“Poltergeist”, em alemão, quer dizer “espírito barulhento”. É o nome de um filme de terror de 1982, no qual uma criança é sugada para uma dimensão espiritual paralela e desaparece de sua casa. Boa parte do filme mostra o esforço da família em resgatá-la deste limbo sobrenatural. Finalmente, a menina volta. Mas o filme ainda não acabou e isso cria uma tensão crescente entre os espectadores. Finalmente, ocorre outro fenômeno paranormal – muito pior que o primeiro – e um verdadeiro show de terrores aparece na tela.
Este roteiro, cujo autor é o cineasta Steven Spielberg, tem um grande paralelo no caso do Banco Master. Houve um início, no qual Daniel Vorcaro foi preso e boa parte de seus estratagemas para proteger sua instituição foi revelada. Agora, parece que estamos em uma fase em que nada acontece. Mas o grande risco é estarmos na antessala da grande manifestação do horror: uma anulação do processo contra o ex-banqueiro.
Essa é a impressão que se teve na semana que passou após a participação de Gilmar Mendes no programa Roda Vida, da TV Cultura. O ministro declarou à bancada de entrevistadores que seu colega, André Mendonça, havia cometido “impropriedade” e “erro crasso” durante a relatoria do caso Master.
Ao comentar a entrevista do ministro, o jurista Walter Fanganiello Maierovitch, escreveu o seguinte em sua coluna no UOL: “Gilmar frisou ter avisado sobre as nulidades da Lava Jato. Numa síntese, deu no que deu, apesar dos seus avisos premonitórios. Na antevisão dele, o caso Master está tomando o mesmo caminho, caso seja mantida a linha condutora imposta pelo ministro relator, André Mendonça”. Existe um temor, no mercado financeiro, que Gilmar Mendes (possivelmente acompanhado por Alexandre de Moraes e Dias Toffoli) estaria tramando para melar todo o inquérito com base em supostos erros de Mendonça.
Portanto, o paralelo com “Poltergeist” faz sentidoo. No filme, o horror maior não é o desaparecimento da criança, mas o que vem depois, quando a família acredita que tudo acabou. No caso Master, os agentes financeiros temem exatamente essa sequência: uma fase de aparente calmaria que antecede a manobra decisiva. Se Gilmar Mendes conseguir construir a narrativa de que o processo está contaminado por vícios formais, o inquérito pode ser esvaziado antes de chegar a qualquer conclusão substantiva. A estratégia é conhecida: atacar o procedimento para salvar o réu.
Lembremos o histórico de Gilmar Mendes durante a realização da Lava Jato. O ministro foi um dos principais artífices do desmonte daquela operação, e os instrumentos que utilizou então (arguição de nulidades, suspeição de magistrados, desconstrução de atos processuais) estão todos disponíveis agora. A menção ao “erro crasso” de André Mendonça no Roda Vida soa menos como uma análise jurídica e mais como a preparação do terreno.
O que está em jogo ultrapassa a figura de Daniel Vorcaro. O Banco Master prejudicou milhares de investidores, especialmente fundos de pensão (depósitos obtidos, muitas vezes, através de métodos nada republicanos). Se o inquérito for anulado por manobra regimental, a mensagem enviada ao sistema financeiro é a de que as conexões políticas de um determinado banqueiro são mais relevantes que as regras de mercado. Isso em si já seria um problema. Mas a confirmação judicial desta estratégia seria uma tragédia de outra ordem.
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