Conferência mostra como a falta de formação econômica fragiliza agendas conservadoras e amplia o custo social de políticas guiadas apenas por impulsos políticos, do PIB ao desemprego em massa
Quero começar dizendo algumas palavras sobre o movimento Ron Paul antes de entrar no movimento atual. Há muitas coisas que poderíamos dizer sobre esse movimento e sobre as campanhas presidenciais de Ron Paul, das quais praticamente todos vocês eram jovens demais para ter participado. Mas posso garantir: foi algo realmente extraordinário de se presenciar de perto, ao vivo. Uma característica marcante daquele movimento era o forte foco em economia.
O Dr. Paul tinha muito a dizer sobre uma grande variedade de temas, com política externa entre os principais. Mas ele também tinha economistas favoritos. Tinha livros de que gostava, que havia lido e que recomendava que outras pessoas lessem, e elas liam. Lembro-me claramente de estar aqui no Mises Institute quando o site saiu do ar depois que foi anunciado que havia um certo número de exemplares restantes de Ação Humana a determinado preço. Esse é o tipo de mundo em que eu quero viver. O site caiu porque tanta gente quis comprar um livro de 900 páginas. E era um livro que provavelmente não teriam lido se Ron Paul não os tivesse incentivado a lê-lo.
Isso não significa que todos no movimento criado por Ron Paul fossem aficionados por livros. O ponto é que esses livros contêm ideias capazes de mudar o mundo da forma como gostaríamos de ver. Mas isso não acontece se não os lemos. Portanto, leitura e aprendizado, mas também o ativismo, a transmissão dessas ideias de maneira acessível a outras pessoas, tudo isso coexistia lado a lado no movimento impulsionado por Ron Paul.
A direita atual e a economia
Agora vamos avançar até o movimento MAGA. Ele não é tão orientado pela economia, embora haja questões econômicas em discussão (como tarifas e outros temas desse tipo). Mas não ouvimos falar de economistas favoritos, de livros que deveríamos ler. Algumas pessoas dirão que isso é algo positivo. “Já nos cansamos de vocês, nerds, desses sabichões por aí. Agora precisamos de homens da ação”. Mas, se os homens da ação não sabem que ação tomar porque não leram Ação Humana, isso é um problema. Simplesmente fazer coisas não é suficiente. Esse, aliás, é o problema com o qual nos deparamos o tempo todo: os governos acham que, desde que estejam fazendo alguma coisa, isso já é bom, que é melhor do que nada. Mas, muitas vezes, quando fazem alguma coisa, não é melhor do que nada. Nada teria sido melhor. Não fazer nada teria sido melhor do que aquilo.
Nos últimos anos, comecei a observar um número crescente de influenciadores da direita política desprezando a economia enquanto disciplina: dizem que a economia é uma pseudociência, que foi inventada para racionalizar a ganância, ou que é um campo pelo qual apenas pessoas superficiais se interessam, porque “você não entende que temos questões existenciais muito mais importantes em jogo hoje nos Estados Unidos, envolvendo cultura, nacionalidade, uma epidemia de desesperança entre os jovens, e assim por diante?” Eles acusam os economistas de pensarem apenas em saber se um único número, o PIB, sobe ou desce. Você vê isso às vezes nas redes sociais com memes dizendo “a linha do gráfico sobe” (line go up), porque é isso que acham que os economistas pensam porque, infelizmente, não leem economistas.
Estamos todos muito acostumados a lidar com críticas de esquerda à economia de mercado. Sinceramente, eu até preferiria voltar a isso, porque é muito mais fácil. Já sei responder às críticas da esquerda com bastante facilidade. É um tipo de argumento com o qual tenho prática há muitos anos. Sei quais são os argumentos deles. Estamos bastante familiarizados com isso. Mas essa crítica que vem da direita tradicionalista é um pouco diferente. Ela vê o livre mercado como um produto do racionalismo iluminista malvado, que reduz os homens a meros átomos desprovidos de identidades sociais e os enxerga como preocupados apenas em adquirir bens materiais. Já tratei da versão católica dessa crítica no meu livro A Igreja e o Mercado. (Já que o professor Joe Salerno está falando da idade das pessoas, digo apenas que a edição de décimo aniversário do livro está comemorando seu próprio décimo aniversário este ano. É algo meio triste, bom por um lado e triste por outro).
