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Gay Talese: quando o jornalismo pode ser uma arte

Aluizio Falcão Filho
11 de outubro de 2025

Nesta semana, vi duas menções ao último livro de Gay Talese. Uma na grande imprensa; outra em post de uma colega jornalista nas redes sociais. Nós, profissionais da escrita, temos um fetiche por este autor de 93 anos, que lançou há pouco tempo “Bartleby e eu”, uma espécie de autobiografia disfarçada, na qual elenca obsessões, frustrações e conquistas. É dele um dos maiores “leads” da história do jornalismo (“lead”, no jargão dos repórteres, editores e redatores é o início de um texto jornalístico).

Talese foi enviado em 1966 pela revista Esquire de Nova York para Los Angeles para fazer um perfil de Frank Sinatra. Ao chegar lá, descobriu que o cantor estava resfriado — e, por isso, não queria falar com ninguém. Em vez de desistir, o jornalista decidiu não conversar com Sinatra e construir o perfil a partir de observações de pessoas que o conheciam: seguranças, amigos, músicos, garçons e fãs (ele realizou mais de cem entrevistas para escrever quinze páginas).

O início do texto, econômico e inesquecível como os quatro acordes da Quinta Sinfonia de Beethoven, marcou gerações. E é citado à exaustão por jornalistas que querem mostrar a genialidade esondida na escolha das palavras certas: “Frank Sinatra está resfriado. Sinatra resfriado é como Picasso sem tinta, uma Ferrari sem combustível — só que pior.”

O fascínio que os jornalistas têm por Gay Talese vai muito além da admiração técnica. Temos uma reverência ao que ele representa: elegância, profundidade e uma narrativa fluida que parece cada vez mais rara. Talese não é apenas um repórter; ele é um alfaiate da linguagem, alguém que costura frases com a precisão de quem molda um terno sob medida.

Ele é um dos papas do “New Journalism”, um estilo surgido na década de 1960, que mistura técnicas literárias com reportagem factual, criando textos que têm o ritmo de romance e a seriedade que se vê em investigações. Além de Talese, os grandes nomes desse movimento foram Tom Wolfe, Truman Capote e Norman Mailer.

Parte do encanto que temos por Gay Talese vem da obsessão pelos detalhes, que ajudam a construir perfis minuciosos e poéticos. O resultado? Textos lendários. É o caso de “Frank Sinatra Has a Cold”. Ele não precisou da voz do personagem para contar sua história. Bastou ouvir os mundos que gravitavam ao seu redor.

Em tempos de superficialidade digital, Talese persiste como o símbolo de uma época na qual o jornalista era quase um artesão da palavra, alguém que tratava o texto como arte, não apenas como informação. Ele nos lembra que o jornalismo pode ser literatura — e que o repórter pode ser um romancista da realidade.

Philip Graham, publisher do Washington Post no início dos anos 1960, dizia que “o jornalismo é o primeiro rascunho da história”, uma frase que captura bem a natureza provisória e urgente da cobertura jornalística. Mas Gay Talese foi a exceção brilhante a essa regra. Seus textos não eram rascunhos: eram versões definitivas, esculpidas com precisão e elegância, da história que se desenrolava diante de seus olhos e através de suas teclas de sua máquina de escrever. Talese transformava reportagens em literatura, capturando nuances humanas com tal profundidade que seus artigos pareciam resistir ao tempo, como se já nascessem clássicos. É o caso do perfil de Frank Sinatra e de muitos outros.

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