Com alguns anos de atraso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente entendeu a importância do mundo digital, o grande responsável pela vitória que o levará a um quarto mandato à frente do governo. Um rumor que corre solto em Brasília dá como certa a criação de um ministério para trabalhar a comunicação do governo nas redes sociais, e com um detalhe: o titular da pasta seria o deputado federal André Janones, justamente aquele que comandou o chamado “Exército do Lula”, um grupo de WhatsApp que passou dos dez milhões de integrantes. Esse ministério, por sinal, teria total independência em relação à Secom, hoje comandada por Sidônio Palmeira.
Janones sinalizou que prefere ficar na Câmara dos Deputados. E talvez esse seja o melhor caminho. À frente da comunicação digital da campanha petista, Janones lançou mão de artifícios questionáveis e antes apenas relacionados à direita, como exageros flagrantes e mentiras deslavadas em relação ao candidato Flávio Bolsonaro. Não seria exatamente um bom ponto de partida para alguém comandar a comunicação do governo, mesmo que restrita ao mundo digital.
Se a dinâmica que se viu na campanha de Lula for aplicada ao dia a dia do próximo mandato petista, os confrontos das mídias sociais, gerados pela polarização política, devem crescer ou até escalar caso a distorção da realidade seja a tônica do novo ministério.
Mas o governo tem diante de si outro desafio na seara da mídia digital. O presidente começou a usar um celular para se comunicar diretamente com a população apenas recentemente. Lula já prometeu que iria utilizar esse canal para falar diretamente com os brasileiros, seus eleitores ou não.
Mas o mandatário precisa entender que o celular não serve apenas para que ele diga o que pensa aos eleitores. Lula deveria utilizar o aparelho para entender o que a sociedade está comunicando às autoridades. Além disso, precisa evitar que o algoritmo o coloque dentro de uma bolha. Caso isso ocorra, de nada vai adiantar possuir um celular.
Há ainda um problema institucional. Na campanha, os exageros de Janones eram responsabilidade de um coordenador digital. Num ministério, cada postagem passaria a ser um ato oficial do governo, sujeito à fiscalização do Tribunal de Contas da União, a questionamentos na Justiça e a convocações no Congresso. Com uma oposição que terá maioria no Senado a partir de 2027, o novo ministro seria um alvo permanente de requerimentos, pedidos de explicação e, possivelmente, de comissões de inquérito. Lula correria o risco de ver seu governo atolado em polêmicas criadas pelo próprio auxiliar, gastando energia política para defender um ministro em vez de aprovar projetos.
A escolha também cria uma contradição difícil de explicar. O governo petista defende com insistência a regulação das plataformas digitais e o combate à desinformação, bandeira que ganhou força na narrativa de defesa da democracia. Entregar a comunicação digital a alguém conhecido justamente por distorcer fatos daria à oposição um argumento pronto: o governo que quer punir as fake news alheias teria um ministério dedicado a produzir as suas. Além disso, o estilo combativo de Janones pode afastar aliados do Centrão e de partidos moderados, cujos votos serão indispensáveis num Congresso mais conservador. E dificilmente a convivência com a Secom seria pacífica, o que abriria uma frente de fogo amigo dentro do Planalto.
Lula ganhou a eleição com a ajuda de um exército digital, mas governar exige outra estratégia. Campanha é feita de confronto, mas um governo depende de construção de pontes. Se o presidente quiser mesmo aproveitar o mundo digital, o melhor caminho é usar o celular para ouvir a sociedade, inclusive quem não votou nele, e deixar a comunicação oficial nas mãos de quem tenha credibilidade para falar em nome do Estado. Janones talvez seja mais útil ao presidente na Câmara, onde suas batalhas nas redes continuarão sendo dele e não do governo.