Podemos chamar essas pessoas de tradicionalistas. Elas têm um tipo de crítica diferente daquela que, por exemplo, alguém como Alexandria Ocasio-Cortez faria. Dizem coisas como: “O que vocês economistas chamam de leis econômicas não passam de fantasmas. Devemos nos sentir livres para ignorar esses construtos artificiais, porque, se desejamos determinado resultado social, nenhuma suposta lei econômica deve ficar no nosso caminho.” Mais uma vez, enfatizam que há mais na vida do que um PIB mais alto.
Problemas do PIB
Para começar, fico muito satisfeito em tranquilizá-los quanto à nossa suposta obsessão com o PIB. Na verdade, aqueles de nós que estamos nesta sala talvez sejamos justamente os que mais têm a dizer sobre as limitações do PIB até mesmo como medida de saúde econômica. Se o que você quer é uma soma do valor de todos os bens finais produzidos na economia ao longo do ano, então esse número pode até ser útil. Mas, se você está buscando um retrato geral da economia, ele é enganoso por pelo menos duas razões principais.
Primeiro, ele inclui tanto os gastos do governo quanto os gastos privados. As transações privadas, por serem voluntárias, presumivelmente beneficiam ambas as partes, caso contrário, nem teriam ocorrido. Já as transações governamentais, como são financiadas por transferências coercitivas de riqueza, não permitem saber se, e em que medida, as pessoas realmente valorizam os bens em questão. O dinheiro para financiá-los simplesmente foi retirado delas. Não acho que esteja sozinho, por exemplo, ao considerar que obtenho um benefício negativo dos gastos militares que são financiados por transferências de riqueza coercitivas feitas às minhas custas.
Segundo, ao se concentrar apenas nos bens finais e insistir que incluir bens intermediários seria uma dupla contagem, o PIB deixa de fora uma parcela significativa da atividade econômica e contribui para a falsa impressão de que o consumo é o motor da economia. Já deveríamos saber que o consumo não pode ser o motor da economia, porque consumir, no sentido de simplesmente usar e esgotar coisas, é fácil. Qualquer pessoa consegue fazer isso. Apenas usar coisas não pode, de forma alguma, sustentar a economia. Mas o PIB olha apenas para coisas como carros e celulares, os produtos que compramos, e ignora todas as etapas e materiais necessários para produzi-los. Ao ignorar tudo isso, perde-se uma parte central do que mantém a economia funcionando. As empresas gastam quantias enormes com itens como matérias-primas, processos de fabricação e cadeias de suprimento. Esses gastos chegam a quase o dobro do que as pessoas gastam como consumidoras. Tudo isso fica obscurecido pelo PIB.
Eficiência econômica
A crítica tradicionalista aos economistas é que, supostamente, subordinamos tudo à eficiência econômica. Tudo o que nos importa seria a eficiência econômica. Então os tradicionalistas, triunfantes, apontam que há mais na vida do que eficiência econômica. Xeque-mate, economistas.
Eu poderia mencionar que Murray Rothbard escreveu um ensaio com o título “O Mito da Eficiência” (1979), e poderíamos ter uma longa discussão sobre isso. Mas prefiro dizer, antes de tudo, que não me parece evidente porque, quaisquer que sejam os seus objetivos, você não preferiria alcançá-los de forma eficiente em vez de ineficiente. Isso me lembra as pessoas que torcem o nariz para empresas porque elas operam com base no lucro. Você preferiria que operassem com prejuízo? Eu sinceramente nem entendo qual é a crítica. Mais importante ainda, Rothbard excluiu explicitamente a eficiência como critério para a tomada de decisões políticas. Ele escreveu: “Apenas princípios éticos podem servir como critérios para nossas decisões. A eficiência jamais pode servir de base para a ética; ao contrário, a ética deve ser o guia e o critério para qualquer consideração sobre eficiência. A ética é o elemento primário”. No campo do direito e das políticas públicas, a consideração ética fundamental é um conceito que mal ousa dizer seu nome: o conceito de justiça.
Se você quiser ver uma escola de pensamento que de fato prioriza a eficiência abstrata em detrimento da justiça e dos direitos de propriedade, basta olhar para o caso clássico da Escola de Chicago na análise econômica do direito, descrito de forma célebre por Ronald Coase — o caso do trem que solta faíscas e incendeia a plantação de um agricultor. (Isso foi antes da introdução do motor a diesel). Alguém terá de arcar com o custo desse dano — ou o agricultor ou a ferrovia. Será um ou outro. Com base no princípio da responsabilidade objetiva, o agricultor tem direito à propriedade em questão, portanto tem o direito de usufruir dela sem interferência. A ferrovia deveria compensá-lo pelo prejuízo ou instalar algum tipo de dispositivo para conter as faíscas. É assim que os economistas da Escola Austríaca, em geral, tratam esse tipo de situação. Já a Escola de Chicago decide esse caso com base na eficiência econômica pura: o juiz deveria decidir de modo a maximizar a riqueza total. Então, tudo bem, tradicionalistas, vocês têm um ponto, mas vão cobrar isso dessas pessoas. Não somos nós os responsáveis por isso. Não pensamos dessa forma.
