Recebi nesta semana uma mensagem de um amigo. Ele me mandou o texto de um empresário, que comparava a vida com um fogão de quatro bocas. Esses queimadores seriam: família, trabalho, saúde e amigos. A lógica desta tese, creditada ao escritor e radialista David Sedaris, seria a seguinte: para alguém ter sucesso, é preciso apagar uma das bocas. Mas para obter um êxito estrondoso, precisará desligar duas. Com isso, uma pessoa poderia concentrar sua energia no trabalho e, assim, obter uma carreira triunfante.
Sedaris não é exatamente um filósofo, sociólogo ou psicanalista. Estudou artes plásticas e é um comediante reconhecido por tiradas originais e críticas, como a teoria do fogão de quatro bocas. Portanto, sua hipótese não tem fundamentos científicos, embora seja divertida e possa fazer algum sentido.
Respondi ao meu amigo que não concordava com a tese, por dois motivos. Primeiro, mandei a ele uma foto de meu fogão:

Como se pode ver, ele tem cinco bocas, e não quatro. O quinto queimador seria o tempo que precisaríamos dedicar à leitura, à reciclagem, ao estudo ou às artes (cinema, pintura, música etc.). Mas se você observar atentamente, verá que meu fogão tem bocas de tamanho diferente (apenas duas, a de cima, têm dimensões semelhantes).
Acredito que ninguém vai conseguir dividir a vida em quatro compartimentos iguais (ou em cinco). E muito menos desligar totalmente duas seções de seu cotidiano. Vamos dizer que alguém vá privilegiar o trabalho e a família, negligenciando a saúde e os amigos. Os familiares, no entanto, vão interferir para que esse indivíduo se cuide melhor ou trazer os amigos para perto.
Em nosso cotidiano, temos sempre que nos equilibrar diante de várias demandas. Por isso, ao longo dos anos, vamos trocando prioridades. Muitos anos atrás, eu não tinha filhos, não era casado e tinha saúde de ferro. Portanto, me dedicava totalmente ao trabalho, às relações amorosas e aos amigos. Hoje, procuro deixar abertas as minhas cinco bocas de fogão. Mas sei que o tempo dedicado a cada uma delas será diferente. Nestes últimos dias, por exemplo, li bem menos do que o habitual, pois tive uma pesada agenda de trabalho em Nova York. Mas, na quinta-feira, estava procurando o meu kindle em casa, para retomar as leituras que foram pausadas.
Ao longo de minha trajetória profissional, tenho acompanhado de perto a vida de alguns bilionários. Ao contrário do que pode parecer, este dia a dia dos ultra ricos não é muito diferente daqueles que estão na classe média alta. Trabalha-se muito, há pouco tempo para o lazer e a família – e são poucos os que dedicam um tempo significativo para atividade física e alimentação correta.
Ter sucesso estrondoso não é fruto apenas de uma dedicação imensa ao trabalho ou de inteligência aguda. Há muitos multimilionários que não são brilhantes. Mas todos os bilionários – com exceção de alguns herdeiros ou de quem executou um golpe de sorte – são inteligentíssimos e curiosos. Têm ideias transformadores e buscam novas informações o tempo todo. Por isso, sua agenda é tomada pelo trabalho.
Mas há workaholics que nunca serão multimilionários ou bilionários. Trabalhar bastante é importante para o sucesso. Mas não é o bastante. Alguém pode fechar todas as outras bocas do fogão além do trabalho e, mesmo assim, pode nunca ter a oportunidade de brilhar no campo profissional. Sucesso é algo complexo e não requer apenas esforço ou fazer opções corretas. É preciso centelha. Inspiração. Liderança. São qualidades que não são necessariamente adquiridas quando se trabalha 24 horas por dia.