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A brasileira que desbravou Hollywood

Aluizio Falcão Filho
19 de abril de 2026

Quando era garoto, todos os domingos chegava um jornal em casa, chamado Shopping News. Publicado pelo mesmo grupo que editava o Diário do Comércio e Indústria, era distribuído gratuitamente e bancado exclusivamente por publicidade. Até por isso, o conteúdo não costumava ser dos melhores. Mas havia uma colunista que acompanhava semanalmente: a jornalista Dulce Damasceno de Brito.

Especializada em cinema, ela havia morado 16 anos em Hollywood e contava histórias saborosíssimas, cheias de detalhes que apenas uma testemunha ocular dos fatos poderia relatar. Em 1952, conseguiu convencer Assis Chateaubriand a enviá-la aos Estados Unidos como correspondente em Los Angeles, para cobrir os bastidores de Hollywood.

Uma figura carimbada do Jet Set internacional foi crucial para que as portas dos grandes estúdios fossem abertas a ela: o playboy carioca Jorge Guinle, que já circulava com desenvoltura por Hollywood.

Com acesso liberado aos sets de filmagem, Dulce rapidamente se tornou conhecida entre produtores, assessores e artistas. Seu jeito afetuoso e seu entusiasmo pelo cinema abriram portas que poucos correspondentes estrangeiros conseguiam atravessar. Ela passou a circular com facilidade em ambientes reservados e a ser convidada para encontros informais com celebridades.

Ao longo dos 16 anos em que viveu em Hollywood, entrevistou e conviveu com nomes como Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Rock Hudson, Cary Grant, Marlene Dietrich, James Stewart, Charlton Heston, Audrey Hepburn, John Wayne, Sophia Loren, James Dean, Gregory Peck, Walt Disney, Grace Kelly, Elvis Presley e Carmen Miranda, com quem estabeleceu uma amizade próxima.

Com Marilyn, criou uma relação cordial. Dulce a conheceu na década de 1950  e sempre a visitava durante suas filmagens. Em 1960, durante as gravações de “Adorável Pecadora”  Marilyn apresentou Yves Montand a ela, dizendo: “Sei que você só gosta de homens bonitos, mas este aqui é um feio superlindo!”.

A morte de Carmen foi um choque para ela, pois as duas tinham conversado horas antes que a Pequena Notável tivesse o ataque cardíaco fatal. Ela relata minúcias – do endereço à descrição da casa – que só poderiam ser resenhadas pelos mais íntimos amigos de Carmen Miranda. “Corri para sua casa sem acreditar naquelas palavras que soavam ocas. Mas o 616 de North Bedford Drive já não era o mesmo lar acolhedor de antes. Nem o seu pobre corpo, contorcido e roxo pelo rompimento das artérias encontrava-se mais lá, removido que fora para o mortuário. Havia apenas o desespero de dona Maria, mãe e amiga de todas as horas. As fantasias de baiana – recém-retiradas das malas de Havana – espalhavam-se pelos sofás do enorme e deserto living-room. […] As raquetes de badmington estavam abandonadas no quintal – as mesmas que Carmen e eu usáramos cinco dias antes, para uma partida do esporte que ela mais gostava”, escreveu Dulce em “Hollywood nua e crua – Parte II”.

Este livro foi publicado em 1992, uma sequência da autobiografia lançada em 1968. Dulce inaugurou a minha galeria particular de “nunca te vi, sempre te amei”, de escritoras que admiro e que nunca conheci (deste seleto grupo de autoras, há também a americana Nora Ephron e a brasileira Fernanda Young). Ela fez parte de meus domingos até a idade adulta, quando ela parou de publicar sua coluna no Shopping News.

Para mim — e para tantos leitores que a acompanhavam religiosamente aos finais de semana — ela foi uma espécie de ponte afetiva entre o Brasil e um mundo que parecia inalcançável. Suas crônicas tinham o poder raro de transformar estrelas em pessoas, sets de filmagem em salas de estar e Hollywood em um bairro vizinho.

Dulce se foi em 2008. Desbravadora, ela foi uma figura importante no jornalismo em uma época na qual os homens eram dominantes nas redações. Ela foi extraordinária em seu métier: conseguiu furos jornalísticos e deve ter sido a única a obter a façanha de ter entrevistado Marlon Brando três vezes. De texto fácil e conciso, Dulce conseguia mostrar o lado humano das celebridades, sempre desfiando um detalhe aqui e outro ali. Tenho saudade de suas colunas e do tempo em que o glamour ainda arrebatava o interesse de multidões. Dulce faz parte de uma época de elegância e charme. Características que – como ela – fazem falta ao mundo de hoje.

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