O indivíduo maximizador
Dizem ainda que os economistas acreditam que todos buscam apenas maximizar sua renda monetária. Que bando de idiotas seriam esses economistas, não é mesmo? Será que eles não sabem que as pessoas são motivadas por outras coisas? O que eu diria é o seguinte: sempre que você formula um argumento contra alguém e ele soa tão simplista assim, provavelmente você não o está representando corretamente. Na verdade, não há praticamente ninguém — talvez nem mesmo o Senhor Burns dos Simpsons — que pense dessa maneira. Tenho certeza de que há outras coisas que lhe dão mais prazer do que simplesmente acumular riqueza monetária. Portanto, não precisamos ser lembrados desses fatos óbvios da natureza humana. É claro que as pessoas têm motivações além de maximizar sua renda monetária. A economia austríaca se ocupa da ação humana como tal, e não apenas de ações voltadas estritamente para maximizar renda monetária. A “renda” que dizemos que os indivíduos buscam maximizar é a renda psíquica, que consiste no conjunto de fatores cuja relação conjunta forma a percepção de bem-estar de cada pessoa. Como colocou Ludwig von Mises: “A economia lida com as ações reais de homens reais. Seus teoremas não se referem nem a homens ideais nem a homens perfeitos, nem ao fantasma de um fabuloso ‘homo economicus’ (…) nem à noção estatística de um homem médio”.
Atomismo
Outra acusação recorrente é a de que os economistas enxergam os seres humanos como átomos isolados e intercambiáveis, sem vínculos entre si além daqueles do chamado nexo monetário. Mas, em Nações por Consentimento (1994), o próprio Murray Rothbard rejeitou a ideia de que os indivíduos estariam “ligados uns aos outros apenas pelo vínculo das trocas de mercado”. Rothbard acrescenta: “Todos necessariamente nascem em uma família, uma língua e uma cultura. Cada pessoa nasce em uma ou várias comunidades sobrepostas, geralmente incluindo um grupo étnico, com valores, culturas, crenças religiosas e tradições específicas”. São justamente esses elementos que se costuma dizer que os economistas ignoram.
Basta lembrar que Ludwig von Mises levava a sério preocupações com a migração em massa, algo que, segundo críticos, seria negligenciado por libertários “atomistas”.
Como escreveu em Liberalismo, de 1927, por exemplo:
Se a Austrália fosse aberta à imigração, é altamente provável que sua população, em poucos anos, passasse a ser composta por japoneses, chineses e malaios. (…) Toda a nação, no entanto, é unânime em temer uma inundação de estrangeiros. Os atuais habitantes dessas terras favorecidas [ele se refere aos Estados Unidos e à Austrália] temem que, um dia, possam ser reduzidos a uma minoria em seu próprio país e que então tenham de sofrer todos os horrores da perseguição nacional a que, por exemplo, os alemães hoje estão expostos na Tchecoslováquia, na Itália e na Polônia”. Mises continua: “Enquanto forem concedidos vastos poderes ao estado que a opinião pública considera legítimos, a ideia de ter de viver em um estado cujo governo esteja nas mãos de membros de uma nacionalidade estrangeira é, sem dúvida, aterradora.
O desemprego
Em vez de ficarmos obcecados com o PIB, dizem, deveríamos nos preocupar com o bem-estar material das famílias, com o abuso de drogas e álcool, com a harmonia familiar, com uma vida social saudável, com famílias permanecendo unidas, e assim por diante. Evidentemente, nenhuma disciplina isolada pode resolver todos esses problemas, mas a economia pode contribuir para melhorar cada um deles. O desemprego de longo prazo, por exemplo, pode causar ou agravar todos os problemas que acabei de mencionar. Acontece que os economistas dispõem de todo um conjunto de ferramentas. Eles têm muito a dizer sobre como minimizar o desemprego, inclusive sua forma mais debilitante, o desemprego prolongado.
Por exemplo, no Journal of Applied Psychology, Francis McKee Ryan e seus coautores analisaram 104 estudos empíricos e constataram que os desempregados apresentam níveis mais baixos de bem-estar físico e mental em comparação com os empregados. David Relfs e colaboradores estimaram, na revista Social Science and Medicine, que o desemprego aumenta o risco de mortalidade em 63%. Pesquisas adicionais sobre os efeitos colaterais do desemprego indicam que a perda do emprego dobra o risco de infarto do miocárdio, ataque cardíaco e derrame entre trabalhadores mais velhos.
