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O ódio à imprensa, cada vez maior

Não se pode dizer que é um fenômeno novo. Nos últimos anos da ditadura militar, em manifestações populares, havia sempre uma multidão que gritava: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Esse refrão era cantado assim que se viam os indefectíveis veículos prateados da emissora e logo tomava conta da galera. Outro exemplo do passado? Na campanha de Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo, um grupo de motoqueiros, que desejava voltar a circular no Parque Ibirapuera e apoiava a candidatura do ex-presidente, gostava de hostilizar os repórteres da Folha de S. Paulo que compareciam às entrevistas coletivas. “Quem daqui é da Folha de Moscou?”, indagavam os motoqueiros mal-encarados aos jornalistas. Quase sempre, diante dos brutamontes, os repórteres do jornal escondiam suas credenciais.

Há poucos dias, foi possível enxergar que esse comportamento violento sofreu uma evolução. Se antes havia algo mais voltado para a provocação e a picuinha, a coisa está descambando para a agressão pura e simples. Em Itamajaru, no interior da Bahia, uma equipe de jornalistas da Globo foi ameaçada e agredida. Num primeiro momento, um segurança do presidente Jair Bolsonaro, ameaçou os repórteres de forma generalizada, achando que os profissionais tinham batido seus microfones em suas costas. Depois, um manifestante partiu para a pancadaria e desferiu socos (imagem) em direção à reportagem da TV.

É possível perceber a raiva estampada nos olhos deste agressor. É o caso de se perguntar: de onde vem tanto ódio? Este senhor não conhece o repórter. Não sabe qual é sua personalidade, sua fé, suas crenças políticas, sua relação com a família, seus problemas – enfim, todo o sentimento negativo não era dirigido à pessoa física que estava em frente a ele e sim à pessoa jurídica da Globo ou à categoria dos jornalistas.

Que tipo de pessoa se deixa levar tão fortemente pelas emoções? A política vale tudo isso? Fala-se por aí que o cenário eleitoral virou um Fla-Flu desde 2018. Não é uma metáfora tola. De fato, as semelhanças com o futebol vão além da simples rivalidade entre torcidas organizadas. Os extremistas agem como os torcedores fanáticos, que nutrem raiva por um determinado jogador apenas porque ele veste uma camisa diferente da sua. Ou por quem tem outro time de coração.

Agredir alguém apenas porque exerce uma profissão da qual não se gosta ou trabalha em um órgão de imprensa que não agrada ao seu grupo de amigos é um ato de selvageria incompreensível.

O ano que vem está chegando e, com ele, virá o período eleitoral mais conturbado desde a redemocratização. Haverá outras agressões a repórteres no meio do processo, que deverão ser coibidas e punidas. Caso contrário, cada evento político poderá se transformar em uma verdadeira tragédia.

Do lado do PT, há um revolta igualmente definida contra a Globo e um determinado grupo de jornalistas. A grande diferença é que, até agora, os militantes petistas não partiram para a agressão física como o senhor de Itamajaru. Mas as intenções de Luiz Inácio Lula da Silva, que já se manifestou favorável a exercer controle sobre a imprensa (que ninguém ainda não entendeu como funcionará), podem ser piores que um tapa na cara.

Casos como o do interior baiano guardam semelhanças com um atentado sofrido pelo jornalista Antonio Maria no início dos anos 1960. Ele foi atacado por brutamontes contratados por um sujeito que não havia gostado da coluna publicada no dia anterior. O chefe dos capangas orientou seus ajudantes a ferir as mãos do jornalista. Findo o serviço, disse: “Assim, ele não escreverá mais”. Em sua coluna, na manhã seguinte, o texto de Maria começava com uma frase que ficou célebre: “Que bobos! Eles pensam que o jornalista escreve com as mãos”.

Caso o controle de imprensa proposto pelo PT seja implementado, a frase de Antonio Maria perderá seu sentido mais visceral. E criará uma imprensa cordata e domesticada, que apenas baterá palmas para o governo e aos amigos do Rei.

É isso que queremos?

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