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CEO improvável: Mario Vargas Llosa

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi uma frase com a qual me identifiquei politicamente. No início dos anos 1980, eu era um telespectador assíduo do programa Canal Livre, da TV Bandeirantes. Vi uma chamada que me interessou: o entrevistado da semana seria o escritor peruano Mario Vargas Llosa. Tinha lido dois livros dele (“Pantaleão e As Visitadoras” e “Tia Júlia e o Escrivinhador”) e resolvi sintonizar na Band.

Lá pelas tantas, instado a definir-se politicamente, Llosa disse que não gosta muito dos rótulos de esquerda ou direita e que se considerava “um pragmático”. E o que seria isso? Uma pessoa, segundo ele, que entenderia as necessidades da sociedade como um todo e que buscaria soluções para melhorar a vida de todos, dos operários aos empresários. “E como isso é possível?”, perguntou alguém. “Ou você defende os direitos dos operários ou dos empresários”.

Vargas Llosa sorriu e respondeu que não é preciso estar necessariamente de um lado só. E afirmou que um país precisa produzir riquezas. “Quem faz isso é o empresário. Por que não ajudar o empresariado a produzi-las? Com isso, eles ganham dinheiro e podem pagar melhores salários e mais impostos. Todos ganham”, ponderou. Houve um certo silêncio no estúdio, pois defender o empresariado naquele momento era algo totalmente fora de contexto. O âncora, então, mudou de assunto e não houve debate.

Aquilo me marcou profundamente. E este pragmatismo me acompanhou durante a vida profissional e me ajudou a moldar a agenda liberal que passei a defender há alguns anos. De uns tempos para cá, descubri que Mario Vargas Llosa passou a ser um ícone da direita latino-americana e alvo de críticas por parte da esquerda no continente. Por conta desta guinada ideológica, afastou-se de muitos amigos, como por exemplo, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, autor do clássico “Cem Anos de Solidão”.

Sobre Garcia Márquez, numa entrevista recente, disse o seguinte: “Acredito que García Márquez descobriu e percebeu que era melhor para um escritor estar com Cuba do que estar contra Cuba. Livrava-se da surra que recebemos todos os que adotamos uma postura crítica. Estando do lado de Cuba podia fazer o que quisesse, jamais seria atacado pelo inimigo verdadeiramente perigoso para um escritor, que não é a direita, mas a esquerda. A esquerda é que tem o grande controle da vida cultural em todo lugar e, de certa forma, antagonizar-se com Cuba, criticá-la, significava arranjar um inimigo muito poderoso e passar a ter de se explicar a todo o momento, provando que não era agente da CIA, reacionário, ou pró-imperialista. Minha impressão é que, de certa forma, a amizade com Cuba, com Fidel Castro, o vacinou contra todas essas contrariedades”.

Vargas Llosa levou seu pragmatismo a extremos. Foi candidato à presidência do Peru e derrotado no segundo turno por Alberto Fujimori. Continuou sua carreira literária e publicou vinte livros, além de inúmeros ensaios e roteiros de peças de teatro. Sua produção literária se traduziu em títulos de doutor “honoris causa” em instituições respeitadas e distantes ideologicamente uma da outra como Harvard e Sorbonne. E foi coroada por um prêmio Nobel em 2010.

Por sua defesa do liberalismo, visão pragmática e sucesso inquestionável como escritor, Mario Vargas Llosa inaugura a nossa série “CEO Improvável”, na qual mostraremos pessoas fora do mundo corporativo se comportaram como presidentes de empresas, seja como estrategista ou como executores.

Como um liberal podia ser amigo de Gabriel Garcia Márquez, um notório apoiador do regime cubano? A amizade durou de 1967 até 1976, quando Vargas Llosa deu um soco em “Gabo” durante uma sessão privada de cinema na cidade do México. Como se pode ver, a amizade entre pessoas de esquerda e de direita tem tudo para terminar mal. E não é de hoje.

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