O TikTok e o Instagram divulgaram à exaustão nesta semana um vídeo no qual alguns rapazes fazem uma expedição dentro de um prédio localizado na Freguesia do Ó, na avenida Otaviano Alves de Lima, número 4.400, margeando o rio Tietê. Quem trabalhou na Editora Abril e viu essas cenas deve ter ficado triste e com o coração apertado. Trabalhei durante dez anos neste pequeno edifício de sete andares (mais aquilo que hoje se chama de “rooftop”, onde ficava o restaurante da diretoria). Primeiramente, no sétimo andar. Depois, no anexo chamado BB2 superior, em cima da gráfica. Fui transferido, então, para o quarto andar e, em seguida, para o terceiro. E, por fim, fui despachado a outro anexo, chamado BA, também localizado acima dos equipamentos gráficos. Conheço aquele prédio de trás para frente e fiquei chocado com as imagens de abandono e destruição de um local que abrigou as publicações mais importantes do país.
A construção pertence à família Marabraz, que o arrematou em 2021. Mas a Abril ainda existe é a maior editora brasileira, publicando Veja, que é a revista de maior circulação do país. Enquanto o antigo prédio definha, a empresa cresce em um mundo sem papel. Segundo o Mídia Kit oficial divulgado pela Editora Abril, a audiência de Veja é de aproximadamente 12 milhões de usuários únicos por mês e 34 milhões de page views/mês em seu site e plataformas digitais. Além disso, seu alcance mensal nas redes sociais soma cerca de 9,4 milhões, com 20 milhões de seguidores em todas as plataformas e 2,6 milhões de visualizações mensais em vídeos. A editora acaba de lançar um canal de televisão (Veja+ TV) que figurou em setembro como um dos três mas vistos na LG Channels do Brasil. Outras revistas importantes também fazem parte do portfólio da companhia, como Veja Negócios (lançada recentemente), Cláudia, Quatro Rodas e Superinteressante, entre outras.
O sucesso da Abril, portanto, contrasta com o abandono de sua antiga sede, que está neste estado por conta dos donos atuais.
Em minha primeira encarnação como jornalista da Abril, trabalhei no sétimo andar, onde ficava a redação da revista Veja. O padrão estético daquele andar se repetia nos demais andares: mesas de metal para o baixo clero, com divisórias claras (as chamadas baias) de aglomerado ou de fórmica.
A única exceção era o sexto piso, onde ficavam os diretores. As poltronas de espera eram do modelo Barcelona, do designer alemão Ludwig Mies Van de Roe, de cor preta. O modelo que se transformou em ícone da escola Bauhaus casava muito bem com o estilo daquele andar, de paredes de madeira e salas austeras, cuja decoração remetia ao final dos anos 1960.
Voltando ao sétimo andar: foi lá que vi em ação dois gênios do jornalismo, Elio Gaspari e José Roberto Guzzo. E lá que presenciei uma cena inusitada. Cheguei bem cedo na redação, em um horário em que não havia ninguém, a não ser a Maria do Socorro, que era secretária do Guzzo e atendia pelo apelido de Help. Lá pelas 13h30, entrou pelo corredor um sujeito grisalho, baixinho e acima do peso. Reconheci a figura de longe: era o ministro das comunicações, Antonio Carlos Magalhães, que aparecera para uma conversa com a cúpula da revista. Só que o encontro havia sido marcado para meia hora depois – e, àquela altura, nem Elio nem Guzzo tinham chegado.
ACM, então, pediu para fazer um telefonema (não havia celular naquela época). Help, então, disse que ele poderia fazer a chamada da sala do diretor de redação. Ele, então, não se fez de rogado: sentou na cadeira de Guzzo e começou a discar. A minha mesa tinha uma visão privilegiada da cena. Tanto é que, quando Guzzo queria me chamar (o que era raro, devo reconhecer), ele apenas levantava o braço para chamar a minha atenção. Perto das duas horas, Guzzo e Elio chegaram juntos e foram abraçar o ministro.
Só que, depois da confraternização, ACM voltou para a cadeira de Guzzo e lá ficou, com os jornalistas da casa sentados nas poltronas destinadas aos visitantes. Um recado nada sutil de Antonio Carlos para mostrar que ele era a pessoa mais importante da sala.
Um dos andares mostrados no vídeo é bem parecido com o da antiga redação de Veja. É uma tristeza ver móveis e equipamentos destruídos – especialmente quando é um lugar que eu conheci em seu auge.
Quando passei pela EXAME, trabalhei no BB2 Superior e no quarto andar. Em minha última fase na Abril, fui diretor da operação de internet da editora, chamada de Brasil Online, que ficou alojada primeiro no terceiro andar e depois no BA. Todo o dia, para chegar ao trabalho, passávamos pelo saguão do prédio, que hoje está em petição de miséria (a propriedade foi vendida em 2021, mas algum empecilho burocrático impede a tomada de posse dos novos donos – e, por isso, o espaço está à mercê de vândalos e invasores).
Neste saguão, ficava uma rotativa alemã, chamada Webdorfner, na qual foi impressa a primeira edição da revista Pato Donald (os cilindros ainda tinham as imagens originais do gibi). Em frente à geringonça, havia uma placa com o texto do fundador Victor Civita exaltando a importância daquele maquinário na história da Abril. E ele terminava chamando a rotativa por seu apelido. “Essa é a nossa Web. Querida”. Como estávamos começando uma operação de internet, que rodava na world wide web (daí vem o início do endereço digital dos sites, www), resolvemos usar o texto de “seu” Victor na página de abertura do BOL.
Essa não era a única atração daquele hall. Atrás do balcão de recepção ficavam as seguintes palavras: “A Abril está empenhada em contribuir para a difusão de informação, cultura e entretenimento, para o progresso da educação, a melhoria da qualidade de vida, o desenvolvimento da livre iniciativa e o fortalecimento das instituições democráticas do país.”
Perdi a conta de quantas vezes li esse texto enquanto esperava o elevador para me levar aos andares onde trabalhei. E percebo hoje o quanto tenho arraigado em minhas convicções o credo que movia a família Civita. Em um curto parágrafo, todos os visitantes e funcionários da empresa viam o quanto era importante defender a informação, a educação, a qualidade de vida, a livre iniciativa e a democracia. Esses valores, de alguma forma, ficaram impregnados em minha personalidade.
O prédio que abrigava esse texto conciso está em frangalhos. Mas as letras que o compõem ainda estão, firmes, pregadas na parede do saguão. Isso mostra que até os vândalos — apesar de tudo — respeitaram essa mensagem, que é uma profissão de fé no futuro da humanidade.
Uma resposta
Sabe fazendo uma analogia entre prefeito e o nosso governador no meu entendimento muito pouco tem se feito pela cidade !! SP está abandonada como um todo sem asfalto …. Segurança etc ! Segundo ele ( Governador ) a polícia é muito eficiente… mas predem” policiais “ e soltam ( custódia ) mas estive m Goiana esta semana …. Super segura a capital !!!!! Limpa e segura enquanto aqui SP esta péssima a cidade !!! Me questiono quanto ao governador pois quanto ao prefeito já tinha ciência que é PÉSSIMO !!! Acho que o governador e prefeito em cima do muro querendo agradar esquerda e direita nos deixando a mercê !!!