Raramente temos controle sobre nossa vida e nosso destino. Mas diariamente vivemos uma ilusão: a de que temos pleno controle sobre nosso corpo. Mas por que isso seria um engano? É que o corpo humano tem uma agenda própria. Quantas pessoas sofrem de doenças silenciosas sem que um único sinal seja dado por nossas terminações nervosas? O glaucoma (pressão alta no interior do glóbulo ocular) é uma delas. O que dizer da hipertensão? Muitas vezes, o indivíduo só fica sabendo de sua existência depois que sofreu um AVC. E a esteatose hepática (gordura no fígado)? Muitos só descobrem que sofrem desta patologia quando há sequelas graves.
Mas, pelo menos o cérebro está totalmente sob nosso comando. Será? Quantas vezes o nosso subconsciente está mandando em nosso comportamento e não percebemos? E aqueles pesadelos que nos incomodam e não conseguimos desligá-los? E quando queremos dormir e somos acometidos de uma insônia incontornável?
Pois é. Somos uma espécie de inquilino deste corpo. E, como somos mortais, esse contrato de aluguel tem prazo de validade. Alguns de nós conseguem fazer algumas reformas neste imóvel ou realizar manutenções preventivas. Mas a maioria da humanidade vê as paredes deteriorarem, as janelas ficarem embaçadas e as fundações perderem a força.
Cada inquilino tem um contrato próprio. Às vezes, nenhuma reforma é feita, mas a duração expira em torno dos cem anos de idade. Em outros casos, o locatário faz renovações frequentes – mas acaba desligando a chave geral da propriedade mais cedo do que deveria.
Somos reféns da imprevisibilidade. Quando temos um biotipo genético favorável, tudo é maravilhoso. Mas isso depende de combinações aleatórias de genes que são definidas quando nossas vidas ainda nem começaram.
A consciência dessa fragilidade é desconfortável. Por outro lado, abre espaço para uma relação mais honesta com o próprio corpo. Quando percebemos que nem sempre somos os condutores absolutos dessa máquina complexa, passamos a valorizar mais cada período de estabilidade e de bem-estar. Essa percepção nos faz lembrar que convivemos com limites que fazem parte da condição humana.
Reconhecer essa dinâmica também nos convida a cultivar hábitos que favoreçam a longevidade desse imóvel que habitamos. Não há garantia de que reformas, cuidados e prevenções prolonguem o contrato, mas essas manutenções aumentam as chances de vivermos com mais conforto dentro das paredes que nos foram dadas. Entre a imprevisibilidade e o desejo de permanência, seguimos ocupando esse espaço provisório com a esperança de que ele nos ofereça uma existência com dignidade pelo maior tempo possível.