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O day after da implosão do PSL, de acordo com o filme “O Poderoso Chefão”

O day after da implosão do PSL, de acordo com o filme “O Poderoso Chefão”

Às vezes, o cinema produz obras-primas que ensinam muito. A trilogia iniciada com o filme “O Poderoso Chefão”, de 1972, é um exemplo clássico disso. Muitas frases ditas ao logo das três películas são verdadeiras lições de política e podem ser aplicadas para entender o que ocorreu com o cataclisma que dilacerou o Partido Social Liberal, que até o início da semana era o principal pilar de sustentação do governo Bolsonaro no Congresso.

Ao dinamitar o próprio partido e se movimentar para retirar a liderança dos deputados Delegado Waldir e Joice Hasselmann, o governo fez algo inédito no cenário político brasileiro. Afastou de sua órbita políticos que estavam em sua base. Geralmente, o que se vê é o contrário: o Planalto cortejando parlamentares para aumentar seu apoio no Congresso. Com isso, Jair Bolsonaro foi contra uma máxima de Michael Corleone: “Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos mais perto ainda”. Sob a ótica governista, no entanto, a lógica das últimas movimentações parece ter sido: “Mantenha seus inimigos longe e seus amigos mais longe ainda”.

Ainda pela lógica reversa, o presidente também parece agir ao contrário do que ensina, no primeiro filme, o personagem Dom Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando: “Não odeie seus inimigos; o ódio atrapalha o raciocínio”. O roteirista desta película, Mario Puzo (autor também do livro no qual o script se baseia), não poderia estar mais certo: seguir os impulsos da raiva cegam uma pessoa e podem provocar estragos. Especialmente quando se senta na principal sala do terceiro andar do Palácio do Planalto.

O que acontece agora? A ponte foi dinamitada e não há mais condições de o governo contar com o PSL. Como não há janela partidária para migração dos congressistas alinhados com a presidência para outra agremiação, a solução mais sensata parece ser a de uma fusão entre siglas pequenas formando uma nova. Com isso, haveria espaço para abrigar parlamentares não só do PSL mas também de outros partidos. O desafio será atrair estes novos nomes. Afinal, a lição que se tira é que, em matéria de sigla partidária, o governo exige fidelidade absoluta e não admite ceder em relação a seus princípios. Não é exatamente música para os ouvidos de quem labuta no Parlamento.

Como reverter este quadro e recompor suas relações com o Congresso? A primeira lição está na cautela em lidar com quem está do outro lado do front, como diz Don Corleone nesta frase: “Eu converso com meus inimigos e, às vezes, até os respeito, mas isso não quer dizer que eu confie neles”. A prudência, neste caso, segundo o personagem de Marlon Brando, também é necessária: ” Só corra riscos se puder lidar com as consequências”. Por fim, a sabedoria que surge do convívio com os opostos pode ser extremamente útil para quem precisa ter calma e saber arregimentar apoios. Construir esta sabedoria é algo importante para quem está em comando. É o que Don Corleone afirma em um determinado momento do primeiro filme: “Homens realmente grandes não nascem grandes, tornam-se grandes”.

Vamos esquecer por um instante que esta película é sobre um mafioso que está passando o bastão para seu filho, que em tese é um herói de guerra e nada quer com a Cosa Nostra. O subcontexto do roteiro é uma narrativa poderosa sobre a construção do poder e de sua manutenção, através de ações sutis ou explícitas. Trata-se de uma lição sobre como obter respeito sem utilizar necessariamente a força e o poder. Algo que, após a implosão do PSL, o governo poderia começar a exercer.

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