Recentemente, maratonei um seriado chamado “Gotas divinas” (imagem), lançado em 2023, no streaming. A primeira temporada é espetacular (a segunda, nem tanto) e prende o espectador do início ao final. A trama é inusitada: um grande especialista em vinhos morre e deixa uma fortuna considerável, superior a 150 milhões de euros. Em seu testamento, ele estabelece, no entanto, que essa herança fique para o vencedor de uma disputa entre sua filha, Camille, e o seu discípulo mais talentoso, o japonês Issei. Tudo gira em torno do universo vinífero, o que não deveria ser um problema para a moça, não fosse um único detalhe: devido a um trauma de infância, toda a vez que ingere álcool, desmaia e sangra pelo nariz.
Durante os capítulos, descobrimos que o falecido era uma pessoa que tinha rompantes de crueldade e que era obcecado por seu trabalho, distribuindo traumas ao seu redor. Mas essas marcas emocionais também podem ser encontradas com fartura na família abastada de Issei, comandada pelo avô empresário e pela mãe tirânica.
Ao longo dos capítulos, fui mergulhando nas feridas afetivas dos personagens e percebi que há dores que sobrevivem à morte de quem as criou. Mas, ao mesmo tempo, essas mágoas ganham mais força quando moldadas por aqueles cujas alegrias são fugazes.
Em “Gotas divinas”, o pai de Camille e a família de Issei funcionam quase como figuras-fantasma: mesmo ausentes, continuam determinando o comportamento, os medos e os limites dos personagens. O pai cruel se tornou uma voz interna exigente, o avô autoritário instituiu um padrão imperial de obediência e a mãe autoritária implementou no filhos vários filtros de culpa e inadequação. É como se os personagens principais carregassem, dentro de si, versões editadas desses familiares, que ditam seus comportamentos.
Trata-se de uma espécie de herança invisível: crenças, medos, vergonhas e expectativas impossíveis acabam crescendo silenciosamente dentro de pessoas como Camille e Issei. Pode-se perceber que suas vidas foram marcadas por alegrias fugazes ou por uma sensação de vazio, onde essas mágoas encontram terreno fértil. Cada frustração nova parece confirmar a ferida antiga. Assim, o trauma inicial vira uma espécie de lente pela qual o mundo é visto.
Ao mesmo tempo, a série mostra que o sofrimento é passado de geração em geração. O pai de Camille foi ferido por alguém? O avô de Issei aprendeu a ser prepotente em outro contexto? A narrativa sugere um ciclo: quem não elabora suas dores pode passá-las adiante. A obsessão do pai pelo vinho, por exemplo, é uma forma de fuga e de controle. Mas, para quem está ao redor, vira abandono, frieza, violência emocional.
É o caso de perguntarmos: até que ponto o passado governa quem você é hoje? E o que podemos fazer com essa herança emocional quando percebemos que os traumas estão moldando nossas escolhas e os nossos vínculos?
O roteiro de “Gotas divinas” abre uma porta importante: embora não possamos escolher a origem das nossas feridas, podemos decidir o que fazer com elas. Podemos perpetuar um ciclo ou interrompê‑lo. Temos a escolha de repetir a voz que nos machucou ou aprender a falar conosco de outro jeito. A disputa pela herança no seriado é um alerta: o prêmio real é a possibilidade de cada personagem — e de cada um de nós — descobrir que existe vida além das dores do passado e que a liberdade começa quando nos tornarmos autores do próprio caminho.