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A era da picuinha

Há picuinhas que têm sua razão de ser e se fundamentam em raízes sólidas e profundas. São pirraças construídas com base em muita reflexão e ojeriza aos valores mostrados por aqueles que são alvo de provocações. Algumas são históricas: democratas e republicanos, corintianos e palmeirenses ou Coca e Pepsi. Recentemente, porém, vemos a disseminação das picuinhas mais rasteiras – como se toda a população tivesse a sua cota particular de implicâncias.

São rivalidades que foram forjadas na era das mídias sociais e, portanto, permitem discussões instantâneas e apaixonadas. Tanto as picuinhas antigas como as novas têm algo em comum: o confronto apaixonado e os julgamentos pré-estabelecidos.

Nessa era das picuinhas, a provocação é uma ferramenta à disposição de todos. Os opostos estão o tempo todo se cutucando e testando limites –e, muitas vezes, o propósito é apenas polemizar e atiçar os rivais do que ter necessariamente razão em um debate.

Os antagonistas, muitas vezes, nem avaliam seus argumentos. Muitos repassam fake news sem pestanejar. Basta que as notícias falsas corroborem um determinado ponto de vista ou que provoquem um verdadeiro salseiro do outro lado da fronteira.

Esse comportamento tem como ícone maior o presidente Jair Bolsonaro. Ele parece ser teleguiado pela vontade incontrolável de provocar seus adversários – nem que tenha de utilizar artifícios estapafúrdios. Um exemplo disso ocorreu há poucos dias, quando ele disparou uma verdadeira barbaridade durante sua última “live”.

“Outra coisa grave aqui, só vou dar a notícia, não vou comentar, já falei sobre isso no passado e apanhei muito. Relatórios oficiais do governo do Reino Unido sugerem que os totalmente vacinados, quem são os totalmente vacinados? Aqueles que depois da segunda dose, 15 dias depois após a primeira dose… estão desenvolvendo a Síndrome de Imunodeficiência [N.R.: Aids] muito mais rápido que o previsto”, afirmou Bolsonaro.

A estultice, retirada de um site especializado em fake news sobre vacinação e devidamente repassado sem a checagem necessária, é um insulto à inteligência alheia. Qualquer indivíduo com QI igual ao superior ao do personagem Forrest Gump não repassaria esse tipo de informação. Mas, em nome da picuinha, o presidente fez aquilo que seus seguidores sempre pedem nas redes sociais: repassou sem dó.

Bolsonaro tem a picuinha em seu DNA. Ele sempre foi movido a bravatas durante o tempo em que foi deputado federal. Um bom exemplo é sua declaração de voto favorável ao impeachment de Dilma Rousseff, quando ele aproveitou para encaixar uma apologia ao coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Ao escancarar este comportamento como presidente da República, Bolsonaro acabou influenciando centenas de milhares de pessoas (para não dizer milhões) que pensam como ele e tiveram, no passado, pudores para dizer em público o que pensavam.

Estamos diante de um fenômeno interessante, no qual, para esse grupo, a picuinha é prima-irmã do ressentimento.

Quando o ressentimento toma conta de alguém, essa pessoa destila fel na primeira discussão. E qualquer debate passa a ser uma disputa de vida ou morte. Hoje, vemos nas redes sociais, pessoas absolutamente tomadas por este espírito, mostrando um comportamento lastimável. Esta atitude, quase que onipresente nos apoiadores fanáticos do presidente, também pode ser visto no outro lado do espectro ideológico.

Hoje, a raridade está em encontrar uma discussão – política ou não – que seja pautada pelo respeito e pela genuína curiosidade em relação à argumentação alheia. O espírito competitivo do ser humano, nessas horas, parece falar mais alto que o aspecto racional. Mas, quando combinado com a capacidade de provocar o adversário, as palavras se transformam em instrumentos de catimba e agressão. Até quando teremos que conviver com as picuinhas que dominaram a arena política?

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