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O desafio de manter a dignidade na dor

O desafio de manter a dignidade na dor

Estou acompanhando uma série de ficção científica chamada “Away” na Netflix. O enredo mostra o cotidiano de uma nave espacial que viaja para Marte, comandada por uma mulher que deixa o marido e a filha adolescente na Terra. Logo no início do seriado, o esposo sofre uma espécie de acidente vascular e tem uma de suas pernas completamente paralisada. Para piorar, ele só consegue movimentar os outros membros com muita dificuldade e uma boa dose de dor.

Como toda a pessoa que enfrenta uma reabilitação motora, este personagem tenta tocar a sua vida de uma forma normal, tomando riscos desnecessários e tentando provar aos outros que não precisam da ajuda de ninguém. A interpretação do ator Josh Charles (foto) mostra na medida alguém que tenta manter sua dignidade apesar das dificuldades e da dor física que acompanha seu processo de recuperação.

O drama vivido pelo personagem – o convívio com dores crônicas – pode parecer algo fora da curva, mas não é. Segundo um estudo da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor em conjunto com a Universidade Federal de Santa Catarina, cerca de 37% da população brasileira, ou quase 80 milhões de pessoas, afirmam sentir algum tipo de algia permanente.

Convivi com esse tipo de problema duas vezes em minha vida.

Quando era adolescente, minha mãe se mostrou portadora de uma doença autoimune – artrite reumatoide. Trata-se de uma enfermidade muito comum entre mulheres que sofreram algum tipo de perda emocional. No caso dela, havia se separado do meu pai alguns anos antes e estava reconstruindo sua vida profissional e afetiva. Foi neste momento de recuperação que a doença apareceu e impôs dores em todas as suas juntas. Qualquer movimento brusco era origem de um foco de dor e isso mexeu fortemente com sua autoestima.

Mesmo passando por estas dificuldades, ela tentou manter sua dignidade até o final da vida. Os reflexos da doença levaram-na muito cedo, aos 58 anos de idade, mas a lembrança mais forte que tenho dela é o seu porte altivo e sua capacidade de se alegrar com as coisas boas, apesar dos constantes suplícios que sentia nos ossos.

Quis o destino que, alguns anos atrás, minha carreira de maratonista amador viesse cobrar o preço de longas corridas. Comecei a sentir uma dor frequente no quadril e, após uma rodada de exames, descobri que minha cartilagem no local tinha sido consumida pelo impacto contínuo da atividade física.

Passei a conviver sistematicamente com dores que me tiravam do sério. E, no meio deste processo, passei a me lembrar de minha mãe várias vezes ao dia. Num determinado momento, a agonia foi ficando insuportável e tive que fazer uma operação para remover a cabeça do fêmur e colocar uma prótese no lugar.

Em minha ingenuidade, achei que estaria me livrando rapidamente do padecimento. Na verdade, outro tipo de sofrimento estava começando – o pós-operatório. A fisioterapia, nestes casos, é muito pesada e somente assim é que se consegue recuperar os movimentos sem sequelas.

Exatamente neste 24 de setembro, dois anos atrás, larguei a bengala que usava para me ajudar na locomoção – fui lembrado disso pela manhã pelo Facebook – e passei ainda alguns meses mancando fortemente. Depois, capengava de uma maneira discreta e, agora, ando sem praticamente claudicar.

Ao todo, foram doze meses de recuperação, no qual vários músculos tiveram de reaprender suas funções básicas – algo que gera dores e desconforto. Mas quer saber o que mais doía? A impotência de não poder acelerar o processo.

Este desenvolvimento na base do step-by-step me ajudou muito a valorizar pequenas coisas da vida, mas principalmente me mostrou como é difícil manter o brio quando o tormento está sempre presente no cotidiano. Depois de tudo isso, passei a admirar ainda mais minha mãe e cultuar todas as pessoas que lidam com dores crônicas em seu dia a dia. Já vivi alguns desafios hercúleos na vida – mas nada se compara a enfrentar o sofrimento físico diário e não se deixar abater. Quando pensamos no grande número de pessoas que enfrenta diariamente esse tipo de dificuldade, é sinal de que estamos cercados de heróis anônimos, que enfrentam dignamente uma batalha diária. A esses paladinos silenciosos vai a minha homenagem no dia de hoje.

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