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O mundo dos chatos

Aluizio Falcão Filho
5 de abril de 2026

Um dos maiores sucessos recentes no mundo do streaming é a minissérie “Love Story – John F. Kennedy Jr and Carolyn Bessette”, que retrata o namoro e o casamento do casal mais famoso dos Estados Unidos nos anos 1990. Quando terminei de assistir o seriado, percebi que tinha sentido um certo incômodo durante os nove episódios. Depois de pensar um pouco, entendi qual era a origem do desconforto: todos os personagens são chatos. Ou melhor, muito chatos.

JFK Jr., vivido pelo canadense Paul Anthony Kelly, era um sujeito perseguido pelos paparazzi e pressionado por suas limitações intelectuais, inversamente proporcionais às expectativas que toda a sociedade americana punha em cima dele. Esse conflito, aliado ao fato de que tinha sua vida devassada diariamente pela imprensa, fazia dele alguém defensivo e fechado.

Já Carolyn Bessette era uma chata circunstancial: uma pessoa interessante e cheia de nuances que se transformou em uma jovem reclusa e obcecada com o assédio. A atriz Sarah Pidgeon faz um bom trabalho e se esforça para não deixar sua personagem muito lamuriosa e implicante. Mas é inevitável: os diálogos estão sempre no modo “DR” e são arrastados ao extremo.

É impressionante, no entanto, a caracterização do casal. Ambos ficaram muito parecidos com os personagens reais, a ponto de parecer que estamos vendo um documentário. Mas, para mim, parece esquisito que um chamasse o outro pelo seu nome de batismo, sem nenhum diminutivo ou apelido carinhoso.

Mas a chatice não fica apenas no casal principal. A irmã de John, Caroline, é controlada demais, o mesmo valendo para seu marido. O sócio de JFK na revista George é insuportável. Jackie Kennedy Onassis aparece como alguém controladora e esnobe. Ethel Kennedy é presunçosa e autoritária ao extremo. Mesmo pessoas leves, como o casal Calvin e Kelly Klein, são retratados como figuras superficiais e limítrofes do ponto de vista intelectual.

Mas ninguém de compara, em termos de martírio, à caracterização feita para a atriz Darryl Hannah, que faz uma namorada de John. A própria Hannah e amigos antigos de JFK vieram a público para reclamar do tratamento dado à personagem. Ela, que foi uma das mulheres mais bonitas de Hollywood nos anos 1980 e 1990, aparece como alguém de beleza mediana e absolutamente insuportável.

Há duas exceções: a mãe de Bessette, Ann Marie, que se mostra uma pessoa amarga, mas coerente, e Lauren, sua irmã, que aparece pouco. Ann Marie foi a única que não se deslumbrou com a possibilidade de a filha fazer parte da família Kennedy e mostrou grande dignidade após a morte das filhas.

Diante desse desfile de personalidades tensas, controladoras, lamuriosas ou simplesmente cansativas, a minissérie acaba funcionando como um catálogo involuntário daquilo que torna a convivência humana tão exaustiva. É curioso perceber como a produção se esforça para recriar ambientes, figurinos e diálogos com precisão quase documental, mas não consegue oferecer um único personagem que alivie o peso constante da autocomiseração e da autopiedade.

Talvez seja esse o maior mérito da obra: lembrar que a chatice, quando bem distribuída, é capaz de unir até os espectadores mais dispersos em um raro consenso. Afinal, diante de tanta gente difícil, o público descobre que existe um mundo inteiro dedicado à arte de complicar o simples. E, como sempre, os chatos seguem firmes em sua missão de provar que, mesmo na ficção, conseguem tornar qualquer história um pouco mais longa do que precisava ser.

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