O cérebro humano é uma coisa impressionante. Trata-se de um órgão que pesa menos de um quilo e meio. Uma massa orgânica que permite habilidades que não existem em outras espécies. E que, de quebra, acumula conhecimento e cataloga nossas experiências em forma de memória. Nosso arquivo, no entanto, não se limita ao acúmulo de dados e informações. Muitas emoções estão ali gravadas, esperando um gatilho para vir à tona.
Quantas vezes, por exemplo, você ouviu uma canção antiga no rádio e se transportou automaticamente para um momento que viveu no passado? Ou sentiu um perfume que te lembrou alguém querido (isso ocorreu recentemente comigo em uma viagem, quando mostrei à minha família a fragrância que minha mãe usava)? E o que dizer da imaginação? Nossa capacidade de enxergar algo que existe apenas em nossas mentes é algo especial. Temos também a habilidade de construir em nossas cabeças imagens a partir daquilo que lemos, ficção ou não.
Na prática, criamos universos em nossos cérebros. Filtramos o que vemos e sentimos através daquilo que se amealhou na mente ao longo dos anos. Quando entendemos bem a nossa trajetória e nossos sentimentos em relação ao mundo, podemos compreender melhor o nosso propósito. Assimilar quais são nossas habilidades é um combustível necessário para realizar nossos intuitos.
Estamos falando de questões ligadas à humanidade. São importantes e precisam ser exaltadas, especialmente no momento atual, quando todos enaltecem a tecnologia como uma ferramenta indispensável de crescimento e de superação. Evidentemente, não podemos descartar a Inteligência Artificial para melhorarmos tudo o que está ao nosso redor. Mas não podemos ceder à preguiça. Vejo nas redes sociais pessoas defendendo o uso indiscriminado de IA (em textos que foram escritos pela ferramenta) como uma vantagem competitiva.
Antes de mais nada, um esclarecimento: sou um entusiasta do uso da IA. Mas a utilização indiscriminada da Inteligência Artificial pode ser um problema. Vejamos o uso da IA para escrever. Aqueles que têm dificuldade com a escrita, por exemplo, podem ditar parâmetros e sair um com texto razoável. Mas quem conhece os meandros do texto verá rapidamente que aquelas palavras foram redigidas por uma máquina (provavelmente entre a terceira e a quarta linha de leitura).
Hoje, apenas poucos percebem isso. Mas, com o passar do tempo, quase todo mundo vai ver quem usou a IA para redigir. Evidentemente, quando isso ocorrer, as ferramentas artificiais de redação darão outro salto. Mas, por mais que a tecnologia avance, sempre haverá um problema: a falta de originalidade e de um estilo específico. Essas qualidades podem fazer uma diferença enorme em um mundo no qual todos vão usar a IA.
Muitos dizem hoje que o uso dos prompts é mais importante do que a própria Inteligência Artificial em si. E já existem cursos e manuais para que as pessoas façam perguntas melhores para seus copilotos. Nada contra. Mas isso é combater o efeito e não a causa.
Para fazer perguntas melhores à IA, é preciso ampliar o repertório. E isso não ocorre apenas com o empilhamento de dados e de referências em nossas mentes. Precisamos também raciocinar sobre as informações que acumulamos, cruzar essas ideias com outras e questionar nossas conclusões.
Teremos, daqui para frente, trabalhar como filósofos: ler e questionar. Formular pensamentos e depois debatê-los. Para, então, usar a IA e ampliar nossas fronteiras. Mas não fazer desta ferramenta o centro de nosso universo.