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Para quem relativiza as piadas preconceituosas

Vejo um post nas redes sociais que esbraveja contra o politicamente correto. Para o autor dessa mensagem, piadas com gays são consideradas homofobia, mas chistes com héteros são vistos como normais. O mesmo raciocínio é utilizado para avaliar a diferença de julgamento entre gozações em cima de negros (racismo) e brancos ou de mulheres (machismo) e homens.

Eu pergunto: quantas piadas você conhece em cima do comportamento de heterossexuais? Ou de brancos? Ou de homens? Uma? Duas? Se fizermos um esforço tremendo, chegaremos a três. Agora, vamos relembrar: e anedotas cujo personagem central é gay, negro ou mulher? O número será enorme, gigantesco, quase incontável.

Vamos admitir, antes de mais nada, que o mundo sob a égide do comportamento politicamente correto é chato e requer uma vigilância permanente. Ao refrearmos permanentemente nossas palavras e nossas atitudes, perdemos a espontaneidade e acabamos vivendo em um universo pasteurizado e um tanto artificial.

Faço parte de uma geração que testemunhou a mudança contínua na conduta da sociedade. Cresci ouvindo piadas preconceituosas. No programa humorístico “Os Trapalhões”, por exemplo, o personagem “Mussum”, o único negro da turma, era caracterizado como um alcóolatra preguiçoso. Como isso seria visto nos dias de hoje? Sem dúvida, haveria um cancelamento generalizado do grupo liderado por Renato Aragão. Ver esse tipo de estereótipo na TV ou ouvir pilhérias infelizes ao longo da infância e da adolescência não me transformaram em uma pessoa preconceituosa – mas outros podem ter processado de forma subconsciente essas experiências para turbinar um preconceito latente.

Outro problema em disseminar esse tipo de gracejo que atinge os outros está na falta de empatia. Se alguém ouve a piada e faz parte de alguma minoria vai ser atingido pelo preconceito de alguma forma. No entanto, se fizer parte de uma maioria imune às gozações, o efeito negativo passa batido.

Quem se acostumou com esses modos ao longo de décadas passadas, tem dificuldade em assimilar os novos tempos. Reagem de duas formas. A primeira é achar tudo isso um tremendo mimimi. A outra é acreditar que a maioria silenciosa também é politicamente incorreta – e que o respeito aos grupos atacados é algo fabricado por uma elite que não tem coisa mais importante a fazer da vida. Isso até pode ser verdade. Mas a nova geração é politicamente correta até o último fio de cabelo e prega a inclusão de qualquer minoria.

Essa mensagem foi captada pelas empresas, que começam a se preocupar em atrair talentos ligados a grupos minoritários. Quando somamos este movimento à mentalidade que hoje domina os mais jovens, chegamos à conclusão de que os preconceitos serão cada vez mais combatidos – por mais chata que nossa vida possa parecer.

Em minha adolescência, tive a minha primeira experiência com o preconceito. Na escola em que estudava, havia um rapaz que claramente era gay, de comportamento afeminado. O menino era xingado e alvo de fofocas. Aquilo que incomodava, pois via que a maldade dos comentários era fruto de puro preconceito. Não falava mal do menino, mas também não me manifestava contra as fofocas. Ficava em um silêncio anônimo e covarde.

Isso não quer dizer que eu era totalmente imune ao preconceito. Recordo, por exemplo, a ocasião na qual fiz um comentário maldoso em relação a determinado homossexual famoso na época. Levei uma invertida de uma colega, a Deborah Evelyn, que hoje é atriz famosa de TV e de teatro. Aquela bronca foi importante para que eu me colocasse no lugar de quem era afetado pelas piadas preconceituosas e questionasse o meu comportamento.

Hoje, tenho mais maturidade para encarar essa questão – mas isso não quer dizer que esteja completamente despido de todos os preconceitos aos quais fui exposto ao longo da minha formação como ser humano. Mas, se prego constantemente a tolerância e a empatia através das palavras, preciso exercer essas características em meu cotidiano e entender como uma piada maldosa pode ferir outra pessoa.

Mas, como fica o humor neste novo mundo? Quase toda piada no Brasil é feita em cima de estereótipos e preconceitos. Um clássico do anedotário local, por exemplo, é o português (mas os portugueses, diga-se, também têm chistes em que brasileiros são personagens). Para nós, os oriundos de Portugal são burros – mas o fato é que, como os alemães, eles formam um povo que interpreta tudo de forma literal e tem dificuldade em lidar com a linguagem figurada ou o uso de metáforas.

A dúvida, no entanto, persiste. Como nos livrar das piadas preconceituosas e abraçar um tipo de humor que seja à prova de queixumes? O falecido Paulo Gustavo fazia isso com maestria e sensibilidade, brincando com os clichês de forma leve e divertida. Com seu desaparecimento, precisamos torcer para que outro comediante talentoso ocupe o seu lugar e nos ajude a dar risadas com maior tolerância e empatia. Enquanto isso não acontece, ficaremos mais previsíveis, chatos e aborrecidos. Mas politicamente corretos.

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