Observa-se um aumento de 50% a 100% na mortalidade no ano seguinte à perda do emprego, com um risco elevado de mortalidade de 10% a 15% persistindo por até 20 anos. Trabalhadores que perderam o emprego têm menor probabilidade de participar de grupos religiosos, organizações comunitárias ou encontros sociais informais. O desemprego de longo prazo eleva o risco de abuso de álcool e drogas, sendo que pessoas desempregadas têm entre 1,3 e 2,0 vezes mais probabilidade de desenvolver transtornos relacionados ao uso de substâncias.
Estudos mostram níveis significativamente mais altos de conflito com cônjuges e filhos entre homens desempregados. Dados dos Estados Unidos indicam que o desemprego crônico está associado a uma incidência 15% a 20% maior de abuso de opioides em comparação com indivíduos empregados. Nos Estados Unidos, demissões podem aumentar a probabilidade de divórcio em até 20%. Um estudo semelhante constatou que, na Suécia, essa probabilidade aumenta entre 13% e 18%, enquanto, na Austrália, cônjuges têm de 10% a 15% mais chance de se separar no prazo de dois anos. Naturalmente, observamos um aumento significativo de todos esses problemas durante as perdas de emprego provocadas pelo fiasco das políticas da era da covid.
Política monetária
Se quisermos minimizar recessões e depressões, e, por consequência, o desemprego que surge na esteira delas e traz consigo todos esses problemas adicionais que mencionei, talvez ajude aprender um pouco de economia monetária, especialmente aquela que conferiu a F. A. Hayek o Prêmio Nobel em 1974. Você pode dizer: “Ah, mas há ganhadores do Nobel em economia que dizem muitas coisas absurdas”. Isso é verdade, mas, em geral, eles dizem coisas que o comitê do Nobel quer ouvir. Hayek não estava dizendo algo que eles queriam ouvir. É isso que torna o prêmio dele significativo. Hayek demonstrou que as quedas generalizadas da economia — ao contrário de recuos específicos de determinados setores provocados por eventos noticiados — têm uma causa monetária. Se quisermos evitar perturbações na vida familiar, nas coisas com que os tradicionalistas se preocupam, e as diversas disfunções que acompanham o desemprego, precisamos concentrar nossa atenção no banco central, no caso americano, o Federal Reserve.
Imagino que as pessoas aqui já estejam familiarizadas com o que chamamos de teoria austríaca dos ciclos econômicos. Já escrevi e falei bastante sobre isso, e vocês vão estudar o tema com mais profundidade ao longo desta semana. Para os propósitos desta introdução, basta dizer que as taxas de juros são reais e significativas, não algo artificial ou arbitrário. Acreditar que podemos reduzi-las artificialmente por meio da expansão do crédito para gerar prosperidade sem esforço é um erro grave, o tipo de erro que eu esperaria ouvir da esquerda. Reduzir as taxas de juros por meio da expansão do crédito, que na situação atual ocorre por meio do Fed, gera uma expansão econômica que se reverte por si mesma. Os investimentos distorcidos que surgem da confusão causada por taxas de juros arbitrárias acabam, mais cedo ou mais tarde, tendo de ser liquidados. Portanto, se não quisermos passar por ciclos de expansão e contração, um sobe e desce que apenas imita a prosperidade real, precisamos permitir que o conjunto natural de preços, incluindo a taxa de juros, prevaleça, para que a prosperidade possa continuar sem ser interrompida por essa sequência de investimentos distorcidos e liquidações.
Algumas pessoas do movimento MAGA têm ao menos uma compreensão básica dos problemas do Fed. Mas outras acham que o problema é que o presidente do Fed, Jerome Powell, não deseja reduzir as taxas de juros. O argumento delas é que, como a inflação de preços agora está mais ou menos sob controle, o Fed poderia reduzir os juros para estimular a atividade econômica. Mas, como sabemos, a questão não é quem ocupa a presidência do Fed. O que deveríamos buscar é desfazer as distorções econômicas introduzidas pelas ações passadas do Fed. A única forma de fazer isso não é dar ordens ao presidente do Fed, como os presidentes frequentemente fazem, mas simplesmente interromper a expansão monetária por um tempo, após o qual as taxas de juros de mercado tenderão a se ajustar a um nível sustentável.
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Por Thomas Woods
Publicação original
