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Você só ouve artistas ou lê escritores que têm a mesma ideologia que a sua?

Aluizio Falcão Filho
21 de fevereiro de 2023

Outro dia, testemunhei uma interação curiosa em um grupo de WhatsApp. Uma pessoa postou um texto de Simone de Beauvoir (imagem) sobre as angústias do passado e do futuro. Outro participante, então, criticou a escritora por seu histórico marxista. Entrei na discussão e escrevi o seguinte: “Se não separarmos a pessoa de determinados pensadores e músicos de suas obras, teremos sérias dificuldades em escolher o que ler e o que ouvir”.  Como resposta, obtive um post que segundo o qual artistas e escritores tinham de ser escolhidos de acordo com os “princípios” de cada um.

Este episódio ocorreu há algumas semanas. Mas fiquei remoendo essa questão: devemos ou não filtrar nossa escolha de artistas a partir de um viés ideológico?

Vamos dizer que uma pessoa alinhada com a direita queira apenas escutar músicas de cantores e compositores que apoiaram, digamos, Jair Bolsonaro. Sua dieta musical seria restrita a Ultraje a Rigor e sertanejos diversos.

Artistas são indivíduos difíceis de compreender ou de definir. Vamos pegar como exemplo o líder da banda Legião Urbana, Renato Russo. Ele, em uma entrevista à TV, se declarou capitalista — ainda nos anos 1980, quando isso beirava a heresia. “Propriedade é algo que estou querendo aumentar ao máximo porque quero muitas propriedades, porque sou um capitalista nato”, disse.

Isso faz dele necessariamente alguém ligado à direita? Não. Veja o que ele viria a dizer, anos mais tarde dessa fala sobre ser “capitalista”. “As pessoas que prezam família e respeito à tradição são geralmente pessoas que não respeitam a liberdade das outras pessoas. […] Não quero que eu, tendo uma boa família, ouça um evangélico me dizer que tomo atitudes erradas. Ou ter, como tivemos recentemente, um governo de direita que não respeita a liberdade das pessoas, que prende as pessoas… tudo o que sabemos que aconteceu no Brasil nesse período dos anos 1970”, afirmou.

A letra da canção “Que País é Esse?” também sugere uma ideologia de esquerda, especialmente os versos: “Mas o Brasil vai ficar rico/ Vamos faturar um milhão/ Quando vendermos todas as almas/ Dos nossos índios num leilão” (palavras, por sinal, que ganham uma atualidade monstruosa por conta do noticiário envolvendo a tribo ianomâni).

Cazuza é outro que deixou uma obra de críticas sociais, mas evitou se assumir esquerdista em entrevistas – até porque vinha de uma família rica, cujo pai era alto executivo do ramo de gravadoras. A música “Burguesia”, porém, deixa bem claro como ele pensava (“Vamos pôr a burguesia na cadeia/ Numa fazenda de trabalhos forçados”), assim como “Brasil”, que virou trilha de abertura da novela “Vale Tudo”, tratando sobre a decadência moral e política do país (“Não me ofereceram/ Nem um cigarro/ Fiquei na porta/ Estacionando os carros/ Não me elegeram/ Chefe de nada/ O meu cartão de crédito/ É uma navalha”).

Vamos dizer que Russo e Cazuza tivessem, em seu íntimo, sido comunistas incorrigíveis. Isso tiraria o brilho de seus legados? “Eduardo e Mônica”, “Faroeste Caboclo”, “Tempo Perdido”, “Ainda é Cedo”, “Pais e Filhos” e “Índios” são obras-primas. O mesmo vale para “Exagerado”, “Codinome Beija-Flor”, “Faz Parte do Meu Show”, “Preciso Dizer que Te Amo”, “Bilhetinho Azul” e “Bete Balanço”.

No mundo da literatura, temos um caso que igualmente chama atenção, de uma autora que foi filiada ao Partido Socialista Americano (SPA) e teve uma vida ligada aos movimentos sociais e inclusão de minorias. Sobre essa pessoa, Mark Twain disse que ela e Napoleão seriam as únicas personalidades do século 19 que valeriam a pena ser estudadas. Estamos falando de Hellen Keller, que ficou surda e cega aos dezoito meses de idade. A sua vida é contada no filme “O Milagre de Anne Sullivan”, que rendeu Oscar a Anne Bancroft (Anne Sullivan) e a Patty Duke (Hellen Keller). A trama, baseada no livro “A História de Minha Vida”, mostra como Sullivan conseguiu fazer Keller se comunicar com os outros sem ouvir ou enxergar.

Esse exemplo de superação rendeu doze livros e uma carreira de palestrante que durou décadas. Um de seus livros é sobre sua jornada espiritual: “Das Trevas para a Luz”. Sobre sua devoção religiosa, ela disse: “Eu sempre soube que Deus estava lá, mas não sabia seu nome”.

Vamos um pouco além no espectro ideológico e encontrar um comunista que fez carreira com traços firmes e sinuosos: Oscar Niemeyer. Como ele era um discípulo do comunismo, sua obra arquitetônica, que tem nos palácios de Brasília suas joias da Coroa, poderia ser menosprezada? E o que dizer do edifício Copan, da igreja da Pampulha, do Memorial da América Latina? E do Congresso Nacional, do Museu de Arte Contemporânea de Niterói e o conjunto de prédios na Marquise do Parque Ibirapuera? São trabalhos espetaculares e reconhecidos mundialmente.

No fundo, músicos, escritores, pintores e até arquitetos não valem o que valem por conta de suas convicções políticas – e sim pela sensibilidade e capacidade de traduzir os sentimentos, as frustrações e as alegrias das pessoas, colocando beleza e cor em um mundo que geralmente está pintado em preto e branco. Como se faz isso? Combinando sentimentos complexos e antagônicos como rebeldia e ternura, amor e raiva, esperança e desalento. São pessoas que conseguem ler a própria alma e, com isso, ajudam a humanidade a decifrar suas emoções, boas ou más.

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