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Mais histórias de mobilidade social no Brasil

Mais histórias de mobilidade social no Brasil

Ontem publiquei uma coluna com depoimentos colhidos em um evento recente de MONEY REPORT sobre CEOs e empresários com uma origem muito simples. Escolhi cinco casos de pessoas que estavam em nosso workshop, mas acabei recebendo ligações e mensagens de WhatsApp de outros amigos que tiveram uma experiência semelhante. Aproveito para citar três neste espaço.

O primeiro é um caso do CEO de uma multinacional que nasceu em um casebre, numa pequena cidadezinha do Mato Grosso do Sul. Fugindo da miséria, sua família veio para São Paulo. Aqui, a vida era dura e o dinheiro contado. Ele e o irmão começaram a recolher papelão pelas ruas para aumentar a renda familiar (uma situação semelhante à de um CEO de quem falei ontem), mas a grana era pouca e instável. Conseguiu, então, um lugar para catar bolinhas em um clube com quadras de tênis para alugar. Daí, fez um curso de datilografia e entrou no colégio técnico.

Como pagar a escola? A solução foi se virar como office-boy em um banco. Mas ele não se contentou. Entrou na faculdade e continuou a procurar oportunidades para progredir. O primeiro salto foi dado quando obteve um estágio na Duratex – uma empresa do grupo Itaúsa e com grande potencial de crescimento. Emendou o estágio com uma contratação em sua carreira deslanchou. Hoje, é um dos nomes mais importantes do setor de tecnologia no Brasil. Mas engana-se quem acha que ele pensa apenas em sua carreira. Trata-se de uma das pessoas mais voltadas à família que conheço, além de ser um indivíduo com forte vocação espiritual.

Outro exemplo também chegou até mim ontem e mostra que, muitas vezes, não existem coincidências. Estamos falando de um ex-CEO de várias empresas, que foi mordido recentemente pelo bichinho do empreendedorismo serial. Ele já investiu em várias startups e chegou a implementar algumas delas (já está na terceira). Sua origem também é muito humilde. É filho de imigrantes portugueses. O pai tocava um pequeno bar e a mãe vendia marmitas.

Com oito anos de idade, ele achou que estava na hora de trabalhar. E foi ser engraxate em uma pequena padaria no bairro onde morava. E é aqui que entra o que parece ser uma grande coincidência. Neste final de semana, ele foi até o bairro onde morava, por onde não batia pernas há vinte anos. E visitou a tal panificadora. Tomou um café e ficou observando a coluna onde engraxava os sapatos dos clientes na Vila Guarani. Com essas memórias fresquinhas na cabeça, ele leu a coluna de ontem e se identificou com as histórias contadas por alguns CEOs que, inclusive fazem parte de seu convívio social.

Este empresário e ex-engraxate é uma das maiores cabeças de marketing do Brasil. Tem um vasto conhecimento de vendas e foi apresentado aos maiores gurus de administração do mundo, pois comandou uma empresa na qual teve acesso a essas mentes privilegiadas. Ele tem várias histórias para contar com Philip Kotler e Peter Drucker, por exemplo. Mas talvez a melhor lição de marketing que já recebeu tenha vindo de seu pai, quando ainda era um pré-adolescente.

O pai deixou-o ajudar no balcão e ele, todo orgulhoso, colocou a primeira cerveja no balcão, do lado direito do freguês. O velho, em seguida, limpou o balcão e trocou a posição da garrafa, desta vez colocando-a do lado esquerdo. No segundo cliente, imitou o pai e botou a bebida do lado esquerdo. Mas o genitor foi lá e mudou novamente a posição da cerveja. Isso ocorreu mais duas vezes, até que o hoje empresário se enfureceu e foi perguntar ao pai por que ele trocava as garrafas de lugar. A resposta: os clientes, se puxarem um papo com o vizinho de balcão, vão bebendo e consumindo. Caso contrário, tomam uma cerveja e vão embora. O menino estava deixando as garrafas do lado errado, impedindo que os fregueses iniciassem conversa um com os outros. Foi então que nosso amigo recebeu uma das primeiras lições de marketing de sua vida – a de que uma venda em um boteco simples poderia, na verdade, ser uma experiência que traria valor agregado aos clientes, aumentando o tíquete médio do bar da família.

Por fim, conto a trajetória de um amigo que conheci há quinze anos e é um dos maiores empresários do ramo de alimentação do país. Logo que fui apresentado a ele, percebi que ele tinha muitas cicatrizes nos dois antebraços. Aquilo me intrigou – afinal de contas, uma das principais características dos jornalistas é justamente a curiosidade – e, na primeira oportunidade que tive, perguntei sobre aquelas marcas.

Ele me disse, então, que tinha começado sua vida como garçom. E que, às vezes, tinha de levar dois, quatro ou seis pratos de uma vez só, sem bandeja. O único jeito era apoiar algumas louças no antebraço – só que, muitas vezes, elas estavam pelando. E queimavam a pele. Mas isso não o impedia de anunciar a chegada dos pratos aos clientes com um sorriso no rosto.

Essa perseverança o guiou durante toda a sua vida. Hoje, ele serve mais de um milhão de refeições diárias. E está sempre abrindo novas frentes de negócios e buscando oportunidades. Incansável e sem ligar para as dificuldades. As feridas da pele foram curadas e mostraram que os resultados que estavam esperando à frente valiam cada sacrifício.

A alma do empreendedor brasileiro, sintetizada por essas e outras histórias, parece ser traduzida com perfeição por uma frase dita pela escritora J. K. Rowling, autora da série “Harry Potter”: “O fundo do poço se transformou na base sólida sobre a qual eu reconstruí a minha vida”. Ou seja, é viver a certeza inexorável de que o futuro será melhor que o passado. Isso impele os empreendedores a passar por cima de todas as intempéries, arregaçar as mangas e realizar seus objetivos – e, convenhamos, temos aqui no Brasil mais dificuldades e obstáculos do que seria desejável. Mesmo assim, vemos diariamente milhões de empresários (pequenos, médios e grandes) levantando da cama com o objetivo muito claro: crescer e criar um legado. Não apenas ganhar dinheiro, mas deixar para as gerações futuras um exemplo a ser seguido. Este é o espírito do empreendedorismo brasileiro.

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