países tendem a se especializar nas atividades em que possuem maior eficiência relativa, direcionando recursos para onde são mais produtivos, considerados os fatores de produção envolvidos. Esse processo, coordenado pelo sistema de preços, lucros e prejuízos, é o que possibilita o uso eficiente do capital (em seu sentido amplo) e do trabalho. Cabe aos empreendedores a função de identificar as oportunidades e direcionar a alocação de recursos.

Diferenças culturais, históricas, institucionais, geográficas e climáticas que envolvem cada território naturalmente fazem com que cada região desenvolva determinadas atividades de forma mais eficiente. Algumas sociedades se destacam em indústrias de manufatura, tecnologia, têxtil ou medicinal, outras na mineração e extração de matéria-prima, enquanto outras se orientam para a agropecuária, serviços, turismo, entretenimento ou esportes.

Países menores em extensão territorial costumam compreender melhor essa dinâmica e tendem a se integrar mais intensamente ao comércio internacional. Com mercados internos limitados, tornam-se mais orientados à especialização e à exploração de suas vantagens comparativas. Não por coincidência, muitos desses países figuram entre os mais bem posicionados nos rankings de liberdade econômica e apresentam (consequentemente) elevados padrões de renda per capita e qualidade de vida.

A experiência de países como Singapura, Suíça, Irlanda, Nova Zelândia, Luxemburgo, Uruguai, Liechtenstein, Chipre, Malta e de diversos paraísos fiscais são exemplos de como a prosperidade não depende de uma base industrial extensa, mas da capacidade de se integrar ao mercado global, atrair capital e explorar suas vantagens comparativas.

A Austrália, por exemplo, possui um dos maiores níveis de renda per capita do mundo e um dos mais altos índices de desenvolvimento humano, com uma economia majoritariamente baseada em serviços, enquanto cerca de 80% de suas exportações são compostas por commodities, como minerais e produtos agrícolas.

Longe de ser um obstáculo, essa especialização foi precisamente o que permitiu ao país acumular capital, elevar sua produtividade e sustentar um alto padrão de vida.

O caso australiano também desmonta a narrativa de que o subdesenvolvimento brasileiro seria explicado por seu passado colonial. A Austrália não apenas foi uma colônia baseada na exploração de recursos naturais, como era o destino de criminosos exilados pela Coroa britânica – e ainda assim tornou-se uma das economias mais prósperas do mundo.

A diferença entre países prósperos e pobres não está no tipo de bens que produzem, mas na qualidade das suas instituições e na eficiência com que alocam seus recursos disponíveis.

A industrialização via políticas públicas: incentivos perversos e distorções na alocação de capital

Ao implementar políticas protecionistas e de subsídios, o que o governo faz é aumentar o tamanho de setores ineficientes, às custas de setores eficientes, que se desenvolveram sem a necessidade de barreiras artificiais ou subsídios estatais.

Afinal, todo subsídio ou política pública é financiado através de impostos diretos ou indiretos – como a inflação e a dívida pública.

O custo de oportunidade dessas políticas é que haverá menos recursos disponíveis para os setores que melhor atendem às demandas dos consumidores (que pagam pelos subsídios aos setores beneficiados), limitando sua capacidade de investir, expandir, inovar e aumentar sua produtividade.

Esses recursos agora são direcionados para setores que não se desenvolveram em condições de mercado.

Fomos obrigados a pagar por produtos mais caros todos esses anos, mas, ao menos, construímos uma indústria nacional competitiva, certo?

Não apenas as famílias e os setores não beneficiados por subsídios e políticas protecionistas se tornaram menos produtivos e competitivos, como as próprias indústrias protegidas tendem a estagnar.

Dentro da estrutura de incentivos no meio político, explicada pela public choice theory, os setores mais beneficiados por subsídios são justamente aqueles com maior capacidade de fazer lobby e se introduzir na política. Em vez de competir por eficiência, empresas passam a competir por acesso a privilégios.

Surge, assim, uma dinâmica de captura do estado. Grandes empresas criam áreas inteiras de relações governamentais, passando a priorizar o lobby político em detrimento da própria produtividade, advogando por tarifas protecionistas, crédito subsidiado, decisões regulatórias favoráveis, barreiras à entrada de concorrentes e contratos públicos. 

O custo recai sobre toda a sociedade, privada do acesso a produtos baratos e de melhor qualidade, produzidos com maior eficiência no exterior, reduzindo o poder de compra das famílias e elevando os custos de produção das próprias empresas nacionais.

Uma renda que permitiria consumir determinada quantidade de bens e poupar se torna insuficiente até para manter o mesmo padrão de consumo, comprimindo a poupança.

Essa poupança, condição para o investimento em bens de capital, novos modelos de negócio, pesquisa ou mesmo em atividades consideradas “supérfluas”, como o turismo, entretenimento ou artigos de luxo, que por sua vez geram novas oportunidades de negócios e de emprego, agora não existe.

Os setores para os quais havia uma demanda real tornam-se menos competitivos diante do aumento do custo do maquinário e do crédito, dificultando os investimentos de longo prazo, uma vez que o crédito subsidiado suga o crédito disponível para o restante da economia.

Esse padrão de fracasso não é um acidente, mas um resultado previsível. Ele se repetiu em diversas regiões do mundo. Além do Brasil, países como Argentina, México, Venezuela, Egito, Nigéria, África do Sul, Portugal, Turquia, Indonésia e Índia adotaram as mesmas políticas desenvolvimentistas e, em maior ou menor grau, obtiveram resultados semelhantes: indústrias dependentes e pouco competitivas a nível internacional, desperdício sistemático de recursos e uma população empobrecida.

O caso da Coréia

O crescimento da Coreia do Sul é frequentemente citado por economistas keynesianos como um exemplo de sucesso de políticas industriais desenvolvimentistas.

Convenientemente, costuma-se ignorar (além de todo o custo de oportunidade de tais políticas) fatores como as elevadas taxas de poupança da população, um ponto central para o crescimento econômico, que deixa os keynesianos mais afeitos ao consumo um tanto quanto inquietos.

Embora o país tenha adotado tarifas sobre produtos finais por alguns anos, manteve baixos custos de importação para insumos, máquinas e tecnologia, permitindo que as empresas coreanas operassem com acesso a bens de capital modernos e cadeias produtivas eficientes.

A estratégia coreana foi fortemente orientada à exportação, o que impôs disciplina às empresas locais, que eram cortadas dos programas se não atendessem os critérios de desempenho.

Ainda nos anos 1980, o país iniciou um processo de liberalização econômica, reduzindo barreiras comerciais e ampliando sua integração com a economia global, quando o país apresentou as maiores taxas de crescimento.

Somando-se a isso uma forte cultura de valorização do estudo e do trabalho, o crescimento coreano é melhor compreendido como resultado de incentivos bem alinhados, elevados níveis de poupança e acumulação de capital.

Não cabe ao estado escolher quais setores devem prosperar. Países não enriquecem por decreto, enriquecem quando a sociedade é livre para coordenar de forma espontânea suas atividades.

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Por Arthur Falcão

Publicação